Andraus: Um sinistro esquecido nas imprudências

O gigante Edifício Andraus, no distrito da República, São Paulo. Cenário de uma das tragédias do fogo mais impressionantes do Brasil, numa tarde quente de 1972, que não foi tão mortífera, mas cujo exemplo foi fatalmente esquecido nos anos seguintes (Reprodução)

Em Londres, um edifício arde em chamas. 79 mortos e contando.

Em Portugal, a região de Leiria sofre com um grande incêndio florestal. Mais de 60 mortos.

Não é exclusividade de nenhum lugar do mundo a calamidade e morte que vem num incêndio. Tão ou mais incontrolado que uma catástrofe natural, como a avalanche, enchentes, enxurradas, o fogo é mortal, cruel, implacável. Deixa rastros, leva vidas, e o pior: por vezes, é causado pela imprudência do homem.

O Brasil sabe muito bem isto. Desde que se conhecemos por gente estamos cercados deste perigo que, sem aviso, pode levar vidas e bens num sopro. Exemplos não faltam, e um deles, por coincidência, completou 45 anos neste 2017. Foi na histórica Avenida São João, distrito da República, São Paulo, no distante 24 de fevereiro de 1972.

Recorte de jornal quando da construção do Andraus, em fins dos anos 50 (Reprodução)

Lá estava o gigante Edifício Andraus. Um titã de concreto armado e de linhas modernas, estendendo-se para o alto em 115 metros, alojando vários escritórios empresariais. Inaugurado em 1962, depois de cinco anos de construção, naquele 1972 estava ainda novo e jovem, sendo uma referencia na São João.

Entre seus escritórios e estabelecimentos estavam as repartições executivas das multinacionais Henkel (química) e Siemens (à época, telecomunicações). No térreo, havia uma filial das Casas Pirani, uma popular loja paulista de departamentos auto-denominada como a gigante de São Paulo. Sua localização no térreo do Andraus fez apelidar o prédio até hoje como o prédio da Pirani.

O letreiro da Casas Pirani, em meio as chamas. O curto-circuito naquele letreiro foi o estopim do incêndio (Folhapress)

Pois seria, justamente, na marquise acima da Casas Pirani que tudo teria início. Várias vezes alertados, os responsáveis pelo edifício ignoraram os apelos da fiscalização de posturas da prefeitura paulista sobre a alta carga de energia no prédio, ainda maior depois da instalação de um luminoso em neon da Pirani.

Eram 16h daquele dia 24, um dia quente e sem vento, quando um curto-circuito no luminoso da loja provocou a primeira fagulha. Logo, todos os 32 andares do Andraus ardiam em chamas. As labaredas subiam alto e chegaram a temperatura de quase mil graus. Uma calamidade sem precedentes.

Terraço do Edifício Andraus. O heliporto foi crucial para o resgate de tantas vidas (Reprodução)

Foi uma batalha em pleno centro paulistano. Enquanto os bombeiros lutavam por sete horas contra as chamas em escadas Magirus curtas, as equipes do PARA-SAR – Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento, da Força Aérea Brasileira – e outros proprietários e pilotos de helicóptero retiravam pessoas no heliporto localizado no topo do Andraus, num vai-e-vem constante de helicópteros.

Alias, foi o heliporto o fator determinante que salvou muitas pessoas da morte certa, cercadas por escadas de emergência tomadas pelo fogo. No saldo final, apenas 16 mortos e 330 feridos. Um alívio se considerar as imagens apavorantes do prédio em chamas, reduzido a um esqueleto calcinado.

Os restos do Andraus, na parte do terro, onde estava a Casas Pirani. O gerente-geral da loja foi condenado a prisão, o prefeito prometeu rever o código de obras. Tudo esquecido até 1974, quando o Edifício Joelma ardeu em chamas (Reprodução)

Naquela ocasião, uma frase do então prefeito paulista Figueiredo Ferraz chamou atenção: o brasileiro não acredita em incêndios, mas eles existem. Ao mesmo tempo, prometia a revisão do código de obras, datado de 1934 e um dos causadores da negligencia que levara o gerente geral da Casas Pirani, Nilson Cazzarini, a ser condenado a dois anos de prisão, com direito a sursis.

Nada adiantou. As palavras de Figueiredo Ferraz foram ao vento, populistas. Ao chegar fevereiro, dois anos depois, São Paulo se debatia contra outro incêndio mortal, o do Joelma, na Praça da Bandeira. Novamente, a imprudência de uma instalação criminosa causou um curto-circuito num aparelho de ar condicionado, e lá, outra vez, as chamas fizeram sua presença nefasta.

O saldo? Muito pior. Não havia água nas mangueiras, extintores regulares, saídas de emergência corretas, marquise para o resgate por helicóptero, equipamento para os bombeiros… não havia nada! Havia apenas outro incêndio ainda mais mortífero. Nunca o número de vitimas foi certeiro, oscilando entre 188 e 191 mortos, várias vezes mais do que os meros 16 vitimados do Andraus.

O gigante Andraus era para ser exemplo, foi esquecido, apagado por um discurso panfletário e somente lembrado diante das chamas do Joelma, apenas cinco quilômetros distante do cenário da primeira tragédia. Ambos sobreviveram e estão presentes no coração paulista, porém estigmatizados pelos sinistros e assombrações do passado.

Outros incêndios vieram, com muitas mortes mais. Fora o Gran-Circus e outros ocorridos antes do Andraus, vieram a Lojas Renner, o Grande Avenida, o Andorinha, a Vila Socó, a Kiss E o exemplo, outra vez, ficou perdido em palavras ao vento.

O brasileiro não acredita em incêndios, mas eles existem. Aqui ou no mundo inteiro, eles existem. E o Andraus é um dentre tantos exemplos que nos fazem lembrar que o fogo, segundo os bombeiros, acontece onde a prevenção falha.

Um comentário sobre “Andraus: Um sinistro esquecido nas imprudências

  1. André,
    Uma postagem para não esquecer que temos sempre trabalhar em conjunto na preservação, caso contrário se só alguns cuidarem pouco ou nada vai adiantar.
    Esse e outros incêndio que ocorre de vez em quando, parece que precisa ser lembrado para maior consciência dos cidadãos. Podes ter certeza existem algumas dezenas de edifícios irregulares em Blumenau, imagina em centros maiores.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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