Videotape n’A Boina nº61: Thomas & seus Amigos nos trilhos da imaginação

Estalando pelos trilhos, ai está o grande astro do VTnaB neste fim de semana. Acompanhado de seus companheiros de linha, Thomas & Seus Amigos, um ícone da infância e encanto para quem aprecia o mundo ferroviário (Reprodução)

(André Bonomini)

Saudações, videotapers fumegantes! Espero que esta os encontre bem!

Sim, hoje sou eu que estou comandando o VTnaB, em uma breve substituição ao grande amigo Luke Baldin. Algumas ocupações o impediram de estar conosco neste sábado. Mas na falta dele que será descontada nos salários e aumentada nas chicotadas vou convida-los a dar uma volta por aqueles trilhos da imaginação que cativaram a crianças e, por que não, alguns amantes das ferrovias nos anos 2000 no Brasil.

Bom, em alguma parte do Atlântico Norte, bem próximo a costa da Inglaterra, uma pequena ilha destaca-se pelo seu transporte de carga e passageiros feito, quase que exclusivamente, por trens. Estas máquinas, à vapor ou diesel, são tão trabalhadoras quanto os homens e mulheres que comandam os rumos da linha, e quando digo isso falo que eles tem sentimentos, comentem erros, sorriem, choram, ficam nervosos, se gabam e ganham o dia quando recebem uma nova pintura ou são elogiados como prestativos.

Se você, neste primeiro trecho, pode compreender de quem estou falando sabe que esta bela ilha reside, claro, no mundo da imaginação. Fruto das fantasias de um reverendo anglicano, que na imaginação movida a batidas de trilhos e vapores, encantou seu filho e meio-mundo com suas histórias fantásticas envolvendo simpáticas locomotivas.

Naturalmente, este é o mundo maravilhoso da Ilha de Sodor, onde Sir. Topham Hatt comanda com mão de ferro e de jeito bonachão a fantástica ferrovia onde lá trabalham Thomas & Seus Amigos, uma atração marcante nas manhãs e tardes do Discovery Kids brasileiro no meio dos anos 2000.

Da máquina da revolução aos contos infantis

As locomotivas a vapor foram a grande marca da Revolução Industrial. A Grã-Bretanha foi a grande beneficiada com o advento do vapor, expandindo seus negócios e seu domínio no velho continente. Um mundo de água gasosa que inspiraria um jovem as margens da Great Western (Reprodução)

Diz-se, muitas vezes, que a Revolução Industrial também foi a revolução do vapor. As máquinas movidas pela água em estado gasoso transformou toda a escala produtiva de várias nações, especialmente na Europa, de uma forma sem precedentes. Ela mudou a forma como o homem se relacionava com os meios de produção e o mercado, fazendo e vendendo muito mais e gerando divisas jamais vistas.

A Grã-Bretanha, cujo império o sol nunca se punha, tornou-se ainda mais poderosa quando adaptou o invento do escocês James Watt em empresas e meios de transporte. O trem foi um dos símbolos deste momento histórico. A maquina foi um resultado de anos a procura de uma forma eficiente de fazer o homem andar mais rápido que as carruagens da época. Logo, aquela máquina possante estava puxando cargas, pessoas, o progresso em si. Espalhou-se pelo mundo e, ainda hoje, suas referencias se misturam entre o trabalho e a nostalgia de tempos de ouro.

O velho Rev. Wilbur Awdry com o pequeno Thomas. O sibilar dos trens da Great Western perto de casa inspirou sua imaginação, que anos mais tarde recordaria estas histórias para seu filho e para os livros (Reprodução)

Mas aonde quero chegar com esta história toda? Claro, falei da Grã-Bretanha e de seu progresso movido a vapor, que irrompeu pelo início do século XX sem dar trégua e consolidou ainda mais o poderio da Union Jack no mundo. Assim, chegamos a 1917, um ano antes do fim da Primeira Guerra Mundial, onde os britânicos começavam a acertar o passo na guerra diante dos alemães e seus capacetes de aço.

