Fuscas e acordes da Banda Volkswagen

Rodando em minha vitrola um pedaço de uma história curiosa e fantástica de uma das mais populares e importantes montadores de automóveis do Brasil: Eis a Banda Volkswagen, diretamente de São Bernardo do Campo (André Bonomini)

Foi numa das minhas passagens pelos corredores do simpático Book Center, na Rua 7 de Setembro, que me deparei com esta pérola acima, uma verdadeira joia no mundo das bandas e recheada com uma história um tanto desconhecida até mesmo nos fãs do mundo do automóvel.

Entre para-lamas de Fuscas e prensas de Karmann-Ghias, no interior de uma das mais importantes montadores de automóveis do país, nasceu uma interessante agremiação musical composta por entusiastas da música que dividiam o tempo entre a labuta, a família e a melodia: Era a Banda Volkswagen, uma página melódica saudosa de tempos onde atividades sociais nasciam no chão de fábrica e, hoje, são páginas inesquecíveis da vida dos seus envolvidos.

Formada por operários nas mais diferentes funções da empresa, a banda era uma saudável agremiação musical da Volks que precisou de poucas apresentações para ganhar a confiança da montadora e vários investimentos, como uniformes, estúdio para ensaio, novos instrumentos e até um maestro especializado (André Bonomini)

A Banda foi criada, ao que indica a contra-capa do disco, por volta de 1963, reunindo no conjunto funcionários dos mais variados setores de trabalhos da Volks de São Bernardo do Campo, na região do ABC paulísta. Tinha de tudo, do chão-de-fábrica ao escritório, em número de 42 integrantes, todos entusiastas da música e que tinham na Banda uma diversão saudável e melódica como poucos.

Passado algum tempo de ensaios e muito trabalho, as vezes no pós-expediente, os músicos fizeram a primeira apresentação no natal do mesmo 1963, numa festa natalina promovida pelo Volkswagen Clube, agremiação recreativa e esportiva mantida pela própria montadora para usufruto dos funcionários.

Maestro Paul Bernard, vindo da Alemanha para Santos com bagagem sobre regência de bandas sinfônicas. Foi convidado pela própria Volks para profissionalizar e aperfeiçoar a banda (Reprodução)

E não é preciso dizer que a apresentação foi um sucesso e o suficiente para convencer a direção da montadora a apoia-los na sua atividade. No ano seguinte, a Banda ganhou novos uniformes, ternos num elegante azul com o emblema da marca no bolso, além de quepes. Também foram adquiridos novos instrumentos e até um estúdio foi fornecido pela empresa para ensaios.

A cereja do bolo foi a vinda do maestro alemão Paul Bernard para coordenar os trabalhos da Banda, ainda amadores mais muito promissores. Filho de uma tradicional família de músicos, Bernard trazia no bojo experiências anteriores com bandas sinfônicas, como na passagem pela Banda da Polícia de Düsseldorf, como maestro. Estava lecionando no Conservatório Musical Heitor Villa-Lobos, de Santos (SP) quando foi convidado pela Volkswagen para comandar os músicos da empresa, que logo incorporaram os ensinamentos do maestro e aperfeiçoaram suas técnicas.

Várias apresentações se seguiram, tendo até uma passagem pela TV Tupi e outra pelo Theatro Municipal de São Paulo. Todo o trabalho de algum tempo de estrada, no entanto, acabaria parando num LP, gravado em 1967, primeiramente prensado pela CID (Companhia Industrial de Discos) e, mais tarde, pela RGE.

O primeiro LP da banda, de 1967. Primeira tiragem era distribuída apenas nas revendedoras da Volks, como é o caso desta cópia adquirida por A BOINA (André Bonomini)

A primeira remessa de discos feitos pela CID eram distribuídos apenas nos revendedores VW pelo país, o que me deixa ainda mais feliz pela cópia que comprei, ainda mais rara. Infelizmente, não se sabe a procedência dela para traçar de qual revenda da Volks o LP possa ter saído. Quanto a remessa da RGE, foi voltada para o mercado de discos, onde o estilo de banda era muito popular.

O disco natalino da banda, também de 1967. Último registro gravado do grupo. (Reprodução)

Em fins de 1967, a banda gravou ainda um disco de canções natalinas, restrito apenas as revendedoras da Volks. Foi o último registro da banda que se tem notícia, já que não há relato se o grupo continuou pelos anos 70 ou terminou. Independente de tudo, o registro do LP de 50 anos atrás é brilhante, mostrando arranjos musicais que misturam um pouco o som marcial com o orquestrado, graças a batuta experiente do maestro Bernard.

No disco, encontramos peças que vão desde o cancioneiro nacional (A Banda, O Guarany), musicas populares pelo mundo (Velhos Camaradas, Coronel Boogey) e até duas composições do próprio Bernard: as marchas Prof. Nordhoff e Dr. Schultz-Wenk. Estas músicas foram compostas em homenagem, respectivamente, aos presidentes mundial (Heinz Heinrich Nordhoff) e brasileiro (Friedrich Schultz-Wenk) da Volkswagen à época. Curiosamente, ambos faleceriam num período exato de dois anos após a gravação do disco: Nordhoff em 1968 e Schultz-Wenk em 1969.

Acima, o presidente mundial da Volkswagen à época, Heinz Nordhoff, abaixo, dirigindo o Fusca conversível na inauguração da Volks brasileira, o presidente nacional à época Friedrich Schultz-Wenk. Homenageados pela banda em dois dobrados no LP (Reprodução)

Um precioso registro de uma história única no mundo do automóvel brasileiro que deixo, abaixo, para a apreciação do amigo leitor. Trata-se de um arquivo com todas as músicas do LP, disponibilizados pela conta Joe44 do YouTube.

Quem gosta de banda, vai passar boas horas navegando pelos acordes dos músicos-operários da Banda Volkswagen, um pedaço de história tão curiosa quanto a de um Fusca:

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