Kim Jong-Un: O “poeta do absurdo” e seus misseis atacam novamente

O que Kim Jong-Un quer agora? O temido e gordinho ditador norte-coreano voltou a carga com suas novas ameaças em testes de misseis e bombas. Outra vez, o mundo vive na tensão de uma guerra na península da Coréia (KCNA)

Para um ditador,  Kim Jong-Un é um bom poeta…

Não, não estou elogiando-o. Na verdade, se não for poeta seria com certeza um verdadeiro embromador. Na sua rotina de quase 65 anos depois do armistício, a Coreia do Norte aprendeu a viver na lei da chantagem: Jogar a ameaça no ar para tentar alguma coisa da comunidade internacional.

E já faz tempo que a tática, que Jong-Un aprendeu muito bem com o pai e o avô, não cola mais. Recentemente, as tensões de Pyongyang com os vizinhos subiram ao nível do insuportável. A ONU reagiu com energia e aplicou mais uma cacetada de sanções ao país. Um clássico!

A lista nova traz embargo progressivo na exportação de petróleo e a manutenção no embargo do gás, congelamento dos bens do líder norte-coreano fora do país, fora tudo mais o que já foi aplicado a nação mais fechada do muito, e que mesmo sem ter como se fechar mais, continua se fechando. Dizem os entendidos das cadeiras das Nações Unidas, entre um gole e outro de café, que as novas sanções devem acalmar os norte-coreanos. Mas parece que o anestésico não está mais fazendo efeito.

Jong-Un e comitiva inspecionam uma bomba nuclear. Os testes continuam e a apreensão do mundo nunca foi tamanha como agora (KCNA)

Os recentes testes com misseis balísticos (e agora até uma bomba de hidrogênio, pelo que o país afirma) continuam intensos e o último chegou a dar vento nos cabelos dos japoneses, que receberam chocados a notícia que um míssil sobrevoou a ilha de Hokkaido e caiu no Oceano Pacífico. O premiê Shinzo Abe, sempre calmo e sereno, voltou apressadamente da Índia, onde estava em visita, e o governo nipônico pediu cuidado a população, como de praxe numa ameaça deste tamanho.

E em meio a crise e com os vizinhos se descabelando outra vez ante as ameaças, Jong-Un voltou a fazer o que sabe fazer de melhor: poetizar em forma de chantagens. Alias, coisa clássica no vocabulário dos tiranos, vide gente do naipe de Hitler, Ceaucescu, Stalin e por ai vai.

Uma panoramica de parte da ilha de Hokkaido, no Japão. Por cima deste local, passou perigosamente um míssil da Coreia do Norte, colocando em alerta o país inteiro e enervando o quase sempre calmo premiê Shinzo Abe (Reprodução)

E as injustiças poéticas estão cada vez mais incisivas, afirmou o Japão deveria ser mergulhado no mar pela bomba nuclear” disse que vai reduzir os EUA a cinzas e fazer os yankees passarem pelo maior dos sofrimentos. Frases tradicionais de um ditador que mais são uma mistura de discurso de ódio a nação com post revoltado no Facebook.

Nem mesmo o Peru, nosso vizinho de continente, escapou das frases de efeito. Na expulsão do embaixador norte-coreano, a nota de Pyongyang disse que os herdeiros dos Incas estão jogando gasolina no fogo. É inapropriado manter relações com esse país, afirmou o ministro de relações exteriores peruano Ricardo Luna. Por enquanto, o México escapou dos respingos ácidos depois de fazer a mesma coisa com o embaixador norte-coreano no seu país, seguindo a filosofia do vizinho americano.

O embaixador norte-coreano em Lima, Kim Hak-Chol, agora persona no grata no Peru. Sobrou versos poéticos até para os herdeiros dos incas (Reprodução/AFP)

E enquanto Kim poetiza, a ONU discute, conversa e tenta chegar num meio-termo. A grande parte dos países ocidentais rejeita veementemente e apoia os EUA com relação as sanções propostas. Quem destoa do discurso são, naturalmente, os mais próximos que Pyongyang tem do seu convívio: Rússia e China. Se não fosse por eles, o regime afundava. Afinal, os norte-coreanos dependem de ambos para praticamente tudo, até para dizer que não são totalmente isolados.

Especialmente falando dos chineses, antigos aliados da Coreia do Norte, a parceria continua mas não com a mesma vitalidade de antes. Apesar da paciência ser uma virtude dos asiáticos, a de Pequim está começando a secar. E não é preciso exagerar, basta apenas dizer que, enquanto o premiê Xi Jinping dava seu discurso na reunião dos Brics o regime de Jong-Un testava a mais potente bomba até então construída por eles, e que afirma de pés juntos ser uma bomba de hidrogênio.

Coincidência provocativa com os aliados? No mesmo dia da abertura do encontro dos Brics na China, um míssil decola em teste na Coreia do Norte. A paciência de Xi Jinping está no fim, mas os chineses tem seus motivos para manter uma espécie de boa vizinhança com Pyongyang (KCNA)

Há algum tempo, a lua-de-mel entre os dois países não é mais um casamento feliz. Os chineses tem interesses comerciais que vão além de alianças históricas e a prova disso foi o apoio do país as sanções contra os vizinhos, o que soa como provocação inesperada ao mimado mandatário norte-coreano. No entanto, a oposição chinesa é branda e ainda busca, mesmo que quase impossivelmente, uma forma de conversa.

