Circulo: Inovação, tradição e amizade nas meadas do mundo têxtil

Instalada quase na porta de entrada de Gaspar, fruto da iniciativa de um suíço que via nas linhas e fios um grande mercado, a Circulo é uma afirmação diária de força empresaria. E mais, uma prova viva de que se pode e é preciso jovem e ter novas e inovadoras ideias e formas de interagir com seus clientes, mesmo beirando os 80 anos (Reprodução)

Se, num hipotético livro de procedimentos da indústria brasileira, existisse um parágrafo sobre a renovação estrutural e de imagem, ele certamente teria um artigo que diria em letras garrafais que nem mesmo as mais tradicionais e familiares empresas escapam desta normativa. E quem não a segue está fadado ao fracasso, esquecimento e morte.

Em tão pouco tempo lendo e conhecendo mais nossa força industrial pelo Vale (e cujo tenho muito a conhecer), pode-se reparar com facilidade que grande parte dos tradicionais arroz-de-festa do setor, em especial o têxtil, buscam uma constante renovação e a adaptação de novos olhares e procedimentos para com os clientes. E quando digo clientes não me refiro aos agoniados investidores e empresários, mas sim ao povo que circunda a fábrica, seja fazendo ela viver ou usufruindo do que ela produz.

E ai, quando se fala em inovação e aproximação social, não importa quantas estrelas no galão ou quantos anos de rodagem no currículo, se ela não vier o fim estará próximo. É cruel falar, sim, mas só assim para se entender a realidade de um mundo empresarial cada vez mais competitivo e socializado.

E por que falo tudo isso? Bem, A BOINA teve uma feliz experiência na manhã da última segunda (24/04): Percorrer os caminhos da Artex gasparense, a tradicional Linhas Circulo, que beirando os 80 anos, nem aparenta a idade que tem face a juventude de ideias que carrega nas paredes do grande prédio do 360 da Rua Nereu Ramos, em Gaspar.

O mecânico têxtil suíço Leopoldo Schmalz, vindo de São Paulo para Gaspar para dar continuidade a sua linha de produtos que já faziam a alegria das donas de casa, em tempos onde bordar, muitas vezes, era sinônimo de roupas e artigos novos para o lar. Abaixo, um rolo de linha Cordel, guardado com carinho pela equipe de marketing da empresa (Reprodução / Circulo | André Bonomini)

O espelho de tudo isto, pode-se assim dizer, está na equipe de marketing que tem levado para outros rincões uma mescla da persistência do suíço-brasileiro Leopoldo Schmalz com a jovialidade das moças que são adornadas com as peças confeccionadas com os produtos da fábrica.

Instalado num espaço acolhedor do setor administrativo da empresa, o departamento de marketing tem sido um dos grandes responsáveis por esta odisseia que levou a Circulo do simples e alegre ambiente das lojas de fios e armarinhos para as vitrines mais concorridas do país e, por que não, do mundo: As passarelas do São Paulo Fashion Week (SPFW) e as lentes das câmeras da Rede Globo.

A primeira construção na Rua Dr. Nereu Ramos, depois da mudança do modesto casebre na Rua Cel. Aristiliano Ramos. No mesmo endereço até hoje, donde saem as os já clássicos novelos de Clea e Anne, marcas que., hoje, dividem catálogo com uma infinidade de produtos (Reprodução / Circulo)

Antes de mais nada, é preciso reverenciar a história. A Circulo nasceu, como dito, pelas mãos do suíço Leopoldo Jorge Theodoro Schmalz, no distante 1938. Aliado ao sócios Júlio Schramm e Willy Schossland, a firma é montada num casebre modesto na Rua Cel. Aristiliano Ramos, no centro gasparense.

Schmalz era mecânico têxtil formado na Alemanha e já tinha experiencia com maquinário têxtil desde que pousou no Brasil no início da década de 30, estabelecendo-se em São Paulo. Segundo o marketing da empresa, ele teria tomado como referencia as rodas dos trens que passavam ao lado da empresa (quando esta mudara-se para a Rua Dr. Nereu Ramos) para dar nome a marca. No entanto, a Circulo já existia antes dele vir a Gaspar. A origem da denominação segue sendo um mistério a ser pesquisado.

Nascida em 1977, a Plasvale foi uma filha direta da Circulo. Hoje, uma das mais conhecidas marcas do setor de utensílios plásticos do país (Reprodução)

Em um tempo onde os trabalhos manuais eram até questão de vestuário barato e quentinho no inverno, as linhas do velho Schmalz fazem sucesso imediato. Só quatro anos se passaram até a companha iniciar as construções de uma fábrica maior em terreno próprio, as margens da Rua Dr. Nereu Ramos, local onde está até hoje.

Em linhas gerais, a Circulo para Gaspar foi como Artex, Garcia, Hering, Karsten e outras seriam para Blumenau. Quase sozinha, a empresa contribuía para a expansão econômica e social do coração do Vale, sem contar a responsabilidade de levar o nome da cidade para todos os rincões do país. Nas caixas de tricô ou crochê das bordadeiras não faltavam os clássicos novelos de Anne ou Clea, marcas-patrimônio da empresa e ícones das artesãs até hoje.

