Gramming & Marbles (F1): Vettel acerta jogada de xadrez e fatura no Barhein

Tática perfeita em Sakhir: Ferrari acerta, novamente, a mão nos pits e Vettel, que não perdeu chance alguma durante a prova, faturou mais uma e voltou a liderança no campeonato (Getty Images)

(André Bonomini & Douglas Sardo)

Quem se baseou com o que viu no treino, podia acreditar que a corrida de domingo seria uma procissão com as Mercedes se sucedendo na ponta em Sahir. Fora a surpresa de Valtteri Bottas, tomando a pole de Lewis Hamilton no canto do cisne, a chuva de apreensões sobre a prova árabe começava a cair no terreno arenoso.

Mas, nas palavras certeiras de Galvão Bueno, que parafraseou o inesquecível campeão de 1962 Didi, treino é treino, jogo é jogo. E como treino e corrida, por muitas vezes, tem grandes diferenças na situação vigente, não dava pra ir para a largada no Barhein acreditando na procissão iminente.

Graças a Deus, ela não veio, e entregou uma corrida interessante, onde a Ferrari soube virar o jogo e Sebastian Vettel, no grande duelo do ano até o momento, reverteu a desvantagem com uma grande corrida e bebeu do suco de laranja com rosas no lugar mais alto do pódio. De costume, voltou a liderança do campeonato e obriga a turma das flechas de prata a afiar as armas para a prova seguinte.

Afinal, temos um campeonato, e dos bons. Mas vamos ver como foi o fim de semana barenita, que valeu a pena dividir entre a TV e o almoço de Páscoa.

Bottas no comando e saladas a parte

Largada cuidadosa, como tem sido costume. Hamilton não parte bem, Bottas toma a frente e se controla a frente de Vettel e quem vinha atrás (Getty Images)

Como tem sido costume neste ano, uma largada tranquila e sem incidentes. Hamilton partia do lado mais emborrachado e acabou perdendo tempo com relação a Bottas e Vettel, caindo para terceiro. Logo atrás, a perseguição de Max Verstappen e Daniel Riccardo, seguidos a distância por Felipe Massa, que aproveitou a estabanada largada de Kimi Raikkonen no meio do pelotão. Na parte de trás, um show de divididas e enroscos.

Limitados por Bottas, que parecia economizar carro e pneus, os cinco primeiros estavam chispavam a frente de Massa e Raikkonen. Ninguém se arriscava a uma ultrapassagem, embora Vettel mostrava-se mais afim a brigar pela ponta. Foi um trem veloz ate, pelo menos, a volta 11, quando a Ferrari chamou Seb para os pits. Supermacios calçados, o que evidenciava que o alemão iria partir para o ataque e arriscar duas paradas.

Verstappen, que já teve um fim de semana de chiliques, até quis ameaçar, mas saiu reto logo após a primeira parada, alegando problemas nos freios. Fim de festa pro holandês (Getty Images)

A mesma ideia foi seguida pela Red Bull, especialmente para Verstappen, que também calçou os supermacios. No entanto, recém-saído do box, o holandês perdeu estranhamente o ponto de freada e saiu reto. Queixou-se de problemas nos freios mas não escapou de uma nos dedos do velho Galvão. Com certo exagero por parte do locutor, é verdade. Isto que o garoto já vinha dando de chiliquenta desde os treinos, quando reclamou (justa ou injustamente) de um bloqueio de Massa a sua frente.

Enquanto isso, na reta, uma biaba chamava o safety-car a pista. Na saída do box, Carlos Sainz Jr. tentou cortar a reta e ficar a frente de Lance Stroll. O canadense fechou tudo e acabou arrebentando a lateral do seu Williams contra a Toro Rosso do espanhol. Fim de festa para os dois, em especial para Lance, que outra vez não completa uma prova.

Nesta sucessão de abandonos na pista e um safety-car a caminho, Riccardo e Hamilton, que vinham praticamente juntos, aproveitaram para parar. Mas, num ato de estranho desespero, o inglês literalmente atrasou o australiano na entrada do box, andando propositalmente lento. Foi uma segurada flagrante, que lhe rendeu cinco segundos de punição e teria consequências no decorrer da prova.

Outra corrida depois do safety-car

Na saída do safety-car, Vettel teve um momento de risco. Bottas, também calçado nos supermacios, partiu para cima com tudo, num pega ousado. Foram curvas divididas até Seb conseguir brecar o finlandês e manter a ponta. Felipe Massa aproveitou-se das bolas divididas e de um Riccardo muito mal na segunda largada para arrancar o quarto lugar do australiano. Seria seu melhor momento na prova.

