Som n’A BOINA #19: O romance e mensagem musical nos tempos da declamação

Um tempo onde música era aquele som de fundo. O importante era a recitação de uma história, uma mensagem, um coração partido. Era a declamação, febre entre vários intérpretes nos anos 70 e que conquistou ouvintes Brasil a fora, num destacamento da música brega/romântica ou como momento de inspiração de radialistas, atores ou apresentadores (Reprodução)

Esta semana, a música e o rádio brasileiro despediram-se de uma voz perdida nas paradas dos anos 70. O cantor, compositor e radialista Barros de Alencar faleceu na última segunda-feira (05/06) depois de um período de internação em um hospital na Mooca, em São Paulo. As causas da morte não foram reveladas. Ele tinha 84 anos.

Cristóvão Barros de Alencar, paraibano de Uiraúna, ficou marcado na história do cancioneiro nacional por um período de composições pitorescas daquilo que, hoje, costumamos chamar de Brega/Romântico, uma das estradas que a música brasileira seguiu depois do fim da Jovem Guarda e do Tropicalismo. Era o tempo do romance, das músicas melosas e populares que já comentamos sutilmente no último SnaB sobre Odair José, mas de outra maneira: em vez de cantar, a regra era declamar.

Foi nesta segunda que a música e o rádio brasileiro se despediram de Barros de Alencar, um dos mais conhecidos nomes da música declamada, uma antiga febre dos anos 70 de contar romances e mensagens que encantava ouvintes das programações populares (Maurício Barbieri / AE)

A música declamada, declamação ou como quer que seja chamada, virou uma febre nas paradas musicais do país nos anos 70, arrebanhando especialmente aqueles corações partidos que se identificavam com as histórias românticas e poesias que os autores soltavam em cada compacto ou LP. Pareciam conversas com quem as ouvia, forma de botar a mágoa para fora ou, simplesmente, uma forma de dizer algo indiretamente para quem ama.

A declamação no Brasil veio ganhando espaço, justo, no fim da Jovem Guarda, inspirada em trabalhos vindos da Europa (especialmente de Portugal e Espanha) e um pouco também pelas cartas abertas que tomaram as lojas de disco dos EUA nos anos 60. Estas, em especial, nem tocavam tão fundo do ano, a ideia mesmo era expor temas espinhentos, como a Guerra do Vietnã.

Neste caso em especial, ficaram famosas, por exemplo, as cartas abertas de Victor Lundberg (An Open Letter to My Son To The Flower Power), carregadas de patriotismo e discurso em apoio a conflito na Indochina, o que naqueles idos de impopularidade da guerra podia soar como uma atitude corajosa de ir contra a opinião pública vigente.

Enfim, voltando ao Brasil, não existe uma espécie de primeira canção declamada gravada no país, mas talvez uma das que inspirou a exploração do estilo por aqui: Olhos Tristes, primeiro trabalho de Barros de Alencar com declamação, alternando versos poéticos com a voz doçura de Giane. Eram os últimos suspiros da Jovem Guarda e o estilo romântico era apresentado na faceta mais melodramática aos poucos nas rádios brasileiras.

O compacto de Giane, lançando Olhos Tristes, com a declamação de Alencar. A música falada começava a tomar conta das paradas nacionais (Reprodução)

Quando o Brega/Romântico tomou conta das emissoras nos anos 70, fazendo as gravadoras faturarem os tubos com vendagens, a declamação praticamente virou mania no Brasil. E não se restringia apenas a cantores (alguns até consagrados, como Roberto Carlos), atores, apresentadores, radialistas (como Barros de Alencar) praticamente aproveitaram o momento para criar poesias que eram gravadas e vendidas como pão francês nas lojas de discos. Não era anormal você ouvir uma declamação numa rádio sem motivo aparente, era o sucesso sendo rodado para quem quisesse ouvir.

A declamação caiu por terra no início dos anos 80, virando apenas uma nota de rodapé na história musical dos Brasil dos anos de chumbo. Ainda hoje há quem recorde com nostalgia das poesias gravadas de outros tempos, talvez recordando um amor passado ou um momento da juventude. Afinal, quem não tem na mente uma recordação açucarada como esta de um namoro ou uma história passada?

E já que estamos na beira do dia dos namorados, você com seu crush na mente… deixamos aqui embaixo algumas das declamações que marcaram época naquele período. Não espere composições inteligentes, muitas são verdadeiras melações mas que merecem reverencia de certa forma.

