Gramming & Marbles (F1): Hamilton fatura a primeira de 2017 em domingo empolgante na China

A Mercedes venceu, Hamilton venceu, mas nada de prova monótona. A corrida da China foi totalmente na contramão da procissão australiana e apresentou uma prova cheia de diversão, alternativas e momentos emocionantes. No fim, o inglês da flecha prateada aproveitou os contratempos de Vettel para carimbar a primeira vitória no ano (Getty Images)

(André Bonomini & Douglas Sardo)

Vou dizer com sinceridade: quem acordou de madrugada e resistiu as 56 voltas fez um excelente negócio. Pode contar aos amigos que viu uma corrida empolgante ao vivo (mesmo aguentando as histerias de Luiz Roberto), com pegas fabulosos e um passão monumental. O fim de semana de F1 no GP da China foi assim mesmo, fora a diversão da turma em Xangai, Lewis Hamilton confirmou o favoritismo mas não venceu só por ele, contando com um fator crucial para correr a sós e faturar o galardão.

Com a corrida desta noite, muitos que vociferaram contra o que viram nas ruas de Albert Park, em Melbourne, vieram com discursos de a F1 voltou, corrida emocionante, corrida divertida. Talvez o que vimos nas curvas de Xangai foi um tremendo cala a boca a quem já estava tirando conclusões precipitadas sobre o ano de 2017. Temos um campeonato, e não é porque a Mercedes está errando ou algo assim. Tudo está a plena, e, agora, os bons samaritanos começam a mudar de opinião.

O inglês empata, logicamente, a disputa pelo titulo deste ano. Mas não há ainda uma certa definição de forças dentro da F1 entre algumas equipes. As próximas provas poderão dizer algumas verdades (Getty Images)

É mais do que claro que o novo pacote aerodinâmico traz mais dificuldade para ultrapassagens, que os carros estão mais difíceis de pilotar, que a Mercedes ainda é forte e que o Liberty Media está apenas começando. Mas jogar todas as pedras antes da hora, baseando-se na primeira corrida, não é trabalho de um jornalista decente, especialmente quando se leva por primeiras impressões. Aquela história de não julgar o livro pela capa…

Corridas chatas sempre vão existir, em algumas temporadas mais, em algumas menos, mas elas estão sempre presentes. E o GP da China, felizmente, é uma destas exceções. Mas vamos parar de lenga-lenga e contar o que de vez o que eu e Douglas vimos nesta madrugada empolgante.

E repito: quem resistiu ao sono fez um grande negócio.

Largada na volta 4 e muitas mudanças

O chicoteio de Perez (onboard) em Stroll. Uma Williams a menos na pista e outra prova abreviada para o canadense. Primeira intervenção na prova, com o safety-car virtual (TV)

Normalmente, a corrida começou na largada, como todas as outras. E até que foi uma largada sem grandes riscos, com Lewis Hamilton e Sebastian Vettel mantendo as posições originais e alguns pegas começando pelo meio do pelotão. Tudo corria normalmente até a direção de prova acionar o safety-car virtual.

Quem apostava que Lance Stroll iria se recuperar depois do fim de semana de estreia na Austrália perdeu o dinheiro, Logo nas primeiras curvas, o canadense foi rastelado por Sergio Perez na muvuca inicial e ficou na brita. Até ai tudo tranquilo e normal, pista escorregando, cuidados dos botas e um alívio para Vettel, que escapou de tomar uma punição por ter se posicionado mal na grelha.

Bandeira verde, a corrida volta e… safety-car outra vez. Logo na primeira viração de curva, a Sauber justificou a fama de chamar o carro-madrinha com uma escorregada de Antonio Giovinazzi na reta principal. O italiano arrebentou o bólido e forçou que, na volta em fila indiana, os carros passassem pelos boxes. Alguns já haviam trocado pneus na primeira bandeira amarela, outros aproveitaram esta intervenção, e a corrida virou uma salada das grandes.

A Sauber de Giovinazzi arrebentada na reta. Italiano escorregou em trecho úmido e achou o muro. Novo safety-car na pista, desta vez o de verdade, e uma salada nas trocas de pneus (Getty Images)

Hamilton saiu rindo disto tudo, depois de ter aproveitado as intervenções para uma parada tranquila. No entanto, a Ferrari acabou se vendo na segunda salada atrás da Red Bull de Daniel Riccardo, cercados por Max Verstappen, que dava outro show na pista escorregadia depois de largar em 16º. Valtteri Bottas tomou ferro com tantas misturas no grid e caiu para o décimo posto. Uma Mercedes a menos, muitas mudanças… quando a bandeira verde fosse acionada, muita coisa iria acontecer.