E foi neste acelerado ambiente de transformações e conflitos que uma criança, perdida nas suas brincadeiras imaginarias, ouvia o sibilar dos trens passando próximos a casa onde morava. Era uma linha da famosa Great Western Railway que cruzava a silenciosa vila de Box, em Wiltshire, na Inglaterra. O garoto em questão seria lembrado por gerações de britânicos graças a esta imaginação fértil envolvendo trens: Wilbert Awdry.

Muitos anos depois disto, já casado e tornado Reverendo da Igreja Anglicana, Wilbert acabou cativando o filho, Christopher Awdry, a ter a mesma paixão por trens e ferrovias. Em 1943, Christopher havia contraído sarampo e estava acamado. A unica distração da criança eram as histórias que seu pai lhe improvisava ao pé da cama, todas elas envolvendo os trens que cativavam-lhe a infância. O garoto ficou tão maravilhado que pressionou o pai a botar os contos no papel.

O primeiro livro da série, de 1945. Lançado a custa de muita insistência da esposa e do filho do Reverendo. Em destaque, Gordon (a direita), Henry (verde) e Edward, os primeiros persoangens (Reprodução)

O Reverendo Awdry não tinha intenção de publica-los comercialmente. Mas a insistência da esposa, Margaret, o fez procurar um editor e entregar-lhe os manuscritos para uma avaliação. Os contos receberam o nome de The Three Railway Engines (As Três Locomotivas da Ferrovia) e foram publicados por Edmund Ward em 1945 (coincidência, outro ano de guerra!). Eles contavam a história de três locomotivas – Gordon, Henry e Edward – que seriam parte integrante das futuras histórias que viriam.

No natal daquele ano, o Reverendo Awdry presenteou o filho com uma pequena locomotiva azul de madeira que ele mesmo fizeram. Mais tarde, Christopher o batizou de Thomas, e foi deste jeito simples que o grande astro das histórias nos anos seguintes nasceu. Em 1946, saiu para as livrarias o segundo livro intitulado Thomas, the Tank Engine (Thomas, a Locomotiva a Vapor), aparecendo pela primeira vez o cenário fictício da Ilha de Sodor, a cada ano um novo livro de histórias seria lançado.

Para a TV, a maravilha das miniaturas

O Rev. Awdry e seu filho, Christopher, que continuaria as histórias do pai e as levaria para a TV Reprodução)

Foram 26 publicações escritas pelo Reverendo, que aproveitou a semi-aposentadoria a partir de 1972 para responder cartas dos fãs da saga. A obra seria continuada, então, pelo filho e agora papai Christopher, que fez a alegria do filho, Richard, ao criar novas histórias com os trenzinhos que seu pai tinha na cabeça. Em 1979, a produtora de TV britânica Britt Allcroft produzia um documentário sobre antigas ferrovias preservadas na Grã-Bretanha. As publicações dos Awdry foram redescobertas e partiu dali, então, a ideia de dar vida aos trenzinhos.

A estreia de Thomas, The Tank Engine & Friends (em português literal, Thomas, a Locomotiva & Amigos) foi pela emissora britânica ITV em 1984. Foi um sucesso inconteste, fora as crianças encantadas com as histórias, adultos e, especialmente, ferromodelistas, ficaram fascinados com o realismo das miniaturas produzidas para a série e os cenários. E sem mentiras, eram riquíssimos em detalhes. Este escriba não deixa mentir. Assisti aos programas na Discovery Kids, muito mais pela riqueza dos detalhes das miniaturas e cenários do que pelas histórias.

