Câmara de Vereadores na antiga prefeitura? NÃO!

Eis a sede da Fundação Cultural de Blumenau, antiga Prefeitura da cidade, que nos olhos dos vereadores da cidade-jardim, deveria ser a nova sede própria do legislativo. Uma proposta, no mínimo, cômica para a realidade da cidade e da histórica construção, um dos poucos redutos culturais da cidade (Reprodução)

Amigos e amigas do blog sabem que eu não sou o jornalista recomendado para falar de política. Minha preferencia é a política internacional e só, nada além disto. Aos que procuram as confusões e bochichos da nossa política, recomendo sites como o do professor Alexandre Gonçalves, o Informe Blumenau, sempre completo e direto nestes assuntos.

Mas, hoje, tive de parar e raciocinar diante do que li. Defensor da história como eu, quase cai da cadeira com o que li no Jornal de Santa Catarina, em matéria do blog do Pedro Machado, no último sábado (24/07). Atentai-vos.

Segundo o bom Pedro, a Câmara de Vereadores da cidade-jardim estaria estudando construir sua sede própria – pasme-se – na Fundação Cultural. A proposta seria verticalizar o prédio, aliando a construção clássica a um desenho moderno. A proposta tem dado boas impressões ao presidente da casa, vereador Marcos da Rosa (DEM), e já motiva um estudo por parte da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (essa troca de nomes tornou tudo uma salada!) para o uso do prédio, já que trata-se de uma construção histórica.

Pesa também a decisão do legislativo em permanecer na região central, descartando assim um terreno já adquirido pela prefeitura ao lado da rodoviária (por sinal, decadente), recusado pelos parlamentares pela localização e pela necessidade de desapropriação de parte de outro imóvel.

Ponte da Rua XV, ao fundo, o prédio da prefeitura, já reformado pela primeira vez (Reprodução)

Bom, vamos respirar, não quero parecer aqui fazer um discurso emocionado e sem razão que pareça mais birra, quando na verdade não o é. Até porque nem metade dos nossos nobres vereadores não conhecem a história deste prédio.

Aquela construção, originalmente, é de 1939. Foi ampliada pela primeira vez em 1918, partindo do primeiro prédio,erguido em 1875. O prédio sempre chamou atenção pela imponência e marca que tem naquele trecho da Rua XV, localizado onde, nos primórdios, era o Stadtplatz, o centrão propriamente dito.

Em 1958, o então locutor da PRC4 (Radio Clube de Blumenau), Altair Carlos Pimpão foi pego de supetão durante a transmissão noturna pela fumaça e sons altos do crepitar das chamas no incêndio que abateu-se no prédio, por infeliz coincidência, no setor de arquivo da cidade. Ele estava os vendo pela janela no alto do prédio, na esquina da XV com a Nereu Ramos.

O prédio já depois da reforma de 1939 e, abaixo, danificado pelo incêndio em 1958. Uma ferida que demoraria anos para ser reparada (Reprodução / Adalberto Day)

A atuação rápida dos bombeiros da Empresa Industrial Garcia, Gaitas Hering e da Firma Hoepke, juntos dos soldados do 23º Regimento de Infantaria foi decisiva para evitar mais danos e a destruição total do prédio. Coincidência ou não, no mesmo ano, a cidade ganhava o primeiro batalhão do Corpo de Bombeiros.

Pelos outros anos, a sede da prefeitura continuou sendo ali, dividindo espaço com o prédio arruinado e a Câmara de Vereadores. Isso se foi até 1982, quando o então prefeito Ramiro Ruediger (se você não sabia quem era o patrono do parque, olha ai) inaugurou a moderna prefeitura na ponta sul da Avenida Beira-Rio, indo para lá junto do parlamento.

O prédio seguiu-se sendo sede de algumas secretarias da cidade, carecendo de uma restauração que parecia nunca vir. Veio no sesquicentenário, em 2000, depois de anos de insistência e negligência com a história daquele prédio.

Depois disso, veio o drama do telhado. O Auditório Carlos Jardim e outros espaços, em dia de chuva, era uma extensão do tempo chuvoso na parte de fora do prédio, com inúmeras goteiras. A prova disto foi numa das audiências sobre a falada ponte do centro, onde a chuva (literalmente) interrompeu os trabalhos precários no local.

A primeira audiência pública sobre a Ponte do Centro, interrompida pela chuva que virou goteiras no Auditório Carlos Jardim, da Fundação Cultural. Problemas estruturais no espaço revelados da pior forma (Jandyr Nascimento/RBS)

Hoje, já há algum tempo, a Fundação Cultural ocupa todo o espaço, abrindo as portas do velho e combalido prédio (diga-se isso do lado mais antigo, nunca restaurado) para a arte e a iniciativa artística, musical, teatral, de dança e outros segmentos do mundo da cultura.