Eis que ela veio, enfim a largada da corrida na volta 4, e para uma baita prova. Verstappen estava dando show aproveitando os melhores momentos do pneu supermacio para voar na pista e passar quem via. Como que se brincasse de autorama, Max superou Kimi Raikkonen, Vettel e Riccardo na brincadeira, dando a entender que, cedo ou tarde, poderia engolir também Hamilton.

A encrenca para Vettel, ao fundo. Depois das paradas, estava preso atrás de Raikkonen e Riccardo, alem de ter tomado um passão de Verstappen, aqui ainda atrás de Daniel (Getty Images)

O iceman era a grande pedra no caminho de Vettel. Limitado por Riccardo, que começava a sofrer o desgaste dos supermacios, o finlandês sofria ainda com uma tal falta de potência que só ele parecia sentir. Não demorou até o companheiro alemão tomar a iniciativa e se livrar de Kimi quando deu, numa bela manobra num dos cotovelos da pista. Riccardo estava a frente e mais lento.

Foi ai que Vettel resolveu pintar uma obra de arte na pista, daquelas que provam que se a turbulência na reta é o problema, que se mude a lógica dos pontos de ultrapassagem. No mesmo cotovelo que atacou Raikkonen, Seb bota por fora de Riccardo e passa, o australiano parece que não vai entregar fácil e emparelha, tocando rodas. Uma cena memorável de levar qualquer fã da categoria ao estado de êxtase.

Douglas Sardo, nosso fiel parceiro do G&M deu a melhor definição desta manobra: VSF, Vettel! Que show!

O alemão tinha a durabilidade dos calçados macios com ele contra as escorregadas de Verstappen. Não demorou muito para chegar e ameaçar, coisa que nem precisou já que o holandês sentiu falta da borracha no grande cotovelo antes da reta oposta e travou tudo. Seb passou de passagem e seguiu em frente.

Depois de tomar o calmante, continua a diversão

Nas posições intermediarias, alguns duelos interessantes aconteciam. Carlos Sainz Jr. mesmo estava num dia inspirado. Caiu pra último na largada, rodou nas primeiras voltas, chegou a tocar o muro com os pneus e estava voando na pista recuperando posições. Encontrou a sua frente nada mais do que o pai de todos da Espanha, Fernando Alonso, que outra vez tirava leite achocolatado (porque só tirar leite não é nada) da pedra laranja da McLaren.

A manobra da ultrapassagem foi ousada, Sainz teve que buscar na marra o drible contra Alonso, que mudou duas vezes de faixa numa das retas. Ao chegar no grande cotovelo, Sainz apontou e foi, Fernando tentou um mergulho de misericórdia mas acabou escorregando para a grama. O jovem Carlos não sairia mais do sétimo posto, já o asturiano acabou a corrida se arrastando com novos problemas na McLaren. Corrida brava mas melancolicamente abreviada.

Acredite, no começo da prova assim estava Sainz. O único que arriscou nos slicks na largada chegou a rodar, mas faz baita corrida de recuperação para conquistar um ótimo sétimo lugar. Ao fundo, Alonso passa e observa, logo depois os dois estariam duelando, com vitória para o espanhol da equipe azul-Bis (Motorsport)

Bom, de volta aos ponteiros, era claro que Hamilton e Vettel não aguentariam na pista com os macios trocados no início da prova. Pensando nesta, a Red Bull arriscou novamente nos supermacios em uma nova parada, apostando na velocidade do pneu para descontar uma possível parada de Ferrari e Mercedes. Não adiantou muito, a diferente para os dois ponteiros foi a estratosfera e, na parada, mantiveram o mesmo composto, a exceção de Raikkonen, que voltou de supermacios apostando em algo.

Com Hamilton e Vettel garantidos na frente (e Vettel se roendo de raiva pelas saladas da corrida), restou apenas uma briga empolgante entre das duas Red Bull. Depois de torrar a borracha como pode para descontar algo, Verstappen via Riccardo chegar rápido na sua cola. O holandês bem que tentou reclamar da falta de aderência mas não podia esperar milagre a quatro voltas do fim da prova.

