Semana do Jornalista: Todos os caminhos levam ao conhecimento

(Libero Badaró Reprodução)

Você sabe quem foi Libero Badaró?

E você sabe a relação dele com o Dia do Jornalista?

Se não sabe, deixe-me então contar uma breve história: Giovanni Battista Libero Badaró, médico e jornalista nascido na Itália e radicado no Brasil, era um liberal e opositor da monarquia nos tempos de D. Pedro I.

Por meio d’O Observador Constitucional, periódico que ele mesmo escrevia e editava, ele possuía perante a sociedade um veículo de vigilância diante dos erros e autoritarismo do governo imperial recém-vindo da Independência. Um legítimo pentelho dos tempos da monarquia, por assim dizer.

O periódico O Observador Constitucional, redigido por Badaró (Reprodução)

Suas posições e criticas incisivas as políticas imperiais equivocadas, além de enaltecer os problemas de outras monarquias pelo mundo, foram o que levou-o a morte, em 1830. Fora assassinado por figurões ligados ao império, num crime muito comentado à época.

Segundo registros, morreu dizendo uma simples frase: Morre um liberal, mas não morre a liberdade. Profundo, se levarmos ela para nossos dias.

Estava morto, mas sua luta não foi em vão. Face o descontentamento popular, D. Pedro I abdicou do trono no ano seguinte, em um dia 7 de abril. Fez isto também para garantir para a filha, D. Maria, o trono português, numa briga com o irmão D. Miguel.

A icônica sede da ABI, na Rua Araújo Porto Alegre, centro do Rio de Janeiro (Reprodução)

Passou-se 78 anos do assassinato de Libero Badaró quando, exatamente num mesmo dia 7 de abril em 1908, era criada por Gustavo de Lacerda a Associação Brasileira de Imprensa – ABI. Seus princípios evocavam a cooperação entre os jornalistas e a conscientização sobre o papel didático da notícia para os brasileiros, tirando-a do status de mercadoria, como era então tratada.

Outros 23 anos se passaram quando, em 1931, a ABI criava o Dia do Jornalista. A data de celebração seria, justo em memória de Libero Badaró, o primeiro jornalista morto neste país e vulto histórico tão pouco conhecido até pelos próprios jornalistas.

Mas aonde quero chegar com esta história?

Bom, esta questão toda ainda me remete as aulas de Realidade Política e Social Brasileira, que tive no terceiro semestre de faculdade, ministradas pelo competentíssimo professor Doalcei Maçaneiro, o Dodô como é conhecido pelos alunos que lhe são gratos até hoje.

Dodô é um figurão único, talvez não exista professor tão vibrante diante de uma turma, capaz de domar sozinho e prender em atenção duas salas juntas, como ele fazia quando a minha turma de Jornalismo se reunia junto da de Publicidade & Propaganda no IBES Sociesc. Eram quintas-feiras fantásticas, recheadas de muita e muita história do Brasil e do mundo, regadas com o jeito especial de Dodô domar e transmitir o conhecimento que nos trazia…

O fenomenal Dodô Maçaneiro, um palestrante em forma de professor, responsável por despertar no pensamento esta união intrínseca entre jornalismo e história (Gilmar de Souza / JSC)

A cada encontro, em salas sempre lotadas, comecei a perceber algo que, se existe hoje no jornalismo, talvez não tão profundamente quanto deveria: A história e o jornalismo caminham juntos mais que paralelamente. Uma acontecendo, o outro, a descrevendo.

Naquele tempo, conhecíamos por ele as consequências da crise da Grécia, que levaria o Euro a uma terrível enxaqueca até hoje mal curada, além do auge da Primavera Árabe com a queda de Muammar Gaddafi na Líbia. Com a habilidade de Dodô, puxamos para trás o tempo e revisamos origens de conflitos, ódios, problemas sociais.

Tudo o que a história registrou. E tudo que, também, o jornalismo contou e, por conseguinte, também registrou.

