Som n’A BOINA #14: “My Way”, embalos e a revolução francesa de Claude François

Este cidadão franzino de cabeleira loira atravessou duas décadas promovendo uma revolução na música francesa. No SnaB de hoje, uma viagem pela carreira de Claude François, o atrevido criador do que, mais tarde, seria a apoteótica My Way (Reprodução)

O mundo aprendeu, há muito tempo, a reconhecer a qualidade da musica feita ou versionada na França. Os intérpretes nascidos sob a égide da bleu-blanc-rouge são muito lembrados não apenas por canções românticas, mas também por ritmos que vão além das histórias de amor nas esquinas de Paris: Tem dança, tem Rock, tem de tudo e algo mais com muita qualidade vindo da antiga Gália.

Na trilha dos clássicos como Edith Piaf, Maurice Chevalier, Charles Trenet, Charles Aznavour e tantos outros uma nova geração estava vindo embalada pelo Rock americano e britânico que tomava conta das festinhas e bailes nas casas noturnas da capital francesa. Nomes como Richard Anthony, Johnny Hallyday, Christophe, Sheila e Françoise Hardy despontavam em sons que continham novos elementos melódicos e novas formas de cantar e embalar.

Nesta correria toda de entre-décadas, um nome por vezes é solenemente ignorado nesta revolução pop que tomou a França nos anos 60 e 70, pelo menos pelo mundo afora. Egipcio de origem e francês por adoção, um sujeito de cabeleira loira, swing nos pés e potência na voz estava disputando espaço com nomes de peso sem perder o rebolado e o gênio perfeccionista nas composições e danças no palco.

Era a estrela de Claude François, um dos mais bem sucedidos cantores franceses de todos os tempos e responsável por uma pequena-grande sacudidela no cancioneiro francês entre as duas décadas, sem contar que, a partir dele, nasceria um dos maiores clássicos musicais de todos os tempos, imortalizado na voz de um certo cantor de olhos azuis de Nova York.

É um nome que o SnaB tem o prazer de recordar nesta sexta, em nossa primeira viagem para a música de outro país que não seja Brasil, Grã-Bretanha ou EUA. Vamos la!

De Suez para Nice, no ritmo do ié-ié-ié

O jovem Claude, ou Cloclo para os íntimos, e seu primeiro triúnfo. O garoto vindo do Egito alcançava o sucesso com Belles Belles Belles, vindo para ficar na cena musical francesa (Reprodução)

Claude, ou Cloclo, como conhecem suas amadas fãs até hoje, nasceu em 1939 no Egito. Seu pai era controlador de tráfego marítimo no Canal de Suez, que à época era administrado pela França. Foram 17 anos vivendo a beira do estreito dividindo em casa os papos chatos de números e fatos da via marítima. Eis que, em 1956, por conta da nacionalização do canal por parte do Egito, a família de Claude é forçada a sair do país. Primeiro para Mônaco e depois a França, estabelecendo-se na simpática cidade de Nice.

Desde a adolescência, Claude era frequentador de festas regadas ao ainda novissimo ié-ié-ié (como se chamava o Rock no Brasil) e não deixava se vexar pela música que rolava em volta, dançando, cantando e barbarizando diante dos amigos e de pequenas plateias. A música era mesmo seu mundo, mas para seguir a vida no embalo teve que contrariar a vontade do pai, que desejava que o filho seguisse carreira como contabilista. Os únicos números que Claude veria a sua frente dali por diante seriam os dos compassos e passos que dava nos pequenos palcos em que começava a se apresentar em Paris, para onde tinha se mudado para dar continuidade a desejada carreira musical.

Claude parecia que tinha tudo meticulosamente planejado ponto a ponto para alavancar a carreira. A sua frente, o arrebatador Johnny Hallyday era o que dava as cartas na música jovem francesa, e o jovem loiro magrelo não queria ficar para trás. Várias composições originais e versões de sucessos internacionais começavam a arrebanhar plateias, numa saudável, vamos dizer, rivalidade com Johnny.

Em constante revolução, resolveu incorporar algo novo as apresentações dançantes: As Claudettes, dançarinas que acrescentavam movimentos e faziam rapazes suspirar tanto quanto as moças pelo jovem Cloclo (Reprodução)

Em 1962 nasceu seu primeiro sucesso, Belles Belles Belles, e dali por diante não tinha mais como segurar aquele garoto vindo do Canal de Suez. No mesmo caminho de Johnny e Richard Anthony, Claude se estabeleceu como uma das grandes vozes do Pop/Rock francês, mas indo muito além do simples ato de cantar. Cloclo dançava, não tinha vergonha alguma ao se mexer freneticamente no palco e potencializar ainda mais as plateias, na maioria femininas, que se incendiavam com o gingado do cantor.

