Antigamente: O “rancho do mês” nos tempos do Carlos Koffke

Imponente na esquina da Rua XV com a Rua das Palmeiras, nem de longe lembra o atual prédio da Câmara de Vereadores. Na história, muitos consideram-no como o primeiro supermercado de Santa Catarina. Uma breve história da Casa Carlos Koffke e de sua presença marcante no comércio blumenauense (Reprodução)

Em junho último, a Câmara de Vereadores de Blumenau discutiu uma possível mudança de suas instalações do atual prédio para uma nova estrutura que seria construída atrás do que hoje é a Fundação Cultural, a antiga prefeitura para os que conhecem. A ideia, rechaçada por este blog, também foi criticada por muitos outros leitores e com razão, afinal, a velha casa da administração municipal, que pena há tempos por uma restauração decente e completa, fere o patrimônio histórico da cidade, já tombado e de uso necessário da classe artística da cidade.

No entanto, você que conhece Blumenau e, claro, sua história e lugares marcantes, se desviar o olhar da antiga prefeitura para a atual sede do parlamento vai saber que os vereadores estão exercendo suas funções em um prédio recheado de memórias do comércio da cidade. Ele não está lá desde ontem, são 74 anos marcando o ponto na área mais nobre da história da cidade. E para os antigos, ele sempre será o prédio da Casa Carlos Koffke, um armazém que foi além dos secos e molhados.

O empreendedor: Indaialense de nascimento, blumenauense de coração, Carlos Koffke construiu um modelo de negócio revolucionário para seu tempo (Blumenau em Cadernos)

Levando o nome do seu idealizador, Carlos Koffke, a grande loja nasceu em 1929. Era um simples armazém de secos e molhados tal como seus tantos pares que haviam por Blumenau afora. Natural de Indaial, nascido no Carijós, Carlos começou a vida no comércio em uma casa comercial em Timbó, em 1919. Foi militar por dois anos e, depois de uma sociedade em outra firma, seguiu carreira solo no empreendedorismo com a instalação de uma casa comercial no início da Rua XV, ao lado do Clube Nautico América.

Naquele primeiro local, posteriormente adquirido para a primeira instalação do Breitkopf, Kokke fez nome na cidade que o acolheu e o movimento era intenso todos os dias, recebendo não apenas os clientes comuns de todo o dia como também demais comerciantes de vários pontos do Vale, em busca de bons preços no atacado para seus pequenos armazéns.

A primeira instalação era alugada, e com o movimento aumentando era hora de ampliar os negócios. E foi o que fez algum tempo depois quando mudou-se para a Rua das Palmeiras (Av. Duque de Caxias), nas antigas instalações do Hotel Brasil. Não demorou muito para que aquele espaço também ficou pequeno para o movimento, o que obrigou Koffke a pensar num novo espaço, maior e bem mais confortável para os clientes. E ele viria, um magnífico prédio de dois andares inaugurado em 1943 e que seria um marco pioneiro no que, no Brasil, só viria para valer 10 anos depois: O supermercado.

Não é exageiro não, muitos referenciam a Casa Carlos Koffke como o primeiro supermercado de… Santa Catarina! E sem nenhuma brincadeira no argumento. A forma de venda dentro do estabelecimento misturava-se entre o clássico secos e molhados com o ainda desconhecido sistema pegue-e-pague, uma novidade para a época. E tudo isto 10 anos antes da iniciativa de Mario Wallace Simonsen com o Supermercado SirvaSe, em São Paulo, em 1953.

E para nossa alegria (e a alegria dos nostálgicos), a internet tem registrados dois arquivos da Casa Carlos Koffke em video! Um registro mágico de um grande comércio que ainda traz lembranças nos mais velhos blumenauenses da gema. Nas imagens, uma volta completa pela loja, mostrando a incrível variedade de produtos. Não eram apenas gêneros alimentícios e congeneres, mas outros tantos artigos, como louças, malhas, brinquedos, presentes e tantos outros, fora os detalhes do setor administrativo e da residência de Carlos, no último andar do prédio.

Como de costume, a produção do vídeo é do documentarista favorito dos históriadores e memorialistas do Vale, William Gerke:

Aqui, aproveito para contar uma história, vamos dizer, especial. Na minha carta de amigos preciosos que tenho pela vida, uma delas tem parte nesta história. A conheci em 2011, no início da faculdade de Publicidade (posteriormente, a de Jornalismo) no IBES Unisociesc e, de lá para cá, só não mantivemos mais contato por conta das nossas atividades profissionais: eu em Timbó, na Rádio Pagina 2, ela junto de seu cavaleiro de armadura brilhante, tocando firme os negócios no .Geek, e seria exagero dizer que, de alguma forma, ela guarda em algum lugar o tino empreendedor do bisavô: Srita. Fernanda Luiza Koffke.

E por que digo especial? Aos amigos, conto que meu avô, Godofredo Heiden, era dono do primeiro armazém que havia no bairro Progresso após a Artex. O movimento na casa de comércio de meu avô era intenso, até mesmo nos fins de semana quando os clientes chegavam a fazer os pedidos nas janelas da loja. E o pagamento, se não a vista, era anotado nos tradicionais cadernos de marcação, religiosamente pagos no dia de recebimento de salário.

Fernanda Koffke, junto de Fred Gonçalves, ainda nos primeiros e ousados) passos do .Geek. A história de empreendedorismo dos Koffke não parou por ai (Arquivo/JSC)

Doces tempos, é verdade. Mas a história de meu avô no comércio, felizmente, cruzou com a do Sr. Koffke. Recordando as histórias que o velho Godofredo contava, grande parte do que era vendido no armazém vinha das compras em atacado que ele fazia na casa de Carlos Koffke. Não sei exatamente qual era o nível de relacionamento entre os dois, embora meu avô contasse que ele e Koffke tinham boa proximidade, mas se Godofredo teve prosperidade nos negócios, uma parte certamente se deveu a Carlos e sua grande loja no Centro.

Os anos passaram, meu avô adoeceu e o velho Carlos já não estava mais entre nós. A casa comercial fechou em 1972, dando lugar a um hotel, uma confeitaria, a sede da Cetil Informática, a Secretaria de Saúde e, por fim, a Câmara de Vereadores, que lá está desde 2013. O Sr, Koffke, aposentado depois de anos de trabalho na loja, faleceu em 1975, aos 87 bem vividos anos. Eu e Fernanda já eramos amigos há dois anos quando a Câmara iniciou suas atividades no espaço da antiga loja, e como jornalista pesquisador, não pude hesitar em perguntar a jovem de madeixas ruivas sobre as suas ligações familiares que pareciam tão óbvias para com esta página histórica.

Dupla felicidade! Fora a amizade inesquecível, ela me contara que muito do que restou da antiga empresa do seu bisavô ainda está em poder da família e muito bem guardado. Além das longas conversas nas voltas para casa da faculdade, Fernanda trouxe a aula, certa feita, uma pequena amostra das relíquias da velha casa: Dois cartões comerciais datados dos anos 60 e um pequeno copo de cristal. Preciosos tesouros, embora as imagens colhidas na emoção do momento, tenham saído tremidas.

Uma boa notícia e um grande achado em meio a tantos esquecimentos da rica história de Blumenau. A quem se conta esta passagem nas instalações da Câmara é pego de sobressalto, num misto de desconhecimento e curiosidade sobre o passado do prédio do parlamento blumenauense. Por mais que lá aconteçam coisas que possam nos desagradar (coisas da política atual), ao menos em uma coisa o edifício da Câmara não desagrada: Na história guardada naquelas paredes de um pioneiro e de sua casa de comércio que até hoje permeia a mente dos nostálgicos, a Casa Carlos Koffke.

Um comentário sobre “Antigamente: O “rancho do mês” nos tempos do Carlos Koffke

  1. Andre,
    Essa casa comercial merecia essa bela postagem. Sempre foi imponente, majestosa e que como você cita sempre será lembrada como a Casa Carlos Koffke.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

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