Gramming & Marbles (MotoGP): Garra de Dovizioso e vitória de Viñales na noite louca do Catar

Que cartão de visita! Viñales já começou a estada na Yamaha com uma vitória de entrar nos compêndios de história da MotoGP. E não foi só isso no fim de semana maluco de abertura da temporada no Catar. Teve de tudo, de brigas ferozes a quedas doidas (Reprodução)

(Douglas Sardo)

Enfim a espera terminou. Após quatro meses, a MotoGP voltou às pistas trazendo várias mudanças nas duplas de pilotos e carregando enorme expectativa para a primeira etapa de 2017 em Losail, no Catar. E apesar dos problemas notáveis da organização da prova, valeu a pena ter paciência com os adiamentos da largada: A corrida foi simplesmente espetacular, com grandes surpresas e duelos incríveis pela vitória.

No final, triunfou o espanhol Maverick Viñales em sua estréia pela Yamaha, após emocionante batalha com Andrea Dovizioso, da Ducati. O pontapé inicial de 2017 não poderia ser melhor. Vamos aguardar ansiosamente a próxima corrida daqui duas semanas. Enquanto isso, acompanhe como foi este fim de semana maluco e emocionante no meio do deserto.

Essa turminha da pesada vai garantir altas aventuras para você em 2017…As feras da motovelocidade estão de volta! (Reprodução)

Treinos, chuvas e cancelamentos

Eis que a organização do campeonato marca a prova do Catar justamente na época de chuvas na desértica região de Doha. Mesmo sabendo que o circuito de Losail não tem drenagem, justamente devido às raras incidências de precipitações no lugar.

Bom, acontece que choveu no sábado, e como choveu! Uma tempestade que acabou provocando o cancelamento do treino classificatório, jogando literalmente um banho de água fria nos fãs, ansiosos para verem os pilotos em ação.

Um baita sistema de drenagem, diga-se de passagem… Tá certo que chuva no Catar é coisa rara, mas quando vem… (Reprodução)

Para decidir o grid foram usados os treinos livres, de onde foram tirados os melhores tempos de cada piloto. Portanto Maverick Viñales – que dominou a pré-temporada e também as sessões iniciais no Catar – largaria na pole com grande favoritismo. A seu lado na primeira fila estava o surpreendente Andrea Iannone, estreando na Suzuki que até 2016 era justamente de… Viñales.

Marc Márquez fechou a primeira fila com a Honda. Vale destacar também o quarto lugar de Johann Zarco, em sua estréia na MotoGP pela equipe Tech3. Sem se entenderem com suas motos, Valentino Rossi ficou apenas em 10º e Jorge Lorenzo partiria de uma miserável 12º em sua estréia com a Ducati.

Atrasos e show na pista

Atrasos e mais atrasos: Desespero para os fãs, ainda mais sabendo que o sinal da Sportv poderia sair a qualquer momento por conta da grade da emissora. Compreensível, até (Reprodução)

Se no sábado não houve treino, no domingo por muito pouco não teve corrida. Após as provas da Moto3 e Moto2 se passarem em pista seca, a chuva decidiu aparecer momentos antes da corrida principal. Não foi a tempestade do dia anterior, mas sim uma chuva fina que tornou críticos alguns pontos da pista. Os pilotos não queriam correr em condição desnecessária de risco e resistiram à pressão dos organizadores, adiando algumas vezes a largada.

Depois de muitas idas e vindas – e quando já se imaginava uma transferência da prova para o dia seguinte – finalmente decidiu-se pela largada com um número reduzido de voltas. Talvez toda essa confusão o tenha deixado nervoso, mas o fato é que Maverick Viñales partiu muito mal e quem apareceu na liderança foi o sempre explosivo Andrea Iannone.

Zarco liderando Márquez, Iannone e Dovizioso. Mais atrás, Viñales amargava o prejuízo da largada ruim (Reprodução)

Só que a liderança do piloto da Suzuki não durou nem uma volta. Não, ele não caiu (ainda). Iannone foi ultrapassado pelo surpreendente Johann Zarco. Único bicampeão da história da Moto2, o francês fazia sua estréia na categoria principal pela equipe Tech3 com a Yamaha de 2016, e espantava o mundo com um senhor cartão de visitas.

Enquanto Zarco liderava, seus perseguidores se debatiam pelo segundo lugar. O duelo envolvia Iannone, Marc Márquez e Andrea Dovizioso. Em mais uma surpresa, foi o italiano da Ducati que prevaleceu, e agora ele partia para a perseguição a Zarco. Mas nem precisou. Infelizmente o francês sofreu um tombo e abandonou uma estréia dos sonhos. Nunca vamos saber o que poderia ter acontecido se ele continuasse na prova.