E tem de tudo, vamos apresentando os responsáveis a cada uma. Prepare os lenços:

Correio Sentimental (George Freedman)

Já pelos fins da Jovem Guarda, este jovem cantor soltou esta carta aberta em canção, talvez sendo uma das primeiras declamações gravadas no país. Misturando musica e leitura quase desesperada de alguém que, hoje, dirianos que está encalhado…


120… 150… 200 Km/h (Roberto Carlos)

Som do Rei de 1970, que não era sua primeira experiência com declamação, mas talvez a mais famosa da sua carreira…


Soleado (Francisco Cuoco)

Vindo de atuações de destaque nas novelas da Rede Globo – como Selva de Pedra e Pecado CapitalChico Cuoco era um dos galãs daqueles tempos na TV. E nesta de promover a imagem, ele também não deixou passar a chance de gravar uma declamação.

Esta, com o belo tema Soleado ao fundo, foi a mais popular:


O Reencontro (Tarcísio Meira)

Outro do grupo dos galões globais dos anos 70, o marido da sra. Gloria Menezes também aproveitou a febre para deixar um trabalho seu.

Este tem ao fundo a inesquecível Moonlight Serenade, peça fantástica de Glenn Miller:


Desiderata (Cid Moreira)

E falando em globais, a eterna voz do Jornal Nacional também se aventurou no meio, mas gravando mensagens mais gerais, sem lá tanto romance embarcado.

Cid grava salmos até hoje, mas começou conquistando o ouvido de seus admiradores com esta versão da poesia de Max Ehrmann, de 1927:


Prometemos Não Chorar (Barros de Alencar)

Agora sim, o maior sucesso de Alencar na declamação. Não era a primeira, como dissemos e como bem se sabe, mas ninguém esquece desta música, tradução da declamação do cantor argentino Palito Ortega, de 1975:


Que Saudade de Você (Eli Corrêa)

Famoso pelo seu icônico Oiiii, Gente! nos microfones da Radio Tupi e outro sem-número de emissoras, Eli também aproveitou o filão no início dos anos 80, talvez naquela oportunidade de ganhar uma verbinha a mais para o orçamento.

E nestes bicos, soltou algumas declamações, como esta:


Amar é Viver (Altieres Barbiero)

Assim como Alencar e Correa, outro que buscou a renda extra e aquele aproveitamento da voz para conquistar as ouvintes apaixonadas foi Barbiero, voz marcante da Rádio Record e de outras várias emissoras na carreira.

Esta é de 1981, gravada originalmente pelo selo Polydor:


Eu Ainda Gosto Muito de Você (Roberto Barreiros)

Mais um na conta dos declamadores vindos do rádio. Roberto Barreiros era um faz-tudo radiofônico, além de cantor e compositor, era radialista e radio-ator.

Tem declamações gravadas desde o fim dos anos 60 e, esta, é uma das mais populares dele:


Nosso Primeiro Amor (Moacyr Franco)

E não tem quem não saiba dos dotes artísticos do Moacyr. O Jeca Gay, o mendigo e tantos outros tipos era um verdadeiro showman da TV: cantava, apresentava, atuava batia escanteio e cabeceava.

E não seria estranho se, entre as canções que gravava, surgisse declamações, como esta de 1970.


Fitro Solar (Pedro Bial)

Para encerrar este SnaB todo declamado, uma mensagem mais atual, não tão romântica mas feita para pensar. Foi registrada em 2006 pelo experiente jornalista que, vez em quando, dispara algumas mensagens como esta.

Foi lida no fim do Big Brother Brasil daquele ano, talvez a coisa mais inteligente que já se ouviu na história do reality.  No fundo, o som Everybody’s Free (To Feel Good), de 1992 da bela Rozalla:

Sendo assim, guardemos os lenços e o pote de melado no armário e nos encontramos no próximo SnaB.

Até a próxima!

Um comentário sobre “Som n’A BOINA #19: O romance e mensagem musical nos tempos da declamação

  1. André,
    Curti e muito nas rádios AM , Barros de Alencar , O cantor, compositor e radialista que nos deixa uma grande lacuna no Rádio Brasileiro, mas que será eterno para nós ….
    Simplesmente Barros de Alencar, o grande!
    Adalberto Day Cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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