O Reverendo Awdry acompanhando um dia de gravações nos estúdios da série. Miniaturas que não chamaram apenas a atenção de crianças, mas também de adultos encantados pelo ferromodelismo. A direita, ao fundo, a produtora Briff Allcroft, responsável por trazer Thomas a TV (Reprodução)

Um dia de trabalho na gravação dos episódios. Imagens fantásticas de uma bem feita produção (Reprodução)

Um certo Beatle: Ringo Starr narrou episódios de Thomas & Seus Amigos nos três primeiros anos da produção (Reprodução)

A série atravessou gerações, países e conquistou uma legião de fãs. Virou brinquedo educativo na mão da Fisher-Price, trazendo aprendizados e diversão para pequenos em todas as partes do mundo. A estrada de Thomas, da miniatura de madeira e das maquetes realistas dos anos 80, passou para a animação por computador que dão continuidade hoje há 19 temporadas (a última, em 2015) e 13 filmes. No Brasil, Thomas chegou primeiro pela mão da Rede Manchete, passando pelo Discovery Kids, Globo, TV Brasil, SBT e Cultura, sempre com boas audiências.

Christopher Awdry escreveu novas histórias entre 1982 e 1995. E uma curiosidade: Várias celebridades emprestaram suas vozes para narrar os contos de Thomas, uma delas foi a de um certo Beatle, Ringo Starr, que narrou episódios entre 1984 e 1986

A maior malha ferroviária do mundo da imaginação

Eis o mapa da Ilha de Sodor, com toda a malha ferroviária e estações. Sua localização é justo entre a Ilha de Man e a Inglaterra (Reprodução)

Como dissemos, o universo de Thomas passa-se na Ilha de Sodor, localizada ficticiamente (é claro) entre a Inglaterra e a Ilha de Man, no mar da Irlanda. Toda a ferrovia é bem servida por uma rede completa de linhas de trem, responsáveis (em uma análise crua) pelo giro de toda a economia da ilha, seja na movimentação de cargas (mercadorias, minérios, movimentação portuária e afins) como o transporte de passageiros.

Seu diretor é Sir. Topham Hatt, um sujeito gordo, bonachão e que sabe ser um bom chefe, especialmente na hora de ser enérgico com as locomotivas travessas. E são várias as maquinas que trabalham lá, de todos os modelos, tamanhos, tipos de bitola e outros detalhes, sendo movidas a vapor ou diesel. Os personagens humanos são, literalmente, meros coadjuvantes, além de outros veículos falantes, como tratores, veículos e tantos outros.

Abaixo, os principais e outros trens marcantes de Thomas & Seus Amigos:

No entanto, numa avaliação de quem já vira os episódios produzidos dos anos 80, o número de personagens aumentou significativamente e fez perder-se um pouco com tantos trens juntos. Além do mais, a moderna animação gráfica dos trens parece ter tirado um pouco o glamour do passado, das miniaturas realistas que encantavam os ferromodelistas. No entanto, ganhou-se muitos nas expressões dos trenzinhos e outros veículos da trama.

Bom, acho que já falamos demais. Para quem não conhece este tempo dourado das miniaturas (e graças ao bom e velho YouTube) aqui vão alguns episódios de Thomas & Seus Amigos no tempo dos trens em escala. Não tem como não ficar maravilhado com os detalhes ou achar interessantes as histórias. Eram contos curtos, de quatro a nove minutos que trazem lições, risadas, acidentes (e como tem acidente!), sempre regados com uma canção ao fim dos episódios.

Disponíveis – estes e outros mais – na conta de Lukas Peçanha :

Para terminar, apenas um momento sentimental. A mensagem do Reverendo Awdry ao filho, Christopher, impressa no primeiro livro publicado em 1945. Até hoje, nas aberturas dos episódios, ela está presente:

Querido Christopher,

Este é o seu amigo Thomas, a Locomotiva. Ele queria sair de sua estação para ver o mundo. Estas histórias vão contar como ele fez isso. Espero que goste delas porque você me ajudou a fazê-las.

Do seu amado pai.

Sem mais por hoje, permaneçamos nos trilhos da imaginação de Thomas, por onde quer que eles nos levem por Sodor. Na próxima semana, o bom escravo dr. Baldin retorna ao VTnaB, certamente com uma baixa novidade.

(Reprodução)

André para A BOINA encerrando a transmissão. Até breve!

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