Gramming & Marbles (F1): Vettel acerta estratégia e acaba com seca da Ferrari no sono de Mônaco

Dia de tirar a seca: Vettel vence com dedo na estratégia e dispara na liderança do campeonato, além de tirar a Ferrari de uma seca em Mônaco que ia para 15 anos. Fora isto, uma corrida de pouca emoção, como o esperado, nas curvas do principado (Getty Images)

(André Bonomini & Douglas Sardo)

Automobilismo sem Mônaco não é automobilismo e já se vai tempo. Desde 1929, correr naquelas ruelas apertadas, cercadas de prédios luxuosos, gente endinheirada e mar, faz parte da rotina do grupo seleto de pilotos que estão na F1, em especial. No mundial, a prova está no calendário da categoria desde o primeiro certame, em 1950, e em todas elas ao menos um carro da Ferrari esteve na pista.

Ferrari e Mônaco se dão bem há anos, muitos anos. Alternam-se momentos ruins, acidentes (até mortes) e, claro, vitórias. Em 75 edições, a marca de Maranello venceu apenas dez vezes. Pouco, é verdade, mas não é preciso tanto para ser arroz-de-festa nas curvas apertadas de Monte Carlo, que não são para qualquer um neste mundo.

É notável que a Ferrari já teve períodos longos fora do primeiro posto do pódio (se é que tem pódio propriamente dito em Mônaco), mas todo o período de seca espanta. Esta última dos vermelhos vinha desde 2001, quando Michael Schumarcher faturara pela última vez para o time. Ela acabou hoje, com Sebastian Vettel vencendo mais uma em 2017 e esticando ainda mais a liderança no campeonato.

Mas se você achou que foi uma vitória maiúscula, desculpe-nos amigos leitores, mas não foi bem assim que a carruagem andou por lá. A prova foi sonolenta, sem grandes emoções e nem mesmo tantos safety-cars. Vettel, por sinal, apenas teve o trabalho de acertar a única bala que tinha na estratégia e pronto, deu um passão nos boxes em Kimi Raikkonen e venceu a prova, simples assim.

Mas, apesar do sono, lá Mônaco teve seus destaques especiais. Vamos a eles:

Substituto de luxo, grid virado e fila indiana

Para uma participação especial no palco monegasco, Jenson Button, cuidando do possante de Alonso por este fim de semana na McLaren. Um fim de semana especial, porém atribulado, ao veterano campeão de 2009 (Reuters)

A quem acompanha a temporada a fio, sabe muito bem que em Mônaco não veríamos o vulto de Fernando Alonso, que estava do outro lado do Atlântico se preparando para o desafio nas 500 Milhas de Indianápolis. No seu lugar, Jenson Button se espreguiçava vindo do momento sabático para assumir o carro do asturiano. E não faria feio, ao menos no treino, ele e Stoffel Vandoorne estavam no Q3, e só não largaram melhor por punições e acidentes.

O grid em geral foi uma salada fora do comum entre os ponteiros. Lewis Hamilton teve um treino fraco para os padrões da Mercedes e só partiria em 14º. La na frente, Raikkonen resolveu apertar mais o da direita e pular a frente de Vettel, conquistando uma pole que não vinha há meros nove anos. Com o ritmo que desenvolvia, não seria surpresa se o finlandês reencontrasse a vitória também depois de tanto tempo, Tudo conspirava.

Há uns bons nove anos Raikkonen não sorria com uma pole-position (Reprodução)

No resto, tudo mais ou menos normal. Valtteri Bottas partia em terceiro, com Daniel Riccardo ao lado. Max Verstappen e Carlos Sainz Jr. fechavam os seis primeiros. Felipe Massa nem conta-se nas estatísticas dos treinos. Não passou do Q2 e partiu em 15º, imediatamente ao lado de Hamilton.

Antes da largada, um momento curioso que vale nota: Button partia dos boxes e, ao se posicionar, entrou em contato especial com Alonso, ao vivo e sem cortes, em transmissão direta com Indianápolis. O espanhol pediu cuidado com seu carro e o veterano inglês respondeu na forma mais escrachada e feliz possível: ok, vou mijar nele! 

Quanto carinho!

Enfim, a largada, frustração dos fotógrafos que não viram nenhuma pancada na Sanit-Devote, famosa pelos seus enroscos. Nas primeiras voltas, a corrida foi um trenzinho sem grandes pegas ou emoções. Raikkonen mantinha bem a ponta, Vettel comportado em segundo e quem estava nos iates ou sacadas dava um gole de champanhe, ou provava um canapé, ou fazia um chamego na amada. Coisas de principado.