Bottas a frente de Hamilton, a inversão de posição aconteceria duas vezes na prova, para estranheza de alguns (Getty Images)

Lá na frente, a Mercedes mexia seus pauzinhos. Bottas já não tinha o mesmo desempenho de outrora com os supermacios e, na ordem de box, inverteu posição com Hamilton, que estava calçado com macios e com melhor desempenho até aquele momento. Logo, seria a vez de Vettel sofrer com o desgaste dos pneus. Uma segunda parada, como previsto, teria de acontecer.

Enquanto isso, no meio para trás do pelotão, um duelo de três chamava os holofotes a todo momento. Fernando Alonso, vivendo os louros da decisão da semana de ir as 500 Milhas de Indianápolis, sofria na mão do estabanado Daniil Kvyat e do fraco Joylon Palmer. O espanhol, com razão, vociferava no rádio contra a falta flagrante de potência da pipoqueira da Honda. nunca vi isso na minha vida. Um carra a 300 metros de mim, chega e me passa…, afirmava no rádio.

Eram trocas constantes de posição entre os três, sobrando até toque do inglês da Renault no russo da Toro Rosso. Melhor para Alonso, que se livrou dos dois como pode. Ia durar algum tempo, até o motor nipônico ir ao espaço mais uma vez. Uma via-crusis que parece não ter fim para o asturiano, o único carro de Woking na pista já que Stoffel Vandoorne não largou, também com problemas no motor. Deprimente…

Nem milagre ajuda. Alonso passou grande parte da corrida brigando com Kvyat, Palmer e a falta de potência do McLaren. No fim, mais um abandono (Getty Images)

Bom, depois de respirar, voltamos aos ponteiros. Vettel cumpre a segunda parada e calça os macios, por mera garantia de chegar ao fim. Hamilton era o ponta, mas dois fatores não davam a vitória ao inglês prateado: Os pneus, de várias voltas e que impediam-no de abrir mais diferença, e o fato de ainda ter cinco segundos para cumprir de punição.

Ao voltar a pista, Lewis cravou os dentes, apertou o direito até no assoalho e começou a imprimir um ritmo alucinante para buscar o tempo perdido. Faltando dez voltas para o fim, se livrou novamente de Bottas (em outra ordem de equipe, diga-se) e partiu a busca de Vettel, que já estava em velocidade de cruzeiro, cuidando da borracha que calçava.

Foi um ritmo maluco, diga-se, descontando um segundo por volta em média. Mas não deu, Seb não deu chance ao azar e aproveitou todas as chances dadas para faturar a segunda no ano, garantindo a festa dos bons funcionários e de um alegre Maurizio Arrivabene, talvez redimido do erro de tática na China. Hamilton fechou em segundo e Bottas, com cara de poucos amigos no pódio, em terceiro.

Hamilton bem que tentou voar na pista com pneus novos no fim da prova, tentando descontar a desvantagem dos cinco segundos de punição que tinha e da parada extra no fim. Foi quase um segundo por volta, mas não o suficiente para alcançar Vettel (Getty Images)

Evidente que o finlandês da flecha de prata estivesse sentido. Ele mesmo admitiu no pós-corrida que tinha objetivo maior.  Ainda no fim da prova, a equipe competentíssima do Sky Sports aproveitou para enquadrar Toto Wolff sobre as ordens para Bottas deixar Hamilton passar. Questionado sobre as determinações, consideradas muito cedo para o momento da temporada, e sobre a capacidade de Valtteri brigar pelo título, Toto desconversou: não, não é isso. Claro que o Bottas tem chance, foi uma ordem difícil demais de ser dada mas tivemos que fazer essa escolha.

Noves fora, foi uma interessante corrida para quem previa uma procissão tediosa com a Mercedes a frente. Repetimos: Há um campeonato, e dos bons que está se desenhando por ai.

Os 10 mais – Corrida

1 – Sebastian Vettel (Ferrari)
2 – Lewis Hamilton (Mercedes)
3 – Valtteri Bottas (Mercedes)
4 – Kimi Raikkonen (Ferrari)
5 – Daniel Riccardo (Red Bull-TAG)
6 – Felipe Massa (Williams-Mercedes)
7 – Sergio Pérez (Force India-Mercedes)
8 – Romain Grosjean (Haas-Ferrari)
9 – Nico Hulkenberg (Renault)
10 – Esteban Ocon (Force India-Mercedes)

Os 6 mais – Campeonato

1 – Sebastian Vettel (68)
2 – Lewis Hamilton (61)
3 – Valtteri Bottas (38)
4 – Kimi Raikkonen (34)
5 – Max Verstappen (25)
6 – Daniel Riccardo (22)
7 – Felipe Massa (16)

MENINO DE MUZAMBINHO: Sebastian Vettel (Ferrari)

Foi uma corrida perfeita, onde Vettel não perdeu nenhuma das chances de manter-se na ponta e onde a equipe acertou a mão da estratégia. A Ferrari está levando vantagem na briga, seja na pista ou na tática (Getty Images)

Sem contestações, o alemão está de volta aos bons dias de ponteiro com méritos. Depois da corrida errática da Ferrari na China, a tarefa de Vettel era se manter nas cabeças do campeonato neste duelo magnânimo que se desenha entre o rosso italiano e o prateado alemão. No Barhein, além do bom trabalho da casa de Maranello nos boxes, Seb teve sangue frio, constância e perícia para fazer bonito, além de oportunismo para garantir-se a frente das Mercedes nos percausos de Hamilton e Bottas.

