Moon Jae-In: Um novo presidente para velhos (e complicados) problemas na Coreia do Sul

Um novo presidente, uma nova filosofia para velhos e complicados problemas. A Coreia do Sul agora está sob as ordens de Moon Jae-In, advogado humanista de 64 anos que já chegou surpreendendo, sobretudo pelo tom conciliador com os sempre complicados vizinhos do norte (Reuters)

A Coreia do Sul manda avisar ao mundo que está de presidente novo. Atende pelo nome de Moon Jae-In o homem que habitará nos próximos dias a suntuosa Casa Azul, residencia do mandatário sul-coreano. Advogado, 64 anos, defensor dos direitos humanos desde os primeiros tempos no Direito, Jae-In é do Partido Democrata sul-coreano, de centro-esquerda, e venceu com margem tranquila sobre o segundo colocado, do Partido Conservador, encerrando um período de dez anos dos linha dura conservadores no poder.

Sorridente nas primeiras fotos oficiais, com a impressão de homem honesto e tranquilo que passou durante a campanha, Jae-In não deve sorrir tanto com as pedreiras que tem pela frente, sobretudo depois do recente momento complicado da política de Seul. Diante dele, a Coreia do Sul apresenta-se com um quadro complicado, econômica e politicamente, interna e externamente. Batalhas que não serão fáceis, como costuma ser naquele lado sul da península.

Dentro de casa: A sempre complicada política de Seul

Política em Seul sempre foi assunto espinhoso. O mais recente foi, justo, o impeachment de Park Geun-Hye, no início do ano, após ser denunciada como participante num esquema de corrupção comandado pela melhor amiga, Choi Soon-Sil. Missão de Jae-In é reverter o quadro impopular diante dos sul-coreanos (Reprodução)

O problema menor para Jae-In, de certo modo, é a batalha que a Coreia do Sul enfrenta para tentar reequilibrar a economia, desaquecida e perigosamente estabilizada. A luta deve começar na recuperação do crescimento econômico e industrial e a criação de novos postos de trabalho no país, que vem enfrentando o aumento do desemprego, especialmente entre os jovens.

No entanto, o maior fantasma que cerca o novo presidente é com relação a quem o cerca: a própria política sul-coreana. O país ainda não se recuperou do abalo sísmico que o sacudiu depois do impeachment da presidente Park Geun-Hye, acusada de participar de um esquema de corrupção e suborno chefiado pela amiga de infância da então mandatária, Choi Soon-Sil.

Alias, corrupção já é problema antigo em Seul e acabar (ou amenizar, como queiram) com ela é uma das grandes metas do governo de Jae-In. Ele sabe bem o estrago que isso pode causar no andamento de um trabalho diante da nação e com conhecimento de causa. Em 2009, perdeu o amigo dos tempos de faculdade e advocacia e então presidente Roh Moo-Hyun, que suicidou-se depois de abertas investigações de possíveis casos de corrupção no então governo.

Jae-In, e o então presidente Roh Moo-Hyun. Amigos desde os tempos de advocacia, o então chefe de gabinete presidencial foi arrasado pela perda do bom colega em 2009, quando Moo-Hyun se suicidou depois de ser apontado em investigações sobre corrupção (Reuters)

Não é de hoje que a política sul-coreana é um jogo comportado de disputas. Isto já vem de tempos mais rígidos, ditatoriais, que remetem a embates entre jovens estudantes e governo nas ruas. Jae-In era um destes militantes e ele não hesitava em ir a luta, especialmente se era para defender os direitos dos colegas. Não é a toa que, no ramo da advocacia, é defensor de direitos humanos.

Por outro lado, sob o julgo da chamada linha dura pregada pelos conservadores nos últimos dez anos, os sul-coreanos mandaram um recado nas urnas sobre o caminho que desejam seguir. Enxergaram em Jae-In alguma coisa de simpatia e determinação para resolver antigos e novos problemas internos que ainda causam urticária no país.

Mas é fora do cercado de Seul que as coisas encrespam…

Fora de casa: O aliado americano quer conversar com o irmão comunista

O sempre problema: A Coreia do Norte, agora sob direção de Kim Jong-Un. Ao contrario do que esperava Donald Trump, Jae-In quer aproximação com o vizinho comunista e melhores relações buscando o fim das tensões e, quem sabe, o tão sonhado acordo de paz (Reuters)

Moon Jae-In já irá começar o governo tocando no assunto mais espinhento de sempre para Seul: a delicada situação da política com a vizinha comunista, a Coreia do Norte. Recentemente, as tensões com Pyongyang alcançaram níveis nunca vistos com as ações de intimidação do presidente americano Donald Trump, que já demonstrou que pretende ir aos extremos para resolver de vez a questão que se arrasta desde o armistício de Panmunjom, que pôs fim a Guerra da Coreia, em 1953.