Aqui vale um momento aleatório: neste fim de semana, eu e Douglas assistimos a prova juntos, no apronte para as 500 Milhas horas depois. Com a prova sonolenta e sem muitos atrativos, o papo extra-pista valia e rendia muito mais a pena por aquele momento.

Fora os passados da F1, tudo caia na rede. Veja só alguns tópicos:

De volta a corrida: Uma estratégia apenas e um acidente bisonho

Bem, depois deste momento away, voltamos ao GP. Durante o momento, assistimos Pascal Wehrlein tomar um gancho de cinco segundos por conta de uma saída perigosa nos boxes, quase atropelando Button. Isto não seria o primeiro encontrão de ambos, mas guardemos isto mais para o final.

Quase ao mesmo tempo, a Renault de Nico Hulkenberg aparecia nas câmeras soltando fumaça e óleo na pista. O câmbio do alemão fora para o espaço e, depois de boas corridas nos pontos, veio o primeiro abandono do ano. Uma pena, já que no sábado, a Régie celebrou antecipadamente os 40 anos da sua estreia na F1, no GP da Inglaterra de 1977, algo que deixaremos para recordar no final.

Dessa vez não deu pra Hulk. Problemas no câmbio da Renault acabaram com a corrida precocemente. Uma pena logo num fim de semana especial para a Régie (Getty Images)

Enquanto isso, já começavam-se a se arquitetar as estratégias entre os pilotos, já que seria delas apenas a única forma de se haver alterações por ultrapassagens eram impossíveis. Era como correr de bicicleta dentro de casa, segundo o que definira Felipe Massa nos treinos. A primeira alteração seria entre Verstappen e Bottas, o finlandês voltou a frente de Max, mas o holandês gozava de uma volta de pneu aquecido depois da parada. No entanto, ultrapassar ficou apenas na intenção.

Na pista, Vettel e Riccardo praticamente seguiram o mesmo roteiro: acelerar o que tinham e aproveitar bem os momentos de cara pro vento para ter diferença suficiente e voltar a frente dos contendores depois do pit-stop. Dito e feito. Lá na ponta, depois da parada. Seb superava Raikkonen, que tivera também problemas com retardatários. Mas atrás, o homem-sorriso passava num só golpe a Bottas e Verstappen, galgando a terceira posição.

Raikkonen fazia o seu durante a prova, mas a estratégia de Vettel e alguns retardatários lhe tiraram a liderança (Getty Images)

Sim, Hamilton estava em algum lugar na prova. Depois de uma largada no miolo, o #44 fez o que tinha de fazer para alçar o sétimo posto, sem sustos nem afobações (Getty Images)

Na rabeira, Lewis Hamilton fazia a sua própria corrida. Sabia que teria se fazer estratégias bem diferentes para poder ganhar o máximo de posições sem muito esforço. Teve cabeça ao menos, não se afobou, como lhe é habitual. Esticou até onde pode seu primeiro stint, parou com folgas e pode voltar no sétimo lugar onde estava e onde terminaria a corrida.

Até ai, tudo sossegado outra vez. Isto até o lance mais bisonho da prova (e talvez da F1 em muito tempo!) acontecer. Era a volta 61 quando Button e Wehrlein (lembram do primeiro encontrão?) se acharam na Portier, a curva de acesso ao túnel, durante briga por posição. Jenson colocou por dentro, literalmente forçando, e tocou em Pascal. O alemão da Sauber levantou as quatro do chão e… assim ficou, literalmente de lado, apoiado no muro de pneus.

Vá acreditar como isso foi possível! Diz-se que os novos pneus, quase proporcionais na frente e na traseira, permitiram o equilíbrio perfeito de Wehrlein no que pode se chamar de tombada pela metade (TV)

Uma cena curiosa. Primeiro veio, naturalmente, a preocupação, já que Wehrlein estava de cabeça contra os pneus, numa posição incomum para se capotar. Button também não foi muito longe, passou reto na chincane do porto para abandonar com o eixo dianteiro esquerdo detonado por conta do toque. No rádio, Pascal era sincero com a situação: “estou bem, melhor estaria se pudesse sair do carro”.