Mas, deve ser feita justiça a estratégia da Ferrari. Mesmo arriscando um supermacio, a ousadia da estratégia foi paga também com uma dose de competência, seja do time no box e de Vettel na pista, muito mais do que a sorte com os cinco segundos tomados por Hamilton de punição. Se era para se redimir da falha na China, o fez bem.

Pérez escala o grid e dá show esquecido na Force India

Perez não se deixou abalar pelo 18º lugar no grid. Partiu de trás, usou todas as armas possíveis e alcançou um soberbo sétimo lugar (Getty Images)

Deve se dar uma grande menção honrosa entre os melhores da prova ao sempre combativo Sergio Pérez. Largando de 18º depois de problemas nos treinos, Checo teve que dobrar o livro de estratégias e brigar muito para cavocar posições, aproveitar bolas divididas, acertar pits para chegar a um fantástico sétimo lugar.

Um super resultado para o rosinha-moor da Force India. Mesmo com todas as limitações do carro, que não tem lhes permitido nada além do sexto lugar, o mexicano continua mostrando seu valor. Só com alguma sorte e, talvez, um melhor grid, dê para o mexicano sonhar além disso, haja vista que o clube das três poderosas ainda continua impenetrável.

Para completar a alegria de Vijay Mallya, Esteban Ocon carimbou mais um pontinho no currículo. É um ponto apenas, é verdade, mas ao menos ele está fazendo a lição de casa… Diferente de certos canadenses endinheirados.

Renault, Force India e Haas: Ameaças a Williams

Hulkenberg chegou em oitavo, mostrando a evolução constante a Renault. Os franceses, como a Force India e a Haas, estão ameaçando e muito a Williams, que pode acabar o ano brigando com equipes menores (Getty Images)

Além da boa performance da Force India, o oitavo lugar de Romain Grosjean com a constante Haas e nono lugar de Nico Hulkenberg com uma cada vez mais evoluída Renault mostram apenas algo que preocupa – e muito – os lados de Grove: A Williams pode acabar o ano dividindo agruras na tabela de construtores com McLaren, Toro Rosso e Sauber.

Até o presente momento, a marimba da equipe está sendo segunda por Felipe Massa, que vai mostrando um pouco da bala na agulha que tem guardada para fazer algum milagre com o bólido inglês. Voltou para liderar o projeto e vem fazendo isto com louvor, dentro daquilo que a máquina o permite fazer. Andou em quarto em Sakhir, mas isto até a disparidade de desempenho entre a Williams e as três de ponta aparecer.

Enquanto Massa faz a sua parte, andando até onde a Williams nem consegue manter-se com força e arrancando pontos, Stroll (abaixo) vai colecionando abandonos e incidentes. As chacotas aumentam e o prejuízo para Grove pode ser incalculável (Getty Images)

Mas, o perigo reside, simplesmente, no fato de Massa estar trabalhando sozinho na busca de pontos. Do outro lado da cerca, o jovem Lance Stroll, que até agora só vai colhendo um abandono atrás do outro. Três corridas, três incidentes e zero pontos com um carro que, teoricamente, pode pontuar. As chacotas já começaram, as desconfianças já estão ai e, para se salvar, nem mesmo uma única atuação basta, mas várias de preferencia.

Fiquemos atentos, nem tudo são flores em Grove. A constante dupla pontuação dos indianos rosados e a evolução de Renault e Haas estão dizendo isto a cada corrida. Cabe aos comandados de Miss Claire começarem a reagir, especialmente o pequeno Lance.

Falando em Williams, Tio Frank, 75!

Eis um racer: Frank Williams. Não é preciso maiores apresentações para este mito (Getty Images)

Fora das pistas, a F1 viu aquela tradicional reunião de bacana reunindo um seleto grupo de pesos-pesados da velocidade. Alain Prost, Jean Alesi, o campeoníssimo da MotoGP, Mick Doohan e, para a alegria de Galvão Bueno, Bernie Ecclestone, que foi convidado dos organizadores do GP e não escapou de dar uma voltinha no grid, como sempre fazia nos tempos de manda-chuva.