Mas então, onde quero chegar com isto tudo?

Bom, não é segredo para ninguém que jornalismo e história andam juntos. Os fatos de um dia são história no outro, mas estarão sempre presentes refletindo nas decisões de amanhã, do outro mês, do ano que vem, da próxima década e assim por diante. A história de antes é reflexivel nas decisões dos homens hoje, desde a obra malfeita de uma rua a uma guerra e ideologia torpe mundial ou um ato grandioso do esporte ou de paz.

Não é apenas nos compêndios históricos que estão os registros do mundo passado, mas também nos jornais, nas fitas velhas de TV, nos arquivos em acetato de rádio e em tantos outros cantinhos que mal sabemos. E é esta história contada que deve ser recordada, no clássico ciclo que diz que devemos rever o passado para refletir o presente e preparar o futuro.

As manifestações em Tripoli, durante a Primavera Árabe na Líbia, que derrubou Gaddafi. Momento que terá reflexos nos acontecimentos futuros do país e que serão notícia, certamente (EFE)

O jornalista atento aos movimentos do mundo deve se lembrar que sua base de conhecimentos não deve nunca se prender apenas no factual, que cruza os seus olhos dia a dia. Alguns – ou grande parte deles – eventos que movem o mundo hoje tem ligações passadas, tem desdobramentos antigos que dão resultado nos acontecimentos que serão cobertos e divulgados nos veículos hoje ou amanhã.

Em outro olhar, o de rever para refletir e preparar, a história e seus patrimônios materiais e imateriais, sejam eles de momentos tristes ou alegrias universais, devem sempre ser recordados, independente se jubilam ou não. Eles moldaram as realidades que vivemos hoje e servem de aporte didático para todos e subsidio para a reflexão do que será o futuro: se melhor ou pior.

Apenas alguns exemplos: Em 2017 recordam-se os 90 anos de fundação da Varig, a pioneira empresa aérea brasileira; recordam-se os 80 anos do bombardeio de Guernica, na Espanha, que inspirou tristemente a Picasso; os 60 anos do lançamento do primeiro satélite Sputnik; os 50 anos do lançamento de Sgt. Peppers, dos Beatles e da promulgação da Constituição militar; os 40 anos da morte de Elvis Presley e da lei do divórcio no Brasil; os 30 do acidente com Césio-137 em Goiania; os 20 da morte da princesa Diana

Fora estas, as tantas outras inspiradas por acontecimentos diários, fatos que jamais pensaríamos ver acontecer como a reaproximação de EUA e Cuba ou mais um impeachment no Brasil, como fora com Dilma Rousseff. Em todos estes casos a história está presente e não é preciso ser historiador para saber.

(Reprodução)

Se há um recado que seguramente pode-se dar neste Dia do Jornalista é o de que nunca se deve separar o jornalismo da história. Que a pesquisa jamais deve ser desleixada independente se o que você tem a fazer é um material de dois minutos.

Conhecer, estudar, atualizar e recordar devem ser palavras de ordem no dicionário de qualquer jornalista. As palavras de quem esteve lá, de quem viu e de quem conhece a história tem um valor inestimável, impossível de ser calculado.

Você pode não concordar, mas todos os caminhos te levarão ao conhecimento, quer você queira ou não. E no mundo de hoje, nada é possível sem ele e, também, sem esta relação entre a notícia e o passado que, por vezes, a faz acontecer.

E, agora, você sabe quem foi Libero Badaró. Um abraço aos (colegas) jornalistas.

Um comentário sobre “Semana do Jornalista: Todos os caminhos levam ao conhecimento

  1. André, já parabenizei todos os jornalistas por aqui em outra postagem sua e até em particular e assim continuo. O Dodô sem comentários excelente!
    Vai firme irmão de fé camarada, continue com seu belo trabalho de divulgação de nossa bela imprensa e nossa história.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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