Bem localizada no centro da cidade, tendo junto de si a biblioteca, o Mausoleu, a Praça do Biergarten, o Museu da Cerveja e o Arquivo Histórico, o hoje prédio da Fundação Cultural é parada para muitos interessados no mundo da cultura e da história da cidade, bem como turistas que procuram elementos do passado blumenauense.

Mas enfim, chegamos a este ano, e a esta ideia cômica do nosso parlamento. Ainda tem quem defenda, como se a Fundação Cultural fosse culpada pelo estado do prédio, mas isso nem se deve dar o mínimo de ouvidos.

O que interessa aqui é que esta é uma ideia totalmente inaceitável. Fere sem justificativas o patrimônio histórico da cidade e a atividade cultural, tantas vezes jogada para escanteio como já foi nas reformas do Frohsinn. Não se pode conceber este tipo de ocupação em um prédio tombado e que, mesmo combalidamente, mantém as linhas arquitetônicas dos tempos de glória, sendo hoje servil aos artistas e agitadores culturais da nossa cidade.

Novo prédio da Câmara Municipal de Timbó, no bairro Das Nações. Mesmo uma construção demasiada para a cidade, um exemplo de que, nem sempre, o legislativo fica no centro de uma cidade (Reprodução)

Que sentido faz isso? Economia? E o terreno na 2 de setembro? Simplesmente joga-se para escanteio como a rodoviária?

Lamentavelmente se apega-se a ideia simples de usar o que há em mãos, o mais perto, o que não faça sair do Centro. Ora, aqui em Timbó, onde estou, a Câmara mudou-se para um prédio próprio localizado a uma distância, vamos dizer, considerável da prefeitura, no Nações. Fala-se que foi um exagero a estrutura para uma equipe tão enxuta como a do parlamento da Pérola. No entanto, apesar dos prós e contras dos edis, quem vai discordar que a sede tem espaço, fácil acesso e não consome aluguel.

E se não se pretende mesmo sair do centro de Blumenau, por que não o terreno do antigo prédio da Policlínica, na Rua 7? Ou a estrutura da Casa Royal, vivendo uma terrível decadência e carecendo ser salva? É tão difícil desapropriar? Olhar para os lados muito mais do que só a janela do gabinete?

Enfim, o Observatório Social de Blumenau já pediu uma avaliação do impacto financeiro, se vale despender tanto dinheiro para uma nova sede ou continuar, sob o ponto de vista dos gastos públicos, continuar pagando os quase R$ 40 mil em aluguel mensal pelo antigo prédio da Casa Carlos Koffke? Marcos da Rosa já dá garantias que o tema será debatido com a comunidade, embora nem deveria.

E para quem não sabe, apenas, o prédio da Câmara já é uma construção histórica: a antiga firma Carlos Koffke, tachado por alguns como o primeiro supermercado da cidade (Reprodução)

E é nessa hora, bem nesta, que os responsáveis pela cultura na cidade, os que tem algum pingo de razão e respeito pela história de Blumenau, devem bater o pé e apresentarem seus argumentos. Defenderem o único reduto cultural que, a custa de muita insistência, foi conseguida a reforma do telhado e a readequação do Auditório.

E isso não é só questão cultural, tem a ver com história! Uma mudança de estrutura vai, sem dúvida alguma, causar a descaracterização interna (e até externa, dependendo do caso) do prédio. Não é preciso ser arquiteto para tanto, uma reforma deste porte causa isso sem mais nem menos. E para uma construção que já sofreu tanto em mais de 140 anos, é uma reconfiguração desnecessária e criminosa.

E falar em restauração geral, para os padrões atuais, seria um palavrão, não é?

Bem, eu disse que não ia falar de política, mas ta ai o recado. Não me aguentei. E é bom que os senhores comecem a pensar melhor nas patacoadas que soltam no palanque (com todo respeito a alguns amigos da Câmara), especialmente esta, que é uma piada sem tamanho.

Câmara de Vereadores na antiga prefeitura, NÃO! E tenho dito.

2 comentários sobre “Câmara de Vereadores na antiga prefeitura? NÃO!

  1. André,
    O não já deveria ser para o local atual, uma vergonha 60 mil de augueis. Com tudo que já foram gastos com aluguéis e mobiliários dariam para fazer três novas prefeituras. Os nobres edis atuais deveriam fazer uma investigação da transferência catastrófica efetuada na Gestão do presidente Vanderlei de Oliveira e assinado por todos vereadores. Foi uma vergonha para nossa cidade, quem levou vantagem com isso tudo? E Blumenau é assim mesmo, nenhuma surpresa com essa ideia absurda de transferência para a antiga prefeitura de Blumenau, atual fundação Cultural, pensam que com apoio das Diretora do arquivo histórico da construção de um prédio moderno para ser o novo arquivo histórico, claro necessário, urgente e faz tempo, porém sem características germânicas é retroceder com a cultura do local que foi o primeiro centro da cidade Jardim?, nem tanto.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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