No entanto, a grande lembrança do fim de semana foi o aniversário de 75 anos do super Frank Williams, um legítimo racer e figura ímpar da F1. Dos tempos de pobreza a consagração com a equipe homônima que fez sete pilotos campeões e reescreveu a história da categoria. Reverencia-lo numa data como esta é quase obrigação para qualquer um, seja do circo ou fã de carteirinha.

E os pilotos, ex-pilotos, chefes de equipe e quem mais fala de F1 deixou seu recado ao velho Frank num emocionante vídeo produzido pela própria equipe. Olha ai:

Galvão ignora Alonso nas 500 Milhas

Interessante foi a ignorada solene de Galvão Bueno quanto a participação de Fernando Alonso na apoteótica 500 Milhas de Indianápolis. O velho locutor até chegou a ser lembrado do assunto por Reginaldo Leme durante a transmissão, mas fez questão de aproveitar um replay na tela para desconversar, na cara dura, sobre o tema.

Alonso nas 500 Milhas: Reginaldo lembrou, Galvão se esquivou. Algo normal quando o assunto toca na Indy (Getty Images)

Seria motivação comercial ou, simplesmente, ranço contra a Indy? Não é de hoje que, em dados momentos, Galvão aproveita brechas para esculachar a categoria americana, seja por diferenças ou, simplesmente, pelo fato da Indy não fazer parte da grade global. Nos tempos de botas como Jacques Villeneuve e Michael Andretti na categoria, algumas pegadas foram desnecessárias, como a história da largada diferente

Ele não vai resistir muito tempo, e se Alonso faturar no Brickyard e ele ignorar… Nem quero imaginar o bochicho entre nos fãs.

Para Recordar: Hamilton aprendiz de Alonso

As famigeradas Schumacadas, como costuma-se referir-se aqueles comportamentos sujos dos pilotos durante uma corrida. Hamilton cometeu uma em Sakhir, mas tem fresca na lembrança a rasteira que sofreu exatos 10 anos atrás de Alonso, quando eles dividiam o teto na McLaren (Reprodução)

Lewis Hamilton provou que não esquece certas lições, mesmo que elas não seja as mais limpas possível. Sendo muito proximamente comboiado por Daniel Riccardo no momento da primeira parada, o inglês foi para o pit com o australiano na cola. Marotamente, reduziu a velocidade e freou o homem de mil dentes muito antes ainda do box da Mercedes, prejudicando o adversário.

Não deu outra, a direção de prova colocou cinco segundos na conta do inglês, que não teve outra saída senão pagar na última parada da corrida, tirando de vez as chances de vitória. Um golpe maroto, diga-se de passagem, mas que refletiu na lembrança uma situação semelhante, ocorrida há 10 anos atrás, quando Lewis dividia a casa com Fernando Alonso na McLaren.

O ano de 2007 estava pesado. A rivalidade entre Lewis e Alonso chegava a níveis insuportáveis no teto de Ron Dennis, algo que o velho careca parecia estar acostumado a enfrentar desde os tempos de Senna e Prost. O cume da briga, no entanto, chegou na Hungria, durante os treinos oficiais. Próximo do fim do tempo do Q3, Alonso faz sua parada para troca de pneus. espera alguma e, em tese, é liberado.

Quando se diz em tese é porque Alonso foi liberado, mas não saiu. Logo atrás, Hamilton vinha para a parada e teve de esperar chutando os pedais de raiva por causa do espanhol. Tranquilamente, depois de algum tempo, Alonso volta a pista, crava a pole numa ótima volta. Hamilton nem teve tempo de tentar alguma coisa.

O asturiano pode ter passado incólume como pole, com raivas e vociferadas de Ron Dennis, mas não conseguiu dobrar a comissão da prova, que aplicou uma punição no espanhol com a perda de cinco posições no grid. Era o cume da crise na casa de Woking, que misturava também o famigerado escândalo de espionagem que o espanhol usara como chantagem e acabou nas mãos da FIA.

No fim, Lewis e Fernando perderam o titulo para a Ferrari de Kimi Raikkonen, Alonso saiu da McLaren e o resto é história.

Quanto a F1, o próximo encontro será na Europa. A primeira corrida na temporada do Velho Continente visita o parque olímpico de Sochi, para o GP da Rússia. Para quem não quer perder a data, anote ai: 30/04, no tradicional horário das 9h, segundo Brasília.

Um grande abraço e até a próxima com mais um G&M!

Um comentário sobre “Gramming & Marbles (F1): Vettel acerta jogada de xadrez e fatura no Barhein

  1. Uma das justificativa para a ida de Alonso para a Indy 500 é a busca pela “Tríplice Coroa”, até hoje vencida apenas por Graham Hill. Contudo, outro piloto ainda em atividade já completou 2/3 da tarefa, ao contrário de Alonso que “só” venceu o GP de Mônaco. Sugiro ao site explorar o assunto e responder quem é esse piloto.

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