Verstappen teve de ser valente para aguentar Riccardo as suas costas. O australiano bem que tentara um ataque kamikaze no último cotovelo, mas sem sucesso (Globo Esporte)

No último canto do cisne, enquanto Hamilton e Vettel cruzavam a linha, Riccardo tenta se atirar numa das suas jogadas kamikaze já famosas. Mas Max não é bobo nem nada, e a frente do companheiro dá uma pequena jogada para o lado que confunde o australiano. Garantiu no braço o terceiro lugar e teve a melhor atuação da prova, sem mentira.

Quanto a Hamilton, a vitória coroou um fim de semana perfeito, mas há um campeonato este ano, e Vettel não está a fim de deixar o inglês sorrir tanto como hoje. Isto se a Ferrari sair do mundo de fantasia e lembrar que um de seus pilotos está disputando um título de forma efetiva.

Os 10 mais – Corrida

1 – Lewis Hamilton (Mercedes)
2 – Sebastian Vettel (Ferrari)
3 – Max Verstappen (Red Bull-TAG)
4 – Daniel Riccardo (Red Bull-TAG)
5 – Kimi Raikkonen (Ferrari)
6 – Valtteri Bottas (Mercedes)
7 – Carlos Sainz Jr. (Toro Rosso)
8 – Kevin Magnussen (Haas-Ferrari)
9 – Sergio Perez (Force India-Mercedes)
10 – Esteban Ocon (Force India-Mercedes)
14 – Felipe Massa (Williams-Mercedes)

O cumprimento dos bons rivais Vettel e Hamilton. Enfim, temos um campeonato… e dos bons (Getty Images)

Os 6 mais – Campeonato

1 – Sebastian Vettel (43)
2 – Lewis Hamilton (43)
3 – Max Verstappen (25)
4 – Valtteri Bottas (23)
5 – Kimi Raikkonen (22)
6 – Daniel Riccardo (12)
8 – Felipe Massa (8)

MENINO DE MUZAMBINHO: Max Verstappen (Red Bull)

Quando a pista estava úmida, tinha quem profetizava um show de Verstappen. Não deu outra, teve show até mesmo em condições adversas. O melhor da prova numa escolha difícil (Getty Images)

Foi uma escolha difícil, muito difícil, e concorrentes não faltaram: Vettel pela corrida brigada depois de ficar preso nas costas da Red Bull, Hamilton por ter conseguido tudo com competência outra vez, até Carlos Sainz Jr. pelo corridão que fez no bloco intermediário com a limitada Toro Rosso… Mas quem dá show merece o galardão e muito, mesmo terminando a corrida com os restos do pneu.

Antes mesmo da largada, Verstappen já era assunto dos locutores do mundo todo com a possibilidade de fazer show com a pista escorregadia, tal como fez no Brasil no ano passado. Dito e feito, nas primeiras voltas, o holandês já tinha livrado-se de uns dez carros a sua frente e, contando com as saladas das paradas, caiu na ponta e combativo, passando quem via como se fosse autorama.

E ele mesmo explica…

Max foi arrojado mesmo perdendo o segundo lugar para Vettel e terminando nas sobras do pneu, domando o mil-dentes Riccardo as suas costas. O menino voa, mesmo que a maquina não seja a melhor entre as equipes de ponta.

Rapidinhas:

– A FOM parece ter acertado nos GCs durante o fim de semana, e aproveitou até para uma galhofinha das boas. Nem Darth Vader escapou, sendo identificado durante a transmissão com todas as pompas. Era apenas um torcedor com a máscara alusiva ao pai de Luke Skywalker, que pela camisa não esconde a torcida pela Red Bull.

– Em outro momento animado, as torcedoras chinesas mostram em faixas o carinho por Vettel, mesmo esquecendo a letra L do fim do nome e grafando Vettee. O próprio Seb fez questão de lembrar corrigir a faixa durante uma passagem da transmissão. As mocinhas parecem ter ouvido, corrigiram e receberam o joinha do alemão. Outros tempos na F1.

– Reparou que não falamos de Felipe Massa? Nem precisava… o brasileiro teve um fim de semana pavoroso em Xangai. Mesmo largando em sexto, foi muito prejudicado nas saladas dos pits e teve de se virar com um carro sem aderência. Terminou em 14º a prova, arrastando-se a frente apenas do safety-car man Marcus Ericsson.

