Hindenburg, 80: Recordando a queda do gigante dos ares alemão

Precisamente neste sábado (06/05), a aviação mundial recorda um dos momentos mais trágicos de todos os tempos. Diante de vários espectadores no campo da base naval de Lakehurst, em Nova Jersey, o gigante dirigível Hindenburg era envolto em chamas e ia ao chão numa grande bola de fogo e metais retorcidos que chocou o mundo.

Era o fim de uma era de ouro, a dos zeppelins, os charmosos balões inflados com hidrogênio que se propuseram antes do avanço dos aviões a cruzar o atlântico em serviços regulares de transporte de passageiros da Europa para os EUA e a América do Sul. É a maior aeronave construída pelo homem na história e, ainda hoje, não foi superado em tamanho nem pelo luxuoso Airbus A380 ou pelo exagerado Antonov An-225.

O gigante dos céus que deslumbra a América

O dono da companhia: Hugo Eckner. Anti-nazista comportado e um visionário da arte dos dirigíveis (Reprodução)

Saído das oficinas do gerente da Luftschiffbau-Zeppelin e comandante aéreo Hugo Eckner, o LZ-129 Hindenburg era a estrela maior da companhia que já havia conquistado, em com êxito, a simpatia dos alemães com os voos do Graf Zeppelin (LZ-127), à época o mais popular da companhia herdeira dos esforços do conde Ferdinand von Zeppelin com os voos experimentais de dirigíveis primitivos ainda no século XIX. Ele superara, em tamanho, ao R-101, grande dirigível britânico construído em 1929 para rivalizar com os zeppelins de Eckner e destruído num grave acidente na França quando viajava rumo a Índia, em 1930.

O gigantismo dos números do novo dirigível era a prova máxima da evolução do invento consolidado por Santos Dumont no histórico voo em torno da Torre Eiffel, em outubro de 1901. Eram 245m de comprimento por 41m de diametro de estrutura revestida com um tecido de algodão impermeabilidade por uma camada de acetato de celulose com pó de alumínio, tudo isto inflado com 200 mil metros cúbicos de hidrogênio. Era impulsionado por quatro motores Mercedes-Benz de 1200 HP, com hélices de seis metros de altura e com autonomia de 16 mil quilômetros quando totalmente abastecido.

O tamanho do Hindenburg impressiona a primeira vista. 245 metros de comprimento, 41 metros de diâmetro, inflado por 200 mil metros cúbicos de hidrogênio. Um primor da empresa de Hugo Eckner e da Alemanha nazista, que o exibia com orgulho em cada viagem (Reprodução)

Seu primeiro voo foi em 4 de março de 1936, partindo com 87 passageiros nos perímetros do Porto de Frederico (Fredrichshafen), no estado de Baden-Wurttenberg. Apesar de Eckner ser anti-nazista, o Hindenburg tinha em suas caudas as suásticas que, aquela altura, eram o emblema oficial da Alemanha de Adolf Hitler, além dos anéis olímpicos para a promoção dos jogos daquele ano, em Berlim.

Apenas no fim do mês, o Hindenburg faria seu primeiro voo comercial partindo do Porto de Frederico para o Rio de Janeiro. Era o primeiro de seus 17 cruzamentos do Atlântico, sendo dez deles rumo aos EUA e sete para o Brasil. Na primeira viagem, alguns problemas pontuais com os motores forçaram pousos em Recife, na ida, e no Marrocos e na França durante a viagem de volta.

O Hindenburg nos céus de Blumenau, visto aqui por sobre a Rua XV, em 1º de dezembro de 1936. Recebido com muito alarde pelos blumenauenses, que bateram sinos e saudaram a aeronave (Adalberto Day)

Nestas sete passagens em ares brasileiros, uma se destaca. Foi no dia 1º de dezembro de 1936, por volta das 17h, quando o imponente dirigível cruzou suavemente os céus do Vale do Itajaí. Era a segunda vez que um zeppelin de Eckner cruzava o céus daquele pedaço do estado, sendo saudado entusiasticamente com sinos e gritos de Heil, Hitler! (a saudação nazista, comum entre muitos descendentes alemães no Vale naquele período) pelos habitantes de Blumenau e outros municípios da região.

A primeira visita de um dirigível alemão foi registrada em 1º de julho de 1934, pelas 6h45, quando o Graf Zeppelin assombrou os blumenauenses com sua passagem. Conta a lenda urbana de que o dirigível foi mandado em missão de mapeamento para a construção de uma base de comando para Hitler na América do Sul. As reais intenções teriam sido disfarçadas com uma surpresa para parentes de Hugo Eckner que vivam em Hansa-Hammonia, atual Ibirama. O mesmo Graf Zeppelin voltaria ao Vale em 1937, meses anos da última viagem.

A tragédia, a repercussão midiática e as causas

O Hindenburg em Lakehurst, no seu primeiro pouso nos EUA, em 1936. Ele voltaria mais vezes, sendo a última para não mais regressar a Alemanha Reprodução)

O destino mais concorrido, claro, eram os EUA, onde o Hindenburg tinha no campo da base naval de Lakehurst, em Nova Jersey, seu principal ponto de parada. Muito mais do que uma aeronave luxuosa de transporte, o dirigível era uma especie de propaganda aérea do governo de Hitler, destacando o avanço tecnológico e a dita superioridade da raça ariana, tão pregada pelos nazistas.

Entretanto, não era o meio mais veloz de fazê-lo. Para uma viagem ao outro lado do atlântico levava-se de três a cinco dias dependendo da distância. A velocidade não era lá o ponto forte do Hindenburg, que chegava a máxima de apenas 125 Km/h e praticamente deslizava cortando as nuvens. Foi assim que o dirigível entrou novamente em Nova Jersey vindo de Frankfurt, onde pousaria em Lakehurst por volta das 19h30 daquele 6 de maio de 1937.