A partir de 1966, outro elemento surge no palco das apresentações de Cloclo: as Clodettes. Seria quase como equivalentes as Chacretes de Chacrinha no Brasil. Elas rodeavam-no e ilustravam ainda mais as músicas de Claude, sem contar que eram um bom chamariz aos rapazes que acompanhavam os seus shows, especialmente na chamada fila do gargarejo.

Nasce My… ou melhor, Comme d’Habitude

Estava consolidado o ícone, mas Claude literalmente não parava nem um segundo, sempre pensando a frente e tentando coisas novas. Em 1968 partiu para um voo mais sentimental, coisa que nunca tinha feito na carreira. Junto do compositor Jacques Revaux escrevinhou a letra de uma canção romântica a qual deu o nome de Comme d’Habitude (Como de Costume em bom português).

Intensa, demonstrando os dotes da voz potente de Cloclo, a canção teria sido uma resposta ao momento de vida que vivia, depois de um relacionamento acabado com a cantora France Gall. No entanto, o que era para ser um bota fora de sentimentos mortos acabou sendo um sucesso arrebatador sem precedentes. A melodia cruzou o atlântico até os ouvidos de Paul Anka, que resolveu fazer uma versão da música para o inglês.

Você, quando escreve uma música, espera um sucesso tamanho que ela vire versão na boca de outros. Claude sabia bem disso, especialmente quando Frank Sinatra gravou a sua criação como My Way, em 1969 (Reprodução)

Mal podia pensar Claude nos estúdios onde gravava ou nos shows que fazia que sua Comme d’Habitude era transformada, nos EUA, na apoteótica My Way, uma das mais belas canções de todos os tempos, que foi imortalizada de vez na voz do olhos azuis de Frank Sinatra. Uma proeza que o pequeno Claude mal podia imaginar, como mal podia imaginar o mundo que a melodia apoteótica tinha nascido de um talentoso cantor francês num momento de dor de cotovelo.

Mas acredite se quiser, o sucesso de Comme d’Habitude não foi o último de Claude na música. O garoto não parava mesmo, vivia uma vida agitada dividida entre o trabalho, os shows e até a família, onde construída junto da dançarina Isabelle Forêt e onde acabaria por ter dois filhos – Marc e Claude Jr., devidamente escondidos dos holofotes para continuar passando a imagem de bom moço para as fãs histéricas. Afinal, o trabalho não podia parar.

70’s – Consolidação e loucuras de uma carreira sem freio

Dono do próprio nariz: Em 1967, Claude lançou o próprio selo – a Flèche Productions – e vivia alucinantemente a vida de fama, status e trabalho viciante (Reprodução)

Falando em anos 70, foi nesta década que Claude François literalmente partiu para a loucura, como podemos dizer. O desavergonhado cantor de twist da década passada virou um legítimo work-a-holic, conquistador de fãs femininas de mão cheia e figura inovadora da música francesa. Já era dono do próprio nariz desde 1967, quando criou a Flèche Productions, produtora e gravadora ligada a Philips francesa que ficou responsável pela sua assessoria e produção de discos.

Seguindo as novas tendências, suas músicas começaram a ser introduzidos elementos de Soul e Discotheque, dando corpo e embalo próprios da época sem perder a verve dançante que o marcou sempre. Claude era quase que uma unanimidade no som da antiga gália naqueles anos, atingindo cifras milionárias de vendas de discos e bilheterias. Simplesmente, era o sucesso sem contestações ano após ano.

No entanto, entre as alegrias da fama e do sucesso musical, Claude também não escapava de uma vida de excessos, mesmo sendo pai no meio dos anos 70. Viveu casos amorosos aos borbotões, meteu-se em enrascadas como agressões de fãs durante os shows, sobreviveu a tentativas de assassinatos, a julgamentos, a um acidente de carro e até a um atentado do IRA, o exercito separatista irlandês. Pouco agito era bobagem para ele, mas um prato cheio para os tabloides de fofocas franceses.

Claude e Isabelle Forêt, o apaixonado casal quase informal, já que a vida pessoal do cantor era um segredo bem guardado para manter a impressão de bom moço na vida alucinante de shows e noitadas. Isto sem falar a ocultação dos filhos, Marc e Claude Jr, que só seriam revelados à imprensa na metade final da década de 70 (Reprodução)

Cloclo ficou grande, maior até do que a música francesa podia imaginar. Não tinha tempo para viver no ostracismo ou cair no esquecimento, sempre pronto a inovar ou surpreender com uma composição nova e diferente, navegando entre estilos e buscando sempre novos elementos em som e dança. Tudo regado a um teimoso perfeccionismo que o cantor não deixava de lado. Nada podia sair dos conformes, desde a nota do refrão ao passo da coreografia ou ao colarinho do paletó da próxima apresentação.

