Irlanda do Norte, Escócia, Gibraltar… e o pesadelo do Brexit

No mapa, uma situação complicada para se conviver para Theresa May: O Reino dividido depois da consulta do Brexit, com o amarelo sendo os que defendem a permanecer na UE. Não sou norte-irlandeses e escoceses como também os gibraltinos não desejam sair do bloco econômico, como a metrópole e Gales querem. E agora, como resolver? (Reprodução)

A primeira vista, é muito fácil olhar o Brexit no contexto econômico da Europa. O Reino Unido votou, escolheu a saída e, como tem sido visto, vão sair da União Européia. Foi escolha da maioria dos britânicos, sendo esta maioria a mais ansiosa para largar o bloco e pensar com a própria cabeça depois de tempos.

Mas o Brexit não resume-se apenas a Inglaterra e ao País de Gales, praticamente colado nos ingleses. Dois problemas espinhosos ainda podem afligir o governo de Theresa May nos próximos meses: a posição de dois dos quatro países membros da união, a Irlanda do Norte e a Escócia, e da península de Gibraltar, com relação a saída do bloco comercial. E pelo que se vê de principio, mesmo um tanto ignorado pela imprensa brasileira no exterior, o problema é bem mais complexo do que se pensa.

Os dados publicados pelo jornal britânico The Telegraph não deixam dúvidas: o Reino Unido dividiu-se no Brexit. Ingleses e galeses votaram em massa pela saída do bloco, mas os pares escoceses e norte-irlandeses não estão tão afim disto. E os números não demonstraram nenhum aperto, foram margens um tanto folgadas, um número grande de regiões que disseram não a saída da UE e que dependem do bloco econômico para continuarem com relativa força econômica nas suas balanças comerciais.

Na Escócia, é apenas mais um motivo para buscar a independência, mesmo com a chance perdida em 2014. O país-satélite da união não vê outro futuro senão dentro da UE (Reprodução)

Em Edimburgo, a aprovação da saída foi vista como um tapa na cara para grande parte dos escoceses. Mesmo que o resultado do último referendo sobre a independência do país em 2014 tenha mantido a permanência na união por pequena margem (55% contra 44% a favor da independência), a Escócia é o estado-satélite mais forte do Reino Unido depois da Inglaterra, tem uma identidade própria e não esperava um golpe deste tamanho vindo com o Brexit. Isto porque a saída da UE é uma quebra com relação ao que a própria Inglaterra prometera sobre sua participação no bloco europeu, falando em uma ativa presença.

Pois bem, a primeira-ministra Nicola Strugeon não esqueceu do que prometeram seus primos e já fala em nova consulta pela independência escocesa. A Escócia vê o seu futuro como parte da UE. A Escócia votou de forma clara e decisiva para permanecer como parte da União Europeia, 62 contra 38 por cento, lembrou. O novo referendo deve ser realizado entre 2018 e 2020 e, com o Brexit, a primeira-ministra, seu antecessor Alex Salmond e seus correligionários mais próximos devem ter bala na agulha para voltar a sonhar com aquilo que há tempos perseguem: a independência do país.

A independência: Sonho da primeira-ministra Nicola Strugeon, e que agora ganha munição pesada para um novo referendo (Reprodução)

Falando em sonhos, quem sorriu com o resultado complicado do referendo foram os temerosos inimigos ocultos dos conservadores britânicos: o Sinn Féin. O partido político que, por anos, era considerado por eles o braço armado do IRA – Exercito Republicano Irlandês, considerado grupo terrorista – atua firme na política atual britânica e a notícia da aprovação do Brexit soou como um alerta aos vizinhos do norte. Afinal, a dependência econômica e política da Irlanda do Norte com relação a UE é sumária e uma saída do bloco pode trazer problemas.

Desde os tempos sangrentos dos conflitos em Belfast, Londonderry/Derry e outras cidades norte-irlandesas, cruzar fronteiras e relacionar-se com os vizinhos só ficou mais fácil depois da entrada no mercado comum, onde estão desde 1973 e onde vem se aproximando lenta e gradualmente desde a assinatura do Acordo de Belfast, em 1998. Na UE, as duas Irlandas tem a sua única ligação política e econômica, bem fortalecida por sinal, o que é um avanço incrível se voltarmos há algum tempo no passado dos dois lados.

Entrada na Irlanda do Norte. A saída do bloco econômico não causa temerosidade por conta da perda da fronteira livre. Os temores dos norte-irlandeses vão bem além e se referem a traumas passados (Reprodução)

Nunca foi fácil controlar a fronteira sensível entre as duas Irlandas e a livre circulação proporcionada pela UE facilitou um pouco as coisas nos dois lados. O retrocesso a uma fronteira rígida não traz apenas complicações aduaneiras, é apenas a ponta do iceberg irlandês. O nó psicológico é um destes complicadores. Teme-se pela volta dos controles de fronteira, do contrabando e de uma renovação da violência entre extremistas republicanos irlandeses remanescentes das antigas fileiras dos grupos rebeldes.