Outra ainda, foi pela mão da Circulo também que nasceria a Plasvale, uma das mais importantes empresas do setor plástico do país e que, de rodagem, está chegando as 40 primaveras e é, seguramente, a segunda mais importante e tradicional indústria gasparense, atrás, claro, da própria Circulo.

Imediações da Circulo nas enchentes de 1983. As cheias provocaram sérias dificuldades financeiras que levaram a empresa a uma concordata no ano seguinte, vencida com persistência antes do tempo legal (Reprodução)

No entanto, para chegar ao ponto que está hoje, a Circulo não teve vida fácil. Já no princípio, a empresa teve de superar com inventividade as dificuldades da Segunda Guerra, onde tudo era racionado. Sem importações de peças, máquinas e óleos, Schmalz driblou a falta com inventividade, lançando mão da habilidade como mecânico têxtil e projetando as próprias máquinas da produção.

Ainda viriam as enchentes, especialmente entre 1983 e 1984, que não perdoaram em nada a empresa. Em outubro de 1984, a Circulo chegou a pedir concordata devido aos problemas vindos das cheias, vencida, com muita persistência, em menos de um ano depois e antes ainda do prazo legal previsto.

Superando dificuldades, a Circulo chegou ao século XXI com grande força e tradição, não apenas por um trabalho com afinco mas também graças a forma de relacionar-se com seus clientes, especialmente as artesãs que fazem uso de seus produtos há gerações. Trabalho desenvolvido e intensificado pelos Águias do Marketing, que tem revolucionado a imagem da velha empresa (Reprodução | André Bonomini)

Ao pousarmos, enfim, em 2017, o que se vê diante das retinas é uma tradição refeita dia a dia, seja pela competência do marketing ou pelas mãos dos colaboradores que transformam algodão, acrílico e polipropileno em base para mil invenções em tricô e crochê.

E quem pensa que foi um trabalho árduo toda esta revolução. Sim, está certo. Nenhuma tradição familiar tão longa sobrevive sem esta ação necessária e decisiva.

Há quase cinco anos, a postura da Circulo com relação ao seu público fiel e colaboradores vem mudando, na tal história que já mencionara no começo desta crônica. O olhar social que o tricô e o crochê tem para as artesãs e para quem usa uma peça fabricada em lá e linha vai muito além de esquentar uma pessoa, mais além ainda de estilo e tendência. Fala-se, agora, em pessoas, em mãos que constroem uma história e, dela, novas histórias que impressionam pelo amor pela arte em tecer.

Registro da turma do workshop na Loja das Linhas, em Blumenau, ministrado por Sinelma Barcelos. O bom e velho tricô/crochê vai muito além do que era no tempo de nossas avós, é tratado como arte, atividade saudável e forma de construir novas amizades na ponta das agulhas (Reprodução / Circulo)

Nos relatos ouvidos junto a equipe de marketing da empresa era possível sentir isto nitidamente. Não era preciso piscar nem limpar os ouvidos. A linha que sai da Circulo, se não faz milagres, faz sorrisos e gera positividade que supera as estatísticas de receita, dentro e fora da fábrica. É claro que tendencias modais e indicadores financeiros fazem parte deste universo, mas não são só eles que estão tocando em frente a história e tradição da empresa.

O marketing da Circulo, ao que se sente, busca trazer na consciência de cada um ligado a empresa, independente de onde esteja, uma sensação de amizade e acolhimento além do produto. Canais digitais de solução de dúvidas, atividades internas entre os colaboradores, eventos voltados as artesãs patrocinados pela empresa, ações que vão muito além, muito além mesmo, de qualquer aparição numa Globo ou numa SPFW da vida.

Este senso social e humano que uma atividade de marketing pode proporcionar é o que move as grandes empresas e o que tem movido a Circulo a um outro caminho bem diferente do que se pode imaginar por trás de um simples novelo de lã. Suavizam-se ambientes dentro e fora do chão de fábrica, tornam-se terapias para artesas que tem no tricô e crochê um escapismo para seus próprios problemas emocionais e afins, fazem nascer novas modas e reinventam aquela clássica passada de agulhas que víamos nossas avós fazer há anos na varandinha de casa.

Sem medo de errar, a odisseia de quase 80 anos da Circulo está em um novo universo onde se fabrica mais que fios, linhas, lã e o que vier de afins. Fabricam-se histórias, vidas novas e amizades, confeccionam-se amores e carinhos, tendenciam-se ideias sustentáveis e sociais, tudo isso a partir, por vezes, de uma única meada de linha.

E com a jovialidade que tem, não será novidade se tanto A BOINA como outros formadores de opinião e quem mais for continuar referenciando a tradicional Circulo, a jovem experiente fábrica do velho Schmalz, como um exemplo de união entre a arte, a linha e o coração, de quem trabalha, de quem costura e de quem a conhece.

(Reprodução)

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