A crítica musical o tachava como popularesco e até podia o ser, mas era impossível negar que Claude François, o menino vindo do Egito para embalar a França, era um nome a ser colocado no panteão de grandes da canção daquele país, chegando tão ou mais longe quanto qualquer dos seus pares poderia imaginar.

Perfeccionismo fatal, sucessos eternos e cinebiografia

Cloclo diante do Royal Albert Hall, em Londres. Uma das últimas grandes apresentações do cantor, em janeiro de 1978. A consagração final de Comme d’Habitude e sua revelação definitiva como criador daquela que seria My Way para o resto do mundo (Reprodução)

Infelizmente, uma de suas manias não permitiu que chegasse ainda mais longe na música. Depois de se apresentar no Royal Albert Hall, em Londres, consagrando de vez a apoteótica Comme d’Habitude e revelando ao mundo seu verdadeiro criador dez anos depois, Cloclo foi vitima do seu teimoso perfeccionismo. Enquanto tomava banho no seu apartamento em Paris notou uma lâmpada defeituosa próxima a banheira onde estava. Inconsequentemente, Claude tocou o foco aceso para faze-lo parar de piscar (ou algo assim), sem se dar conta de que estava molhado do pós-banho.

Foi, literalmente, um choque sem precedentes em todos os sentidos, Cloclo acabou sendo eletrocutado fatalmente e se calou tão repentinamente quanto a França pode digerir. Sua morte à 11 de março foi um baque para o país inteiro. Fãs estavam arrasados com a perda do ídolo que aprenderam de cor as canções a cada novo disco. Um fato, para os franceses, semelhante a perda de Elvis Presley, ocorrida um ano antes nos EUA.

Foi-se o ícone mas ficou a história e as músicas. Claude François ainda é um assunto pra lá de rentável no mercado fonográfico francês e, em parte, no mundo. Para se ter uma ideia, as vendas de coletâneas e direitos ainda geram receitas que beiram os 10 milhões de euros por ano. Não há festas, seja casamentos, formaturas e aniversários, na França que não sejam embalados com algum de seus sucessos.

Para ter um maior conhecimento, o SnaB destaca aqui alguns deles que merecem uma pausa para se ouvir, com créditos ao super arquivo do canal Claude François Audiothèque, no YouTube. Fone de ouvido em mãos, sapatilhas no pé (porque a dança rola solta muitas vezes) e vamos lá:

Cette Année Là (versão de December, 1963 (Oh What a Night), de Frankie Valli & The Four Seasons, muito bem composta e até bem mais dançante que a original americana)

Bélinda (música bem simples e meio chiclete, bem Pop e dançante)

Alexandre Alexandra (Uma das bem sucedidas incursões de Cloclo no Disco music)

Chanson Populaire (Canção lenta, também soando no Pop, porém mais batida e menos frenética)

Joue Quelque Chose de Simple (Outro som mais Pop, com estrofes simples e refrão mais longo)

Le Lundi au Soleil (Em termos brasileiros, um embalo parecido com a toada do Pagode, mais lenta e cadenciada, mas bem forte no instrumental)

Le Téléphone Pleure (Tem até versão brasileira em estilo brega, intitulada O Telefone Chora e interpretada por Marcio José. A original francesa entrega mais romantismo)

Le Vagabond (Baladinha Pop mais lenta, com um coral de vozes que lembra um pouco uma canção Sol romântica)

Magnolias For Ever (Outro som Disco forte, com um belo coral feminino contrapondo as intervenções de Claude)

Je Vais a Rio (Uma animada canção Disco falando, claro, do Rio de Janeiro e do mundialmente conhecido Carnaval)

Soudain il Ne Reste Qu’une Chanson (Versão de I’ll Be Around, do quinteto The Spinners. Uma interessante melodia com tom Soul)

Se você ficou atiçado por conhecer um pouco mais da vida de Claude François, recomenda-se sem nenhum exagero uma olhadinha do filme biográfico do cantor, naturalmente intitulado de Cloclo (My Way – O Mito Além da Música, o título no Brasil), dirigida e produzida magnificamente por Florent-Emilio Siri, tendo o ator belga Jérémie Renier na pele do cantor.

Uma baita cinebiografia onde espanta-se a semelhança do ator com Claude. Algo inacreditável se comparar certos trechos do filme a outras passagens de Cloclo. Alias, vale destacar que foi o filme a inspiração para este SnaB, já que trata-se de uma história musical que muito brasileiro (ou quase ninguém aqui) conhece.

Fico devendo o filme completo, mas o trailer legendado já dá noção e coceira na mãos dos curiosos:

Bem, aos que chegaram até aqui, é o fim deste SnaB em visita a uma página fantástica da música francesa. Na próxima semana, mais surpresas e embalos no espaço musical de A BOINA, para embalar com tudo seu fim de semana, como Cloclo certamente fez com você hoje.

Um abraço e até o próximo SnaB!

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