O fim de uma estréia espetacular. E onde será que Zarco pararia se não tivesse caído? Vitória? Um pódio fantástico? Nunca saberemos (Motorcyclist)

Agora Dovizioso liderava, seguido por Márquez e Iannone. Só que nenhum deles seria um desafio para Dovi: o novo piloto da Suzuki foi outra vítima das condições traiçoeiras da pista e sofreu mais um de seus tombos (agora sim), enquanto Márquez foi ficando para trás com uma Honda longe do equilíbrio ideal.

Quem chegou para a briga com Dovizioso foi Viñales, que levou mais de metade da prova para se recuperar da largada. O duelo entre os dois foi sensacional, com Maverick fazendo valer a vantagem da M1 nas curvas (visivelmente a moto mais equilibrada do grid), enquanto Andrea engolia a desvantagem nas retas graças ao canhão da Desmosedici.

A aposta de Dovizioso nos pneus macios compensou e ele lutou até o fim pela vitória esbanjando garra. Isto fora o baile do italiano em cima de Lorenzo, que fez uma atuação apagadíssima (Reprodução)

A garra do número quatro da Ducati foi admirável, e ele chegou a liderar faltando duas voltas para o fim. Mas após muitas divididas e ultrapassagens, Viñales prevaleceu e garantiu a vitória em sua estréia na equipe dos diapasões. Após superar Márquez em bom duelo, Rossi fechou em terceiro. Dani Pedrosa foi um discreto quinto lugar, sofrendo para bater a surpreendente Aprilia de Aleix Espargaró, em noite encantada no Catar com um ótimo sexto lugar.

“Mavecão” segurou a potência da Ducati nas retas para vencer, enquanto Rossi observava tudo a distância (Reprodução)

Il Dotore travou e ganhou o bom duelo com Márquez. La Hormiga fez prova discreta, evidenciando a falta de desequilíbrio (Reprodução)

Além de ser totalmente batido por seu novo companheiro de time, Jorge Lorenzo praticamente não existiu na prova, fechando apenas em 11º. Uma estréia para esquecer.

Os 10 mais – Corrida

1 – Maverick Viñales (Yamaha)
2 – Andrea Dovizioso (Ducati)
3 – Valentino Rossi (Yamaha)
4 – Marc Márquez (Honda)
5 – Dani Pedrosa (Honda)
6 – Aleix Espargaró (Aprilia)
7 – Scott Redding (Pramac-Ducati)
8 – Jack Miller (Marc VDS-Honda)
9 – Álex Rins (Suzuki)
10 – Jonas Folger (Tech 3-Yamaha)

Impressões pós-corrida

Lorenzo terá muito trabalho pela frente. No Catar, o Espartano simplesmente sumiu, prejudicado ainda por um grid complicado de reverter numa pista razoavelmente úmida. O que, para ele, não tem sido bom sinal (Reprodução)

Pelas condições peculiares, não dá para usar a prova do Catar como parâmetro de desempenho dos conjuntos sem ressalvas, mas me pareceu claro que a Yamaha larga na frente. Posso estar equivocado (não seria novidade por aqui) mas penso que Viñales teria dominado a prova não fosse sua péssima largada.

Por sua vez, Rossi não se encontrou nos treinos mas conseguiu boa recuperação. Após ascender ao terceiro lugar, o italiano se restringiu a comboiar com cautela a briga dos líderes, lembrando sua postura em 2015. Essa deve ser a tática de Valentino: corridas conservadoras, longe de quedas e esperando por choques entre os mais arrojados, só arriscando pela vitória quando a chance for clara. Vai funcionar? Vamos ter que esperar para ver.

Festa em Noale, Espargaró chegou a andar na frente de Pedrosa na briga pelo quinto posto. Belíssima apresentação em sua estréia pela gloriosa Aprilia e que promete entregar algumas surpresas, ao menos na mão do competente Aleix Espargaró (Reprodução)

Dovizioso mostrou muita raça no duelo com Viñales e foi o nome da corrida. Mas a Ducati ainda perde nas curvas, e não sei se em condições normais teriam muitas chances. De qualquer forma, o bom desempenho de Dovi joga enorme pressão nas costas de Lorenzo, veremos como o espartano irá administrar esse momento delicado em que ele não consegue extrair tudo que a moto permite.

A Honda foi a decepção da prova. Apesar de seus esforços, Márquez nunca foi fator na luta pela vitória, com uma moto rendendo abaixo do que se esperava. Pedrosa chegou a ser ultrapassado pela Aprilia de Aleix Espargaró, uma ótima surpresa. Parece que a Minardi da MotoGP pode aprontar em 2017.