Ao mesmo tempo que a corrida fluia antes do safety-car, havia uma preocupação com o asfalto bem no meio da Saint-Devote, que estava se soltando na pista. Neste mesmo ponto, Marcus Ericsson foi fazer companhia a Pascal no paddock e foi de encontro ao muro de pneus, prolongando um pouco mais o safety-car na pista. No mesmo ponto, ao voltar a prova, Vandoorne também passaria reto e bateria, colocando também a McLaren fora da prova.

Pérez atravessa na saída da La Rascasse depois do toque com Kvyat. Não deu para a Force Índia continuar pontuando seguidamente, como vinha fazendo desde o início da temporada e com os dois carros (TV)

Vettel abria e Raikkonen, simplesmente, o seguia. Atrás de ambos, Bottas se engalfinhava com Riccardo e Verstappen, pressionando um e sendo ameaçado pelo outro, mas sem nenhuma mudança. Depois disso, tirando o totó de Sergio Pérez e Daniil Kvyat na La Rascasse e outro abandono de Lance Stroll neste ano, a corrida terminou sem grandes acontecimentos.

No pódio, Vettel rege e canta o hino italiano ladeado por um azedo Raikkonen. Claramente, se houve uma estratégia, ela foi de encontro a Vettel. O finlandês tem todos os motivos para não se sentir bem, e todos nós sabemos bem disto.

Os 10 mais – Corrida:

1 – Sebastian Vettel (Ferrari)
2 – Kimi Raikkonen (Ferrari)
3 – Daniel Riccardo (Red Bull-TAG)
4 – Valtteri Bottas (Mercedes)
5 – Max Verstappen (Red Bull-TAG)
6 – Carlos Sainz Jr. (Toro Rosso-Renault)
7 – Lewis Hamilton (Mercedes)
8 – Romain Grosjean (Haas-Ferrari)
9 – Felipe Massa (Williams-Mercedes)
10 – Kevin Magnussen (Haas-Ferrari)

Vettel embalou a Ferrari no grande dia vermelho no principado. No campeonato, agora, são 25 pontos de frente para Hamilton (Getty Images)

Os 6 mais – Campeonato:

1 – Sebastian Vettel (129)
2 – Lewis Hamilton (104)
3 – Valtteri Bottas (75)
4 – Kimi Raikkonen (67)
5 – Daniel Riccardo (52)
6 – Max Verstappen (45)
9 – Felipe Massa (20)

MENINO DE MUZAMBINHO: Daniel Riccardo (Red Bull)

No lugar de fato da Mercedes: Aproveitando-se praticamente da mesma tática de Vettel, Riccardo desferiu um golpe apenas e foi ao pódio (Getty Images)

Em uma prova sem o mínimo que se espera de emoção, quem pode trazer algo diferente sem dúvida se destacou entre os vários. Foi o que fez Daniel Riccardo, que aproveitou-se da boa ideia do líder da prova para, num golpe apenas, arrematar o terceiro lugar da prova, o que seria, neste caso, o lugar de direito da Mercedes no pódio.

Todo mundo sabe bem que o bólido da Red Bull decepciona, especialmente em pistas velozes. Qualquer oportunidade de andar de forma parelha aos ponteiros, como nos autódromos mais travados, deve ser aproveitada. Riccardo e Verstappen até fizeram um interessante GP dentro das suas possibilidades, mas foi o australiano que usou a tática a seu favor para conquistar o resultado. Saiu sorrindo os mil dentes do principado, mesmo que isto não signifique uma mudança no panorama da equipe em 2017.

Rapidinhas:

Massa partiu de 15º e salvou-se de qualquer incidente estranho para conseguir um nono lugar satisfatório no final das contas (Getty Images)

– Menção para Felipe Massa. Numa prova apagadíssima da Williams, o brasileiro conseguiu fazer uma prova medida e sem incidentes (milagre!). Arrancou os bons pontos de sempre com o nono lugar.

– Dia para esquecer para a Force India. Não deu para manter por mais uma corrida os dois carros na zona de pontos. Esteban Ocon largou mal e nem saiu da rabeira do pelotão. Enquanto isso, Pérez meteu-se em bolas divididas, especialmente a última com Kvyat, e saiu também sem pontos.

Sainz Jr. e seus prodígios: Largou em sexto e, sem se deixar iludir, fechou em sexto. A Toro Rosso é pequena demais para o jovem espanhol (Getty Images)

– Nota grande para Carlos Sainz Jr., responsável por outro bom resultado para a Toro Rosso. O espanhol é bom piloto, não é segredo, e merece muito mais do que a carroça caixa-de-Bis de Faenza. Largou em sexto e só não fez mais porque ultrapassagem é difícil em Mônaco e, também, porque o carro não faz milagres.