Perez (foto) e Ocon garantiram, novamente, as rosinhas da Force India na zona de pontuação, mesmo com todas as ainda aparentes limitações do carro deste ano. Enquanto isso, Magnussen (abaixo) fez uma ótima corrida, terminou em oitavo, a frente da dupla rosa e mostra que parece estar se reinventando na Haas (Getty Images)

– Numa prova que previa-se ser difícil, a Haas sai bem feliz com o desempenho do recém-chegado a casa, Kevin Magnussen. Fez uma corrida combativa, com ultrapassagens e autoridade. Talvez esteja se reinventando na casa americana.

– Dentro das possibilidades, a Force India levou pela segunda vez seus dois carros aos pontos. Checo Perez ainda teve o ingrato toque em Stroll na largada, mas galgou um nono lugar. Esteban Ocon fez das tripas coração outra vez e buscou outro pontinho com o 10º lugar.

Para recordar: Salut Jacques!

O louro-oxigenado Jacques Villeneuve, no momento da maior gloria na F1, em 1997. Campeão mundial e herdeiro do lendário Gilles, esteve de aniversário neste domingo. E como lembramos dele? Bom, basta recordar das chincanes ambulantes, como foi durante a transmissão da corrida (Sutton)

Durante a transmissão pela Globo, Reginaldo Leme recordou dos famigerados retardatários conhecidos pela alcunha carinhosa de chincane ambulante. A maior deles, no entanto, está de aniversário neste 9 de abril: canadense de Saint-Jean-sur-Richelieu, no Quebec, o herdeiro de Gilles, Jacques Villeneuve sopra velas de 46 anos justo neste último domingo.

Filho da antiga CART/ChampCar, onde venceu as 500 Milhas de Indianápolis e foi campeão com a Forsythe no mesmo 1995, Villeneuve pousou na F1 logo na porta da frente, pela Williams. Venceu a primeira em Nurbugring, no GP da Europa de 1996. Chegou a brigar pelo título com Damon Hill ainda naquele ano, mas foi traído com um pneu solto.

Cena icônica da F1 dos anos 90: Villeneuve tome o fechão de Schumacher em Jerez. O alemão joga a imagem na lama, perde o título e é excluído da classificação final daquele ano. Quanto a Jacques, sobra a festa que seu pai nunca tivera a chance de celebrar (Sutton)

Se consagrou para valer na F1 em 1997, depois de um duelo feroz com Michael Schumacher, que tentou lhe ceifar da prova decisiva, em Jerez, com um golpe polêmico e marcante nos anos 90. No entanto, com a saída da Renault da F1 e o equipamento inferior que a Williams acabou contando, Jacques não repetiu os bons desempenhos em 1998, mudando-se para a recém-nascida BAR em 1999.

Foi o início da sua fama como chincane ambulante, sofrendo com os problemas dos carros que conduzia e acumulando desafetos. Sairia da BAR na porta dos fundos, descontente com a equipe logo no ano que ela obtinha melhores desempenhos. Chegou a fazer uma ponta na Renault na China, em 2004, quando a pista de Xangai entrou no calendário. Depois de dois anos com Peter Sauber, um na equipe homônima e outro na então BMW, sumiu da categoria em 2006 sem perder a pose de mala.

Na BMW, em 2006, já longe dos dias de glória e com o infame apelido de chincane ambulante, alcunhado principalmente por alguns desafetos de grid que acumulou com o tempo. Abaixo, sua primeira passagem pela Stock Car, em 2011 Reprodução | Vicar)

Passou pela Nascar, fez uma pontinha oculta pela Schmidt Peterson na Indy, em 2014 e até esteve na Stock Car em 2011 por uma prova, em Interlagos, onde chegou numa sumida 18ª posição. Fez ainda corrida em dupla pela categoria brasileira, mas sem muito brilho. Anda pelo mundo cantando, num hobby musical pouco conhecido, mas jamais será esquecido como campeão e mala que sempre foi.

Isto dito, a F1 sai do oriente para as arábias, onde pousa já no próximo domingo – de páscoa, diga-se de passagem – para o GP do Barhein, na pista de Sakhir. E quem não está mais aguentando o sono, fique tranquilo! A corrida é bem na hora do almoço!

Um abraço e até… loguinho! Tem MotoGP e Indy a caminho no mesmo fim de semana. Até la!

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