O presidente da Câmara de Comércio de Londonderry/Derry, George Fleming, se preocupa. Em entrevista ao New York Times, ele foi categórico quando a volta de uma limitação fronteiriça entre os dois países: restabelecer a fronteira é como reerguer o muro de Berlim, diz. Ele não está tão errado, afinal a cidade onde é o responsável pelas atividades e relações comerciais é colada na fronteira com a Irlanda, é de maioria católica e celebra o renascimento depois de anos de tensões, violência e embates.

Estatua da reconciliação em Londonderry/Derry. A perda da livre passagem com a Irlanda é vista como um retrocesso sem precedentes, que vai na contra-mão do que ambos os lados demoraram tanto para conquistar. A história tem que continuar sendo história (Reprodução).

Apesar das tentativas de conforto vindas de Theresa May, os norte-irlandeses não se sentem seguros e a preocupação ronda o ar daquela que já foi o foco maior das batalhas campais entre católicos e protestantes. Esta cidade, como o país, é como uma mulher que deu à luz. Todo o trauma, a dor e os combates terminaram. A época do Troubles acabou – fomos do preto e branco para o colorido, afirma para o New York Times o historiador amador e guia turístico de Londonderry/Derry, Gerry Lynn, que conclui: “A história tem que continuar sendo história. Tem que ficar no passado.”

Mas há problemas que, mesmo pequenos, podem ser fator de racha em relações internacionais jamais vistas advindas com o Brexit. Localizado numa ponta na Península Ibérica, Gibraltar é uma antiga possessão que desde 1713 está sob o domínio da coroa britânica. Durante os anos, a Espanha veladamente (ou não, em momentos) reclamou a soberania da região ultramarina, responsável por empregar muitos espanhóis nas empresas locais.

A península de Gibraltar, que para muitos espanhóis foi a salvação nos tempos de desemprego, agora pode ver a delicada fronteira com a Espanha ser fechada pelo Brexit (Reprodução)

A próspera atividade econômica intensa na península, movida pelos serviços econômicos e comerciais, foi o que salvou a vida financeira de muitos espanhóis que, antes, estavam combalidos pelo desemprego massivo que assolava a Espanha. No entanto, o Brexit veio como o efeito de uma bomba para Gibraltar: se as fronteiras forem restritas, será ainda mais difícil empregar e garantir passagem para quem já trabalha por lá. Na consulta sobre o Brexit, os gibraltinos foram categóricos: 96% não aprovaram a saída da UE.

Para o prestigiado jornal francês Le Monde, os efeitos do Brexit sob Gibraltar soam como a primeira consequência nefasta da medida. A Espanha, por tempos calada, já começou a dar indiretas quanto as reclamações de soberania na península. E para a irritação dos britânicos, a UE ofereceu em março poder de veto a qualquer decisão sobre a futura relação entre Gibraltar e o bloco econômico quando foi concluído o Brexit.

Desde 1713, a possessão de Gibraltar é dos britânicos. Agora, com a saída da UE, a Espanha procura negociações e até indiretas sobre os espanhóis no território. Não será surpreendente se a soberania ser questionada em algum momento (Reprodução)

A decisão da UE é algo que preocupa o ministro da península, Fabian Picardo, em entrevista ao jornal O Globo: Isso é uma tentativa vergonhosa da Espanha de manipular o Conselho Europeu para seus próprios interesses políticos (…) O Brexit já é por si só complicado e a Espanha pode tentar complicá-lo ainda mais. O mundo inteiro e a União Europeia devem saber que isso não muda nada nossa continuada e exclusiva soberania britânica, disse.

O temor britânico é que a Espanha lance mão da soberania de Gibraltar apoiando-se, especialmente, na situação de terem espanhóis que dependem da atividade comercial na península para sobreviver. São cerca de 10 mil trabalhadores vindos da Espanha que movem a roda econômica do território e o que dá motivo contundente para Mariano Rajoy e seus assessores a ficar de olho na situação. Isto contando que uma parte da argumentação já está na mão espanhola, para alerta dos britânicos. É uma decisão que nos satisfaz, afirma para O Globo o porta-voz do governo espanhol, Íñigo Méndez de Vigo.

A premiê britânica Theresa May, defensora do Brexit. Estará ela preparada para os futuros problemas diplomáticos e separatistas do Reino Unido? (Reprodução)

Se Theresa May achava fácil conduzir o processo por suas próprias pernas, tentando compor com as articulações da UE, deve ela saber que a tarefa pode ser mais difícil do que se parece. Não são apenas três casos em que a diplomacia resolve tudo, mas sim três problemas enormes que a aplicação quase que unilateral do processo podem acabar trazendo. Separação, temores da volta de tensões e uma inesperada crise internacional. O governo britânico segue o processo e as negociações e as conclusões ainda devem demorar um pouco mais, especialmente a mostrar os próximos contornos.

Riscos calculados? Ninguém sabe se Theresa os calculou. Mas se não o fez, preve-se grandes complicações para os britânicos na sua tentativa de deixar o bonde estrelado da Europa. Aguardemos.

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