E o motivo é bem simples, aquele que atormenta Jinping e seus antecessores todas as noites: Um colapso do regime norte-coreano poderia abrir precedente para uma reunificação da Coreia. O sul, apoiado e muito pelos EUA, aumentaria ainda mais sua força econômica e, o que é pior, permitiria que os americanos chegassem bem pertinho da divisa com a China, o que causa urticarias veladas nos comunistas do politburo chinês.

Xi Jinping e seus antecessores tem motivos para manterem os norte-coreanos como aliados: Nada de americanos na fronteira com a China (Reprodução)

Neste aspecto, gostaríamos todos de ter a mesma paciência de Jinping, que junto dos seus correligionários não deve estar passando bem de calma com o vizinho enraivecido. Mas bem na contra-mão deste caminho chinês está o magnata cabeludo Donald Trump e os EUA, que não toleram mais as poesias romântico-marxistas de Jong-Un.

Desde que chegou ao poder, o tiroteio entre Trump e Kim se intensificou de tal forma que, desde 1953, nunca estivemos tão perto de ver o armísticio de Panmunjom ser transformado em folha de rascunho. As farpas são constantes, as sanções também, e tudo combinado entre o american way of life extremo de Trump e o ódio onipresente incontido de Kim e seus comandados coloca o mundo próximo de acionar o botão de emergência.

E Trump e seus homens da segurança nacional estão com a tolerância colada no zero. O magnata garante que não tem duvidas que suas ações podem ser eficazes e esmagadoras. O que segue o discurso da embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, que corrobora: eles estão implorando por uma guerra.

Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU (a direita na mesa), sintetizou aquilo que deve ser o pensamento de Trump com tantas chantagens: Jong-Un está pedindo, implorando por uma guerra (AFP)

Na Alemanha, onde o fervor das eleições correm, as tensões norte-coreanas também foram o tema do debate pela TV de Angela Merkel e Martin Schultz. A atual chanceler quer buscar o convencimento de Trump de que a defesa continua sendo o diálogo e não o ataque. Mas Schultz, ex-presidente do parlamento europeu e candidato pelo SPD (Social-Democratas), rechaça. Ele (Trump) não é a pessoa certa para resolver o problema. E lamento concordar com Herr. Schultz, mas não é mesmo.

Mas, por surpresa minha e de mais alguns que acompanham a política internacional, quem está no ponto de ebulição é o presidente da vizinha Coréia do Sul, o liberal Moon Jae-In, que durante a campanha presidencial do ano passado prometeu buscar o diálogo com Jong-Un, já que na base da conversa tudo costuma-se resolver, como bem sabemos.

Mas não. Nenhum sul-coreano tem sangue de barata, e muito menos o presidente. Jae-In, que enfrenta a difícil missão de fazer os concidadãos voltarem a acreditar no governo depois do impeachment de Park Geun-Hye, está próximo do limite da calma, mas mantém nas suas falas um tom comedido. Diz ser favorável ao desenvolvimento de suas forças militares mas não o desenvolvimento do poderio nuclear, o que segundo ele não manterá a paz na Península da Coreia e poderia levar a uma corrida armamentista no nordeste da Ásia.

No debate das eleições alemãs, Merkel busca convencer Trump que o confronto não é a solução. No entanto, Martin Schultz é categórico: Ele não é a pessoa certa para resolver o problema (Reprodução /RTP)

Paciência se esvaindo: Depois de pregar o diálogo, Moon Jae-In vai a carga, demonstra sua irritação com o vizinho e acredita piamente que Seul precisa melhorar ainda mais suas forças de defesa (Reprodução)

Mas aonde quer chegar, outra vez, Kim Jong-Un? Todo mundo bem sabe que, quando a Coréia do Norte começa a chantagear é porque alguma coisa está em falta por lá. Sempre foi assim e continua sendo, agora corroborada pelo jeito mimado e birrento do ditador em querer resolver tudo na base da ameaça. Tal como criança pequena esperneando pela falta do brinquedo.

As impressões que o regime tenta passar com seus massivos desfiles militares e cidadãos sorridentes e histéricos na presença do jovem líder não estão mais convencendo mais ninguém mundo afora. O país é horrivelmente atrasado em infraestrutura geral, a agricultura é precária e o grosso do investimento interno é voltado as forças armadas. A população, mantida em rígido controle do estado, só pode dizer sim ou sim senhor ao regime, que manda até nos penteados que usam diariamente.

Bem, estas coisas e outras tantas não são novidade para mais ninguém, e a ideia de uma reunificação dos dois países passa cada vez mais longe da ideia mundial. Cada um defende sua forma de unificação e, óbvio como água e óleo, nenhuma delas combina. O sonho é antigo, mas deveras impossível, vamos conver.

O poeta cercado dos admiradores: Imagens como esta são comuns vindas de Pyongyang, onde Kim Jong-Un é visto como o herdeiro dos libertadores da pátria. Pura ilusão construída pelo medo diante de um país atrasado, precário em infraestrutura básica e preso a doutrina de um ditador mimado (KCNA)

Não querendo ser pessimista ou algo assim, mas só uma solução bastaria para tanto, e parece a mais evidente no panorama de gente como Trump: Encarar de frente e ver até onde os norte-coreanos vão. Não é defender uma guerra que pode ter consequências catastróficas, mas os recentes resvalos parecem rumar para isto, sem ninguém afim de piscar primeiro.

No máximo, o que pode acontecer como de hábito é Jong-Un sossegar e a situação voltar a aparente tranquilidade de antes. A chantagem é o passatempo favorito do regime norte-coreano, bem como sua insanidade em desenterrar ódios passados em nome de um sonho utópico cultivado desde os tempos de Stalin: Unificar a península sob o julgo comunista, como fez o