– Outra que fez bem o papel na prova foi a Haas, com os dois carros nos pontos outra vez. O grande destaque da equipe yankee foi a pintura, que abandonou o vermelho dos detalhes e ficou ainda mais acinzentada. Romain Grosjean foi o oitavo e Kevin Magnussen, apesar de ainda seguir errando muito, o décimo.

Grosjean com o Haas acinzentado a frente do pelotão. Ele e Magnussen voltaram a levar os bólidos americanos a zona de pontos, no fim de semana onde a novidade foi o adeus ao vermelho da pintura (Getty Images)

– E Joylon Palmer conseguiu o melhor resultado em… algum tempo: 11º. A copa dos fraquinhos continua movimentada, talvez um dos poucos motivos para se comentar em provas chatas. Palmer foi, deles, o único que completou. Stroll parou, Ericsson achou o muro e Vandoorne seguiu a mesma ideia do piloto sueco. Sendo sincero, gente que ocupa lugar na F1 apenas para fazer número.

– E outro fim de semana de erros homéricos no infame Túnel do Tempo do Sportv. Nem é preciso comentário. Dar audiência ao Globo por estes erros já está passando dos níveis aqui no G&M. Quanto a narração de Galvão Bueno, bem, ao menos ele não disparou um impropério sobre a Indy… ao menos.

Para Recordar: Renault, 40

Um momento especialíssimo fez sorrir os fãs da F1 saudosos no fim de semana monegasco. A Renault escolheu a parada no principado para celebrar, numa ação especial, os 40 anos da estreia na categoria. Coube a Jean-Pierre Jabouille – o pioneiro – e a Alain Prost  um dos maiores vitoriosos na primeira fase áurea – a honra de levar para uma volta nas curvas do principado, respectivamente, o modelo pioneiro (RS01, de 1977) e um dos mais marcantes (RE40, de 1983) da equipe, num passeio de volta ao tempo.

Parece exagero falar dessa simples ação dessa forma, mas Jabouille e Prost – que não chegaram a ser companheiros na Régie – tiveram passagens marcantes e sumariamente importantes na história da montadora na F1. Neste caso, destaco em especial o velhinho porém inteirinho Jean-Pierre, que há quatro décadas atrás, vindo da F2 e um protegido da turma comandada por Jean Sage, foi responsável por levar o bólido amarelo-ovo a seu primeiro passeio.

A primeira vez: o RS01 debuta em Silverstone, com Jabouille no comando. Na primeira corrida, alguma chacota inglesa, corrida sem ilusões e abandono com problemas no turbo (Reprodução)

Foi em julho de 1977, no GP da Inglaterra disputado em Silverstone, que a Renault fez o debut oficial na categoria depois de algum tempo demonstrando competência em outras categorias. O RS01 era meio esquisitão, volumoso e motivo de chacota entre os britânicos, algo natural na rivalidade secular contra os franceses. Na estreia, Jabouille não teve ilusões, largou em 21º e abandonou na volta 16 com problemas no turbo do revolucionário engenho Renault-Gordini EF1 V6.

Era uma estreia discreta, que se estenderia por mais quatro participações (três abandonos na Holanda, nos EUA e na Itália; e uma não-classificação no Canadá), mas o início de uma história que já se estende por estes 40 anos com mais de 300 participações, dois títulos de pilotos e construtores (2005 e 2006, ambos com Fernando Alonso), 35 vitórias e 51 poles, e isto tudo sem contar as estatisticas das equipes servidas (e bem servidas, muitas vezes) com seus motores, como Williams, Benetton e Red Bull.

Mesmo revivida das cinzas da Benetton e da Lotus dos últimos tempos (a equipe original fechou em 1985), a Renault tem uma das histórias mais belas de persistência e glória da categoria que merece sempre todas as palmas de reconhecimento, independente se o momento não é lá o mais positivo. Do sonho de fazer o que a Ligier nunca conseguiu (um francês campeão com carro, motor e pneus também franceses) aos dias de hoje, muita história passou, e nessas idas e vindas a Régie ainda quer mais, muito mais do que já tem imortalizado na história da categoria.

Isto dito, isto posto, é hora de aguardarmos o relato das 500 Milhas, que está saindo do forno pelas mãos de Douglas Sardo e nos prepararmos para o próximo encontro da F1 em 2017. E ele está marcado para a tarde do dia 11 de junho, na sempre simpática Montreal, no Canadá.

Nos vemos lá! Até o próximo G&M!

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