Enquanto isso, na KTM, o irmão mais velho de Aleix, Pol Espargaró (foto), limitou-se a uma corrida modesta junto do companheiro, Bradley Smith. A marca austríaca fez uma estreia discreta, normal para uma debutante (Reprodução)

A Suzuki deu uma amostra do que pode ser em 2017: com Iannone, o time pode se ver lutando pela vitória e num piscar de olhos, ele bota tudo a perder. Álex Rins fez estréia bastante discreta, mas o time diminuiu a diferença de potência para seus rivais e a moto parece bem acertada.

Por fim, a KTM foi o que se esperava: Bradley Smith e Pol Espargaró travaram batalha solitária pelas últimas posições. Vamos ver o quanto eles conseguem evoluir até o fim do ano.

Moto3 -… ou Monza 1971?

A prova da Moto3 em uma imagem. Muito equilíbrio o tempo todo. No final, Joan Mir, que já estava na frente nessa foto, acabou levando a melhor (Reprodução)

Um dos segredos da força da MotoGP está nas corridas que a antecedem. A Moto3 e a Moto2 são campeonatos muito disputados e interessantes, que revelam pilotos muito talentosos ano após ano. Bem diferente do cenário de pay-drivers cada vez mais latente na F1 (não é, Lance Stroll?), onde destaques da GP2 nunca ganham oportunidades na categoria principal, até porque, com apenas 20 carros no grid não sobra muito espaço mesmo.

Problemas da F1 a parte, a Moto3 abriu a temporada no Catar com uma corrida extremamente empolgante. A prova se resumiu a um duelo frenético entre os líderes, lembrando o épico GP da Itália de 1971. O espanhol Joan Mir venceu com a Honda da Leopard Racing, seguido do britânico John McPhee, com outra Honda, da equipe British Talent.

Moto2 – Finalmente, a vez de Franco

Morbidelli foi à forra contra Thomas Luthi. Os dois devem lutar pelo título em 2017 e a briga deve ser daquelas de livro de história (Reprodução)

Enfim, Franco Morbidelli conseguiu sua primeira vitória, e justamente contra o suíço Thomas Luthi (aquele mesmo que lhe tirou vitórias certas na última volta em 2016). A prova foi muito menos empolgante que a da Moto3, com Luthi liderando uma volta no começo da corrida apenas para ser superado por Franco, que partiu da pole e dominou com tranquilidade, se colocando como um dos favoritos ao título em 2017.

Quem decepcionou foi Brad Binder. Campeão da Moto3 no ano anterior, o sul-africano andou sempre na turma do fundão e terminou em apagadíssimo vigésimo lugar.

Franco com a taça e a alegria sem medida de Nejaim e Macieira na transmissão da Sportv. No entanto, que os dois exageram no ufanismo com relação as atuações do garoto ítalo-brasileiro, não é mentira. Ou, talvez, seja uma forma de descarregar a falta de um sucessor de Alexandre Barros na motovelocidade mundial (Reprodução)

Sobre a vitória de Morbidelli, não posso deixar de comentar a comemoração efusiva da dupla da Sportv, Guto Nejaim e Fausto Macieira. Admiro o trabalho dos dois, e sei bem que eles lutaram para a transmissão da MotoGP continuar após todos os atrasos no Catar – e eles merecem muito crédito por isso e por muito mais.

Mas não vou negar, acho uma forçação de barra esse papo de ítalo-brasileiro, vitória do Brasil, novo ídolo em tempos carentes de grandes nomes, etc. A MotoGP faz cada vez mais sucesso por aqui e a transmissão tem respaldo do público. Será que é necessário esse expediente? Penso que as coisas funcionam muito bem sem isso, mas enfim, talvez eu seja apenas um velho reclamão no meio dos jovens.

Velhices a parte, você já sabe: 9 de abril vai ser domingo de gala para os fãs de velocidade. Na madrugada, a partir das 3h, a Globo exibe o GP da China. Horas mais tarde, a MotoGP se reencontra em Termas de Rio Hondo, na terra dos hermanos. A Moto3 começa às 13h e a MotoGP larga às 16h, tudo ao vivo no SporTV. Uma hora depois, por volta das 17h é a vez da F-Indy acelerar na clássica e belíssima Long Beach, com transmissão do Bandsports e da Band.

A sorte está lançada… quem será o dono da festa em 2017? (Reprodução)

Acompanhe tudo em www.facebook.com/grammingemarbles. Até 9 de abril!

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