As recentes intimidações de Trump provocaram a ira contida de Kim-Jong Un, o tal pirralho indolente que comanda a nação criada por seu avô – Kim Il-Sung – a mais de 60 anos, na eterna lavagem cerebral que promove em nome de um falido comunismo. No entanto, desde o fim da guerra a situação entre americanos e norte-coreanos nunca passou de ríspidos tapas com luva de pelica, com provocações e testes com energia nuclear de um lado e sanções comerciais de outro.

O THAAD, escudo antimísseis instalado pelos americanos na Coreia do Sul. Tensões entre Pyongyang e Washington chegaram a níveis assustadores, nunca vistos desde o tempo da Guerra da Coreia, há mais de 60 anos (Reprodução)

Mas para o desespero de Trump (que deverá comentar isto nas redes sociais, como sempre faz), o tom conciliador do seu aliado com o vizinho do norte pode ser algo de esperançoso para se evitar o que muitos já tacham de um possível conflito bélico. Jae-In é filho de norte-coreanos que fugiram para o sul e nasceu num campo de refugiados em 1952, no cerne do conflito na península. E ainda mais: ele vem de uma corrente política em Seul que prega uma boa e tolerante relação com o regime de Pyongyang.

Nos primeiros discursos sobre o problema, Jae-In já deixou clara sua intenção de aproximar-se do vizinho que anda ainda mais distante depois da instalação de um escudo antimísseis THAAD em solo sul-coreano, feita pelos EUA. E Moon foi ainda foi mais longe. Disse durante a campanha que, se eleito, fará uma visita aos vizinhos para buscar a volta das negociações. Detalhe: os líderes das duas coreias só se encontraram DUAS VEZES nestes 64 anos posteriores a Panmunjom.

Contra o aumento das tensões, o aliado improvável: Xi Jinping. O presidente chinês parabenizou Jae-In pela vitória e, na mesma ligação, trocou ideias sobre a reaproximação visando, especialmente, o fim das atividades nucleares na Coreia do Norte (Reprodução)

E para isto, Jae-In contra com um improvável aliado nesta empreitada: Xi Jinping, o distinto mandatário da China. Em ligação feita pelo presidente chinês a Moon (coisa que aconteceu pela primeira vez em anos), Xi Jinping adotou sabiamente o diálogo e trocou ideias e opiniões sobre como melhorar as relações entre as duas coreias, além de utilizar-se disto para promover a desnuclearização da Coreia do Norte, a questão mais sensível de momento e de comum acordo entre Seul e Pequim.

Analisando pela questão geopolítica, a cartada de Jae-In é sábia e praticamente cerca Trump na sua raiva incontida em querer resolver o problema a força. A política conciliadora do novo presidente sul-coreano agradou ao poder chinês, que já é antigo aliado do norte e pode promover uma reviravolta num cenário que parecia fadado a um grande e novo encontrão entre capitalistas e comunistas, o primeiro no século XXI.

No entanto, a postura conciliadora de um chefe de estado com uma nação não-simpática a maioria de seus governados pode resultar em discordâncias a serem resolvidas com protestos e crises internas. E pior, as últimas vezes em que governantes adotaram este tom com um país rival acabaram a quatro palmos abaixo da terra, como foi o caso de Yitzhak Rabin, então primeiro ministro de Israel quando da assinatura dos Acordos de Oslo com o líder da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, em 1993. Rabin acabou assassinado dois anos depois por radicais de extrema-direita em Tel Aviv.

A icônica foto da assinatura dos Acordos de Oslo, com Bill Clinton abençoando o cumprimento de Yitzhak Rabin e Yasser Arafat. Primeiro ministro de Israel era moderado e buscava a paz com os palestinos. Acabou morto dois anos depois por radicais de direita contrários a aproximação. Um risco que Jae-In pode estar correndo ao querer aproximar-se de Pyongyang (Reprodução)

É um momento espinhoso para a Coreia do Sul em todos os âmbitos da política externa, não há o que se discordar. Mas Jae-In parece pronto e disposto (ao menos a julgar pela expressão de figura honesta e sorridente que vem mostrando) para enfrentar as duras batalhas que o país precisa vencer. São riscos? Possivelmente, mas talvez Jae-In não estivesse a caminho da Casa Azul se não fosse para enfrenta-los, e quem lida com direitos humanos tem que ter uma dose de coragem.

Ao menos, que ele não esqueça-se da motivação para governar, mesmo diante da pauleira que vem por ai nos próximos dias. Por enquanto, Seul avisa ao mundo: temos um novo presidente. O resto, vem com o tempo.

(Reuters)

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