A cena icônica: perto do mastro de amarração, a cauda do Hindenburg arde em chamas, num espetáculo dantesco de 34 segundos. Das 97 pessoas a bordo, 35 morrem, seja pelas queimaduras ou pelos pulos arriscados na fuga do dirigível (Reprodução)

No local do pouso sempre reuniam-se curiosos e equipes de imprensa, do rádio e dos cinejornais. Eis que, ao começar o lançamento dos cabos de amarração, um princípio de incêndio praticamente envolveu toda a aeronave, que estava a meros 100 metros do chão. Apesar do tamanho do incêndio, milagrosamente 62 dos 97 passageiros sobreviveram graças a ação imediata das equipes de resgate. Outras 35 pessoas a bordo morreram, seja no incêndio ou pulando da aeronave em chamas.

Quem estava em terra gritava horrorizado, como o locutor da Radio WLS, de Chicago, Herbert Morrisson, desesperado nos microfones durante a transmissão ao vivo do incidente, sendo aquela a primeira de costa a costa nos EUA, assombrando a audiência. Isto sem contar as multidões que se moviam aos cinemas para assistir ao filme da tragédia no país.

Na Alemanha, a repercussão do desastre foi imediata, embora um tanto abafada pelos nazistas. Hitler, imediatamente, proibiu o voo de aeronaves infladas com hidrogênio, o que foi um golpe de misericórdia nas intenções de Eckner, que viu abreviado o projeto do Graf Zeppelin II (LZ-130) sua companhia se voltar ao desenvolvimento de insumos para a indústria bélica. Ela seria reduzida a pó em 1945, nos bombardeiros próximos ao findar da Segunda Guerra.

Por anos, ninguém soube ao certo se a tragédia teria sido acidente ou sabotagem de adversários de Hitler. A causa, segundo uma comissão americana que investigou a tragédia, foi atribuída como falha humana, resultado de uma manobra brusca que teria causado uma fissura num dos tanques de hidrogênio do Hindenburg, o que iniciou o fogo.

No entanto, o grande culpado seria mesmo o revestimento do zeppelin, feito de materiais altamente inflamáveis e que, combinado com a estática trazida pelos cabos de amarração, potencializou tão rapidamente o incêndio. Em lugar do hidrogênio, os alemães poderiam ter usado o gás hélio, mais leve que o ar e que não era inflamável, como é feito atualmente com os mais modernos dirigíveis.

O dirigível hoje

O comparativo entre os dirigíveis e aviões. O Hindenburg continua insuperável ainda hoje, se comparado com o irmão, o LZ-127 Graf Zeppelin e os gigantes de hoje,  o Antonov An-225, o Boeing 747 e o Airbus A380 (Airway)

O acidente do Hindenburg apenas apressou o fim das viagens transatlânticas nestes balões, uma vez que o avanço dos aviões era cada vez mais contundente no campo da aviação comercial. Mas não extinguiu-os por completo. Sem mais uso nos voos comerciais, restou aos dirigíveis papeis de aeronave turística, de propaganda e outras funções menores, mas não menos importantes atualmente.

Dois modelos destacam-se no cenário atualmente: o Zeppelin NT (abreviação de Neue Technologie), fabricado pela mesma empresa criadora do Hindenburg, a Luftschiffbau-Zeppelin, ressurgida em 1995 e responsável pela criação da aeronave, que emprega técnicas modernas e seguras de construção – como o uso do hélio em vez do hidrogênio – e navegação.

Outro dos zeppelin marcantes na atualidade é o que é popularmente conhecido como o Dirigível da Goodyear, ícone dos ares especialmente no mundo do esporte. Operando veículos aéreos deste porte há exatos 100 anos, a popular marca de pneus utiliza seu valente dirigível para voos panorâmicos e publicidade em eventos esportivos. Desde 2014, um novo modelo está circulando pelo mundo, empregando o que há de mais avançado em tecnologia voltada aos dirigíveis.

Recentemente, a empresa britânica Hybrid Air Veichles colocou no ar o HAV 304 Airlander, considerada por muitos a maior aeronave do mundo, mas tendo comprimento menor comparado ao Hindenburg. O aparelho é um misto de avião com estrutura, controles e técnicas de comando como as de um dirigível e pretende iniciar uma revolução nas formas de construção de aviões. Orçado em 2 bilhões de libras (R$ 9,5 bilhões), o Airlander tem futuro promissor apesar de cair no primeiro teste, sem grandes danos.

Icônico por ser o primeiro a desafiar o ar para o transporte de passageiros, o dirigível encontrara há 80 anos o máximo em tecnologia de voo quando fora apresentado ao gigante Hindenburg. Um transatlântico dos ares que marcou época e expressou o auge destas viagens românticas, que cortavam suavemente as nuvens e impressionavam quem os contemplasse. Uma era de ouro que se acabou em chamas numa tarde primaveril de maio, há exatos 80 anos.

Abaixo, o interessante documento sobre a tragédia produzido na série Segundos Fatais, do National Geographic.

Um comentário sobre “Hindenburg, 80: Recordando a queda do gigante dos ares alemão

  1. André, bela postagem.
    já naqueles idos anos inicias de 1934, 1936 e 1937, Blumenau e região já presenciaram este que foi um dos grandes momentos marcados em nossa história, a passagem dos dirigíveis, o Zeppelin, e Hindenburg. Momentos épicos e de satisfação a quem pôde assistir. Uma pena que o acidente trágico com o dirigível Hindenburg, tenha dado um impacto tão grande .
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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