Blu, 167: Canções pra celebrar Blumenau

O progresso mora aqui
Blumenau, és razão de viver
O teu nome tem história
Blumenau, nunca vou te esquecer

Foi há 17 anos que as linhas do amigo jornalista Marcio Volkmann eram transformadas em música pela batuta do arranjador Edson Luis da Silva, convertendo-se assim na canção máxima da cidade. Na poesia de três estrofes com estribilho, o retrato fiel da cidade desenhada pelo leito do rio e cercada de verde, com povo gentil e trabalhador tal como seu fundador, que veio dos lados longínquos da então Prússia com um sonho na cabeça, o mesmo das 17 pessoas que aportariam aqui em 1850.

Aquele 2 de setembro de 2000 foi na ponta dos pés. A chuva chegou a tarde e melou um pouco a programação, mas a data, apesar de acinzentada, foi marcante e colorida como sempre, com o desfile recheado de bandeirinhas, música das fanfarras e o sorriso das pessoas em celebração de outro aniversário, o sesquicentenário para ser mais exato.

Naquele ano, conhecíamos o nosso hino. Mas bem na verdade, a escrita de Volkmann era, enfim, a consolidação de uma musica oficial que outras três composições não conseguiram em – a época – 150 anos de cidade. Como já foi levantado em publicação do amigo de A BOINA Adalberto Day, Blumenau já teve outras três composições que tentaram o posto, porém sem nunca conquistar a preferencia popular que a letra atual conseguiu, apesar dos trancos e barrancos.

A letra do Hino do Centenário de Blumenau, composição de Eduardo Mario Tavares e música de Aldo Krieger. Rebuscado e massante com três estrofes (Adalberto Day)

A primeira surgiu ainda em 1950, pelas mãos da dupla de letrista/musico Eduardo Mário Tavares e Aldo Krieger, em virtude da comemoração do centenário da cidade. A letra – extensa, rebuscada e de estilo um tanto romântico – tinha lá sua beleza, porém não tinha simpatia do grande público. Consta-se também que, à época, havia uma espécie de “boicote” à sua execução, por um motivo pouco compreensível.

Ainda o que registra Beto Day, em um trecho da reportagem do jornalista Osias Guimarães na revista O Vale do Itajaí, de novembro de 1950, uma nota chama a atenção sobre o hino: A escolha do Hino do Centenário teve lugar depois de um julgamento severo, por uma comissão de valor, dirigida pelo espírito culto de Frei Ernesto Emmendoerfer. Estranhou-se, por isso mesmo, que ele não tivesse se tornado popular.Qual seria a razão? No préstito histórico, somente as meninas do Colégio Sagrada Família, em um dos carros, cantavam o referido hino. Ficaria tão bonito e seria de justiça que a banda do batalhão iniciasse o desfile, tocando o hino do centenário de Blumenau

Seja qual for o mistério, ele impediu que a canção de Tavares e Krieger fosse refinada e transformada em hino oficial. A letra, felizmente, sobreviveu:

Há cem anos, por estas paragens,
– Terras férteis, imensas, sem dono –
Brava tribo de rudes selvagens
Viu surgir o primeiro colono
O machado clareiras abria,
Tombam selvas e, qual desafio,
A pequena colônia surgia
Debruçada nas margens do rio.

(Estribilho)
//:Celebremos o audaz pioneiro,
Sonhador, de visão temerária,
Que de um virgem sertão brasileiro
Fez surgir Blumenau centenária.://

A colônia evolui: campo em fora
As espigas se inclinam doiradas;
Brotam flores aos beijos da aurora,
Cantam aves nas invias quebradas;
Pelos vales, um sol luminoso
Medra o fruto, fecunda a semente,
E, irrigando as campinas, moroso
Passa o rio ondeando contente.

Blumenau! Blumenau! Tuas fontes
Contam lendas de heróis europeus;
E ressoam, gemendo, nos montes
As canções brasileiras do adeus.
Em teu seio a riqueza se expande,
Ó rincão meu formoso e gentil,
E o progresso tornou-te tão grande
Que és o orgulho do nosso Brasil!

O ex-prefeito e historiador José Ferreira da Silva. Ele também tentou, mas Cidade-Palácio, mesmo simples, não emplacou (Adalberto Day)

Ainda pelos anos 50, outra canção tentou comprar o posto como hino da cidade. Esta nasceu em 1958, das mãos do historiador e patrono do Arquivo Histórico de Blumenau, José Ferreira da Silva, com o pomposo nome de Cidade-Palácio. O arranjo musical ficou por conta do musico paranaense Francisco Corrêa e a canção, como afirmava a publicação da letra na edição de agosto daquele ano do Blumenau em Cadernos, era julgada pelos entendidos como uma composição de fácil interpretação, mesmo pelas crianças das escolas.

Apesar de dita fácil, a canção também não caiu no gosto popular e praticamente foi esquecida, restando apenas a sua menção naquele número do Blumenau em Cadernos. E não era, realmente, uma letra difícil. Veja:

Blumenau, ó cidade-palácio
Moradia de um povo feliz
A cultura que ostentas pujante
Enaltece este grande país

(Estribilho)
Cantanto as tuas belezas
Tua gente varonil
Na virtude, no trabalho
É orgulho do Brasil

Os colonos que um dia te ergueram
Foram sábios, velaram por ti
Te cobriram de flôres, de glórias
Linda pérola do Itajaí

O autor da canção definitiva: Marcio Volkmann não precisou de muitas horas para construir a letra que, apesar dos bons pontos positivos, também foi alvo de críticas (Arquivo Pessoal)

E ficou por isto. Ainda em 1980, outra letra foi apresentada com composição de Margarida Scheltzke e musica do compositor alemão Paul Einhorn. A menção a sua execução está no livro Acib Blumenau: 90 anos de Memória, mas ficou por isto mesmo e nem a letra desta outra canção ficou conhecida. Assim, outros 20 anos passaram até que, depois de um concurso, Volkmann desse vida a canção definitiva.

O hino nasceu e, com ele (como de praxe na cidade), vieram as polêmicas. Discussões sobre a letra, sobre a utilidade, sobre a necessidade, sobre tudo e mais um pouco. Uma delas teve a ver com a frase Blumenau, nunca vou te esquecer que, segundo a interpretação de alguns, falava de alguém distante da cidade e não de quem está aqui vivendo o dia-a-dia. Houve quem quisesse uma mudança pela esdruxula frase Sempre vou te enaltecer, mas parou por ai, felizmente.

Na ocasião, Volkmann contou detalhes sobre a música e não escondeu a alegria de ter sido honrado com algo que, agora, esta escrito na história da cidade. É muito fácil e gratificante escrever sobre algo ou alguém que realmente amamos. Compus a letra do Hino de Blumenau em algumas horas, buscando retratar da melhor forma tudo aquilo que faz da nossa cidade um lugar diferente, que orgulha a quem, aqui nasceu ou aqui vive. A unica mudança maior foi no arranjo musical, que passou da marchinha quase comercial para uma composição marcial, depois do trabalho de execução pela banda do 23º BI.

Mas o tempo passou, a canção de Marcio é a letra oficial e muitos na cidade a cantarolam ou a usam em mensagens para a cidade em qualquer tempo do ano. Mas Volkmann não foi o único iluminado a falar de Blumenau em versos, nem tampouco o hino foi a única musica que arrancou orgulho e reflexão sobre a cidade-jardim que vivemos. E por isso (e porque, claro, estamos no dia 2 de setembro), A BOINA vasculhou os arquivos musicais e trouxe algumas das composições, vamos dizer, mais populares da parada municipal.

E vale tudo, de germânico a MPB e futebol, tudo vale. Veja só:

Hey Blumenau: Para quem se recorda, a canção era tema de abertura do programa Canta Blumenau, apresentado por Nico Herkenhoff na TV Galega. No entanto, a composição original de Marco Antônio Cornetet e do teuto-blumenauense Michael Lochner ganhou uma roupagem mais refinada e um tanto ufanista nas mãos da antiga RBS (hoje NSC), em um clipe de 2010. No entanto, não caiu tanto no gosto popular como se esperava:

Blumenau: Um Só Coração: Com um toque mais sensível, o super Luiz Vincentini, um dos maiores expoentes musicais da cidade, tratou do assunto num toque que mescla um pouco o Folk a MPB, e o resultado foi uma bela poesia musica, que ilustrou o documentário A História de Um Empreendedor, produzido pela Pacto Vídeo. A bela voz feminina é de Nana Toledo.

Em Blumenau, De Novo, Aqui: Esta canção é um mistério dos bons. Foi executada como fundo da mensagem intitulada E Agora, Blumenau?, lida por Marcos Jana na Rádio Menina, após os eventos climáticos de 2008. Este áudio veio como cortesia da própria Menina FM, que me cedeu sem maiores dificuldades. A voz, nitidamente, é inigualavelmente de Michael Lochner, o bom teuto-blumenauense que naqueles idos ainda emprestava seu talento ao vocal da Banda Cavalinho. O nome real da música é mistério, mas a letra é fantástica:

 

Hallo Blumenau: Seria um crime inafiançável ignorar esta melodia. Obra do coração de Helmuth Hogl quando de sua passagem pela cidade em 1987, durante a 4ª Oktoberfest. A canção tem menos de dois minutos, mas não é preciso nem entender tanto de alemão para fazer os versos colarem na ponta da linguá, transformando-a numa espécie de segundo hino da cidade e, naturalmente, no hino oficial da festa mais alemã das Américas:

Centopéia do Chopp (Hino da Centopéia): Blumenau e Oktoberfest vivem um casamento bem casado desde 1983, com as bençãos de Dalto dos Reis, Antônio Pedro Nunes e demais responsáveis. E de anos para cá, além do som maior de Helmith Hogl, outras várias canções cantaram símbolos da festa maior das de outubro no estado. Um delas, nem é preciso força para lembrar o refrão. É a ode ao brinquedo mais tradicional dos desfiles e da coleção maluca de Nerino Furlán: A centopeia do chopp. E a voz? O inigualável falsete chucrute de Rogério França acompanhado dos comandados da Vox 3. Hino sagrado dos desfiles:

Saudades da Típica Blumenau: No rol das valsas germânicas ate o talo, o tempo áureo da Banda Cavalinho Branco (antes da era Cavalinho) trouxe composições suaves, melodiosas e ricas no instrumental. E uma valsa em especial, bem desconhecida do grande público, desperta uma certa dose de nostalgia da cidade de onde nascemos, crescemos e vivemos. Especialmente para quem vive longe dela, isto se considerar o simples título:

Alles Blau In Blumenau: Mais uma valsa dos bons tempos com a inspiração e título ligados em Blumenau. Esta é composição original d’Os Montanari, do Volume V, lançado em 1972 no selo Chantecler. A banda, que ainda tinha Oswaldo Montanari na formação, gozava de popularidade imensa nos bailes do chopp na cidade e era arroz de festa em vários eventos na região. E detalhe: a canção foi composta cinco anos antes da banda se mudar definitivamente de base, vindos da simpática Concórdia, no oeste do estado:

Hino do Blumenau Esporte Clube: É notável que futebol e a cidade-jardim tem lá suas histórias fabulosas mesmo em meio as dificuldades de se praticar o nobre esporte bretão em nossas terras. Mas, enquanto busca-se a vitória nas quatro linhas, canta-se os hinos na arquibancada a plena garganta. E um deles voltou a moda este ano (e para ficar): o clássico som do Blumenau Esporte Clube (BEC), atual campeão da terceirona catarinense, cuja letra nasceu ainda nos áureos tempos dos anos 80:

É bem provável que eu tenha esquecido alguma, ou outras sugestões de canções sobre a cidade (ou relacionadas a cidade) ficaram para trás. Mas qualquer adição será bem-vinda. Você pode deixar as sugestões no facebook.com/blogaboina ou no blogaboina@gmail.com sem problemas.

Enquanto isso, na mocidade dos seus 167 anos, vamos cantando Blumenau. E opções não faltam!

Um comentário sobre “Blu, 167: Canções pra celebrar Blumenau

  1. André,
    Bela postagem homenageando nossa Blumenau 167 anos e nossa gente. Neste ano de 2000 lá estava eu pela rua XV apresentando um pouco de nossa história do Garcia, Amazonas e outros, isso vai ficar na história. A letra e música do Márcio (meu amigo e pessoa boníssima) e o Edson, de nosso atual hino de Blumenau. Sempre é bom lembrar que nossa cidade teve uma pré história mais de 8 mil anos atrás com os indígenas e a partir dos anos 1830 em diante com o chamado homem “Branco”. Quando dr. Blumenau por aqui aportou pela primeira vez em 1848, encontrou muita gente, uma povoação, ele fez os registros e concessão das terras junto ao Imperador Pedro II. Então vai dar inicio a maior colônia alemã do Brasil. Bom lembrar que a data considerada de fundação de Blumenau colocada por dr. Blumenau era 28 de agosto de 1852 e assim permaneceu até 1899. Em 2000 a câmara de vereadores muda para 02 de setembro de 1850 com a vinda dos 17 primeiros imigrantes. Porém essa data, os 17 imigrantes chegaram a Desterro atual Florianópolis, e a Blumenau posteriormente. Também não chegaram como muitos pensam com o vapor Blumenau que eles nem conheceram pois é de 1895 …. e assim outros dados podendo ser conferidos em http://www.adalbertoday.blogspot.com . Nada disso desmerece essa data, ao contrário acho que essa é a oficial a partir de dr. Blumenau que forma uma colônia “brasileira” de pessoas vindas da Alemanha.
    Parabéns Blumenau pelos 167 anos.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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