Som n’A BOINA #18: Odair José “muito louco” e seu LP alucinado

Prepare seus ouvidos, ai vem o terror das empregadas… Mas calma! Não é nada do que você está pensando, é Odair José com a sua polêmica Ópera-Rock O Filho de José e Maria, disco que completa 40 anos de polêmica, controvérsia e revolução do próprio cantor (Reprodução)

Quando se fala nele, a primeira coisa que costuma se lembrar sempre é aquele som brega/romântico, característico da música brasileira dos anos 70/80, que era o verdadeiro mela-cueca popularesco feito apenas para vender. Um ambiente tomado por intérpretes pós-Jovem Guarda onde dificilmente se largava, pelo conforto financeiro, pelo sucesso entre a grande massa, por ai…

Mas será que é impossível mesmo largar esse mundo? Bem, o terror das empregadas provou que sim. A história que o SnaB recorda nesta sexta-feira traz a tona um dos momentos mais controversos e esquecidos da música nacional, e que mostrou ao Rock brasileiro outra faceta de um popular. A faceta, diga-se de passagem, mais intensa, rebelde, no bom português: a mais foda.

Quem torceu o nariz com Eu Vou Tirar Você Deste Lugar, ou com Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula) deve se surpreender. E quem já sabe deste conto vai, da mesma forma, fazer uma reverencia respeitosa. Mergulhemos no submundo de exatas quatro décadas de Odair José e seu controvertido, alucinante e revelador O Filho de José e Maria.

Do Brega ao Rock (e as afrontas)

A estreia de Odair, em 1970. O sujeito de traje bem cortado começava a trilhar o Brega sem estar, necessariamente, dentro do estilo que o consagraria (Reprodução)

Odair José de Araújo, goiano de Morrinhos, hoje com respeitáveis 68 anos e uma carreira de 36 discos entre 1970 e 2016 é, até hoje, um dos nomes mais celebrados do Brega, um estilo musical que se popularizou muito nos anos 70, especialmente depois do fim da Jovem Guarda. Ele e outros cantores como Paulo Sérgio, Evaldo Braga e Diana (que chegou a ser sua esposa) aproveitavam ainda dos restos das baladinhas românticas do período para engatar algum sucesso, o que originou o estilo que dominava as rádios e programas de TV populares.

Foi de crooner a compositor num estalo, tendo como influencias o country raiz americano, como Johnny Cash, nas suas composições. Mas, apesar da consagração maior no estilo Brega com uma penca de sucessos é muito notável que o que Odair compunha e arranjava nem um pouco parecia-se com o estilo que o consagrou.

Para ter uma ideia, o estilo Brega tem como características um arranjo simplório, uso em excesso de instrumentos eletrônicos (na época, sintetizadores e órgãos elétricos) e letras-chiclete melosas, falando de amores (perdidos e conquistados), contando historinhas românticas mais depressivas do que felizes. Era tudo o que as gravadores sonhavam: músicas que arrebanhavam a grande massa e garantiam boas vendagens, simples assim.

Mas, analisando a fundo as canções de Odair José neste primeiro período, mesmo com letras melosas, os arranjos pareciam querer fugir do tal do Brega, brincando com outros instrumentos e incrementando os tradicionais, como a bateria e a guitarra. As letras, apenas do apelo romântico, não deixavam escapar temas polêmicos, espinhentos especialmente para os tempos de ditadura/regime militar.

O LP Assim Sou Eu, de 1972. A primeira crítica a Igreja com Cristo, Quem é Você? (Reprodução)

Só o caso de Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula), de 1973, já é o suficiente para explicar esta verve polêmica de Odair. A canção é um dos grandes êxitos do então terror das empregadas e foi vetada pelos militares, além de ser duramente criticada pela Igreja Católica pelo seu conteúdo, falando abertamente dos anti-concepcionais, uma novidade sem precedentes da década. Outra – Eu Vou Tirar Você Deste Lugar – fala de bordel, prostíbulo, bem na cara dura, para dobrar o nariz dos conservadores.

Alias, coitado seria do catolicismo. Era só a segunda afronta de Odair José contra a Igreja. Em 1972, ele já havia gravado a ótima Cristo, Quem é Você?, com arranjos de Zé Rodrix e base da banda Som Imaginário. Na letra, críticas a algumas filosofias da religião. Aos poucos, o cantor abria-se a novos estilos e brincava com novas melodias, mesmo ainda com os pés no Brega, e era evidente que Odair não queria ficar no mundo popularesco e, digamos, fácil.

Algo estava se transformando, e Odair queria mudar de vez, deixar o popular para ser Pop. Mas não seria assim tão fácil, não mesmo.

Odair separa José e Maria e radicaliza Jesus

Para a obra nascer foi necessário mudar de casa. Sai a Polydor, entra a RCA, e a polêmica estava prestes a começar naquele Brasil dos tempos militares (Reprodução)

Aqui, antes de começarmos, vale uma nota: Este escriba não esconde de ninguém que é Católico praticante, integrante de uma equipe de liturgia e respeitador ao extremo da Igreja. No entanto, neste caso, esta história está apenas recordando uma passagem de um cantor e suas canções controversas que irritaram muito a Igreja e suas instituições. É apenas resgate, não desrespeito, ok?

Feito isso, vamos continuar. Vendendo rios de discos e um dos preferidos do cast da Polydor, Odair José prepara-se para embarcar num voo ousado para ele e para quem o conhecia como um artista Brega. A ideia primeira era um disco de 24 músicas que, em uma determinada ordem, contasse sobre um personagem específico. Por conta do preço final, o disco duplo caiu, mas a temática e a construção se mantiveram.

Buscando inspirações nos livros do poeta libanês Gibran Khalil Gibran e tendo nas melodias notas de Jeff Beck e Peter Frampton (só para citar alguns), Odair começou a dar vida ao projeto. As canções deveriam contar a história de uma espécie de Jesus Cristo contemporâneo, envolvido nos vícios da vida e com dúvidas sobre sua condição social e sexualidade, conquistando a plenitude da existência após anos de solidão e rejeição social. O nome? Bem direto aos ouvidos da Igreja: O Filho de José e Maria.

A proposta do disco duplo era ousada, talvez mais agressiva do que ousada. Era a saída definitiva de Odair do brega que o fez famoso para um ritmo que ele mesmo preferia e queria seguir, inclusive com o sucesso. Com a negativa da Polydor, o cantor partiu para a RCA para dar vida ao projeto. E mal sabia o que ia atingir a simpática gravadora do cãozinho.

O disco chegou as lojas em 1977, exatamente em maio, e era o que muitos críticos hoje consideram a primeira experiência de Opera-Rock gravada no país, embora Odair nunca usasse este termo. Mas, infelizmente, num país cuja interpretação musical para projetos mais inteligentes e conceituais é um tanto tacanha, o disco foi uma pancada violenta para os ouvidos dos apreciadores do cantor. Eles (especialmente elas, o público feminino era o grande consumidor de Odair José) não entenderam nada, tudo estava bem diferente do que lhes era entregue quase todo ano.

O fantástico disco de 1968 de Ronnie Von. A mudança de estilo do Príncipe cobrou um preço alto pelo experimentalismo. Seria o mesmo caso de Odair, anos depois (Reprodução)

E mais, fora o fracasso comercial, a Igreja Católica – naturalmente –  foi atingida em cheio com o meteoro de Odair. Teve até ameaça de excomunhão para o cantor por tocar no tema envolvendo a Sagrada Família. Afinal, na história contada pelas dez faixas do disco, Odair separava José e Maria e colocava Jesus como um jovem disfuncional, inquieto e inseguro quanto a sexualidade e aos vícios do mundo. Pacote completo e prato cheio para qualquer padre ou bispo pedir a excomunhão.

Num país daqueles idos, onde o conservadorismo imperava e o catolicismo ainda era seguido estritamente a risca, a produção de Odair foi um golpe violento, o que fez a crítica se voltar contra o trabalho. Odair vivia o que Ronnie Von viveu em fins dos anos 60, quando deixou de lado as baladinhas da Jovem Guarda para tentar o voo no psicodelismo. Naqueles idos, ninguém entendeu a proposta e o Principe teve de voltar ao Soft Pop/Romântico para continuar vivendo. Tal como Odair estava passando, e bem pior.

Para a carreira de Odair José, foi um choque violento. Ele voltou ao Brega e tentou se livrar do cunho polêmico, talvez apenas para sobreviver, mas nunca mais suas canções voltaram ao topo das paradas, nem mesmo das populares. Tem quem dirá que foi castigo de Deus, mas não é para tanto, de um baque deste é difícil qualquer um reerguer carreira. Nem mesmo cantando Gospel se salva deste martírio.

Incompreendido, mas jamais esquecido

Mesmo sem retomar o sucesso antes do disco de 1977, Odair José foi redescoberto por quem aprecia boa música, especialmente quem descobriu o disco num canto oculto da história musical brasileira e que, apenas em 2014, foi revisitado num show durante a Virada Cultura Paulista (Reprodução)

Felizmente, e muito felizmente, a obra incompreendida e polêmica de Odair José não morreu com o tempo, assim como o estilo rebelde de Odair e suas posições com temas polêmicos. O Filho de José e Maria permaneceu como um disco cult, restrito a poucos admiradores que, com o passar dos anos, começaram a colocar o trabalho em evidência outra vez. Mais obra da curiosidade do que coisa de mercado.

Em entrevistas e bate-papos, Odair não esconde o orgulho pelo disco que fez, mesmo que ele possa ter lhe custado o estrelato. Quem conhece a obra de 40 anos atrás muda repentinamente a opinião para com o autor. Tira dele o rótulo do Brega e passa a compreender letras e melodias, como a de A Noite Mais Linda do Mundo, outro grande sucesso do período Brega do cantor, como um som beleza, agradável e interessante.

Em 2014, depois de tantos anos, Odair José voltou a acender o letreiro de neon da capa e revisitou pela primeira vez as canções daquele disco em um show no Theatro Municipal de São Paulo, durante a Virada Cultural daquele ano. Foi a redescoberta oficial de Odair, que realizou o sonho de muitos curiosos em ouvir o verdadeiro terror das empregadas preso nele atrás do tempo do Brega:

Quanto as músicas do disco, não vou avaliar faixa a faixa. Deixo para cada um tirar a sua conclusão sobre a qualidade e letras de Odair José naquela que, seguramente, pode ser dita como sua obra máxima. Entre os sons, verdadeiras óperas na guitarra, com sons que mesclam um pouco de Pop e até uma pitada de Soul, sem perder a classe.

Este escriba destaca, em especial, as faixas O Casamento – uma verdadeira composição pensada, construída de cima a baixo como uma peça de teatro – e Fora da Realidade – que na versão do show é bem mais puxada para o Rock, mas tem um som interessante no disco.

Aqui estão elas para degustação:

1 – Nunca Mais
2- Não Me Venda Grilos (Por Direito)
3 – Só Pra Mim, Pra Mais Ninguém
4 – É Assim…
5 – Fora da Realidade
6 – O Casamento
7 – O Filho de José e Maria
8 – O Sonho Terminou
9 – De Volta Às Velhas Origens
10 – Que Loucura

E pensar que chegaram a tacha-lo de Bob Dylan brasileiro… É demais? Vai saber, Odair José não é brega, é muito louco (Reprodução)

Para quem não conhecia – ou talvez conhecia erradamente – eis Odair José, o verdadeiro “terror das empregadas” muito louco. E assim, o SnaB chega a maioridade, com 18 edições e muita coisa boa por vir.

Nos encontramos na próxima sexta! Até lá!

2 comentários sobre “Som n’A BOINA #18: Odair José “muito louco” e seu LP alucinado

  1. Pingback: Som n’A BOINA #19: O romance e mensagem musical nos tempos da declamação | A Boina

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