Semana do Jornalista: Watergate e um Nixon que ninguém viu

Você acredita que é o mesmo homem na mesma noite? As duas faces de Richard Nixon na noite do discurso de renuncia depois da bomba de Watergate foi algo que apenas os brasileiros viram naquela altura. Um dos furos mais incríveis do jornalismo nacional culminando com um grande texto e uma leitura de dar arrepios no último jornal da noite da Globo (Reprodução)

Era noite do dia 8 de agosto de 1974 quando americanos de costa a costa do país ligavam os televisores e deparavam-se com a imagem derrotada do homem que conduzia os destinos da nação desde o fim dos anos 60. Resignado, desmascarado e sentindo o golpe desferido pelos próprios colegas partidários, Richard Nixon, outrora aclamado presidente pela segunda vez há dois anos antes com uma votação recorde, anunciava a renuncia ao cargo mais visado do planeta: A presidência dos Estados Unidos.

Nada surpreendente, era o ato final previsto do que foi o maior e mais vergonhoso escândalo político dos Estados Unidos: o Watergate. No entanto, abaixo da Linha do Equador, diante dos brasileiros que assistiam pela Rede Globo o pronunciamento de Nixon, a visão era diferente, para não dizer surpreendente.

Não era apenas um presidente derrotado que falava a nação sobre a renuncia eminente. Parecia um típico ator hollywoodiano que interpretava muito a vontade o papel de mandatário tombado pelos confrades de partido e pelas forças ocultas do poder.

Jornalista e político, Helio Costa foi o responsável pelo intermédio junto a ABC para a transmissão do discurso de renuncia de Nixon para o Brasil (Reprodução)

A revelação deste talento nato de Nixon para a interpretação foi feita quase que por acaso. Hélio Costa, repórter da emissora carioca e intermediário das tratativas e da transmissão do pronunciamento, havia firmado um acordo de cooperação com a emissora americana ABC para transmissão via satélite do discurso de renuncia. Era o primeiro acordo da Globo com uma emissora estrangeira na história.

No dia, ainda nos aprontes, o famoso jornalista de passagens pela morte de Elvis Presley e o suicídio em massa em Jonestown foi tomado de susto quando as imagens geradas diretamente do salão oval da Casa Branca apareceram na tela dos monitores da ABC. No Brasil, considerou-se que era a largada para a transmissão, que seria traduzida simultaneamente por Helio  para todo o país.

Nixon sorri vitorioso na porta do helicóptero presidencial. Apesar de toda a tal alegria, as pressões faziam o presidente recolher os dentes e se preocupar com a pressão que vinha nas edições do Washington Post, que já sabiam do que rondava o salão oval da Casa Branca. No entanto, a TV americana comentava sua aparente calma e bom humor perante a situação cabeluda que estava (AP)

Mas, o que Costa e, simultaneamente, o país inteiro viam na tela não era, propriamente dito, um pronunciamento de um homem derrotado. Seria comparado ao making of vindo como bônus nos DVDs de hoje, e que já eram relatados pelo repórter como se a transmissão oficial tivesse iniciado.

E não tinha, ao menos para os EUA. Por padrão, os pronunciamentos dos presidentes por lá sempre começam com o selo presidencial e uma voz grave que diz: Ladies and Gentleman, the president of United States of America (Senhoras e senhores, o presidente dos Estados Unidos da América). No entanto, a geração de imagens antes do protocolo padrão acabou se transformando em uma confirmação do que a imprensa americana comentava e não tinha provado, mas que por muito tempo só os brasileiros tinham visto.

O aparente bom humor e calma de Nixon espantavam mesmo diante da situação em que ele e os companheiros do Partido Republicano haviam se colocado depois da revelação corajosa do esquema de espionagem e ocultação de investigações da invasão da sede do Partido Democrata no edifício Watergate, em 1972. Sorridente e brincalhão, pedia para retocar a maquiagem, falava alguma brincadeira no ar, sem lembrar o cidadão que, em alguns minutos, iria renunciar a presidência dos EUA.

Brevemente falando, a ousadia de dois jornalistas e bons pentelhosBob Woodward e Carl Bernstein, repórteres do jornal Washington Post – foi o estopim para a queda de braço que se seguira entre legislativo e judiciário pela investigação concreta do caso e a entrega das fitas gravadas das conversas de Nixon, provas que confirmavam as acusações de que o presidente sabia do escândalo e que procurava oculta-lo.

O cenário de tudo: O Complexo Watergate, onde localizava-se a sede do Partido Democrata (Reprodução)

Diante deste quadro e do fim das investigações, não se esperava outra atitude para com o presidente senão esperar a renuncia ou encaminhar o impeachment, o primeiro na história americana. Uma pressão que, ao primeiro olhar, parece insustentável para qualquer político americano ou para quem quiser imaginar a situação. Mas, julgando-se as imagens preliminares, não o parecia para Nixon, que segundo as imagens transmitidas ao vivo pela Globo estava muito a vontade e relaxado para o pronunciamento derradeiro.

Heron Domingues na bancada do Jornal Internacional, em 1974. A última grande performance na notícia. Na madrugada do dia seguinte, morreria do coração (Reprodução)

A face descontraída e risonha do presidente, no entanto, mudou num piscar de olhos, ou melhor, num passar de slide, quando, depois do selo presidencial, tomou lugar o semblante de um homem derrotado e resignado para anunciar o adeus.

Passado o discurso-atuação de Nixon, a produção do Jornal Internacional, que ia ao ar mais tarde da noite na grade da Globo, preparou para o fim da edição daquele dia um boa noite especial sobre o ponto final em Watergate.

Coube a voz inigualável de Heron Domingues, apresentador do jornalístico e um cidadão de bagagem invejável na imprensa brasileira, a leitura primorosa do texto redigido sabiamente por Jorge Pontual para o encerramento da edição:

A televisão americana comentava a surpreendente calma e bom humor de Nixon. O contrário do que se esperava de um homem acuado por pressões enormes. Nós confirmamos esse detalhe com a imagem espontânea colhida, em circuito fechado, dos momentos de descontração de Nixon. Como um ator antes da novela, como um político que fez a sua carreira dominando a televisão e, às vezes, sendo vencido por ela, Richard Milhous Nixon se despediu do cargo mais visado da Terra com um sorriso.

A leitura de Heron ao fim da edição soou como uma poesia, contada jornalisticamente e de uma forma emocionante, quase como o último ato de uma longa novela. No fim do jornalístico, palmas e abraços dentro do estúdio por uma atuação tão perfeita diante das câmeras. Valeria um Óscar, sem exageros, para Domingues e para Pontual.

Após o trabalho daquela noite, o diretor de jornalismo do Globo à época, o lendário Armando Nogueira, convidou Heron para um jantar. Foi uma noite animada e gloriosa para o grande jornalista, mas que, junto da vida presidencial de Nixon, encerrou a própria vida. Faleceu enquanto dormia de ataque cardíaco às 5h do dia 9 de agosto de 1974, três horas depois de se despedir de Nogueira e da noite que coroou sua carreira.

Nas andanças do jornalismo vividas no dia a dia, fatos como este comprovam que as grandes histórias não acontecem com marcação de hora. São os fatos que iniciam ou selam eventos que rompem a superfície lisa da história que registram para sempre momentos, seja no local do ocorrido ou nos estúdios de TV, radio ou nos jornais.

Este foi mais um conto do jornalismo brasileiro, daqueles que não ocorrem por acaso.

Abaixo, o relato do Memória Globo sobre o fato. Impressionante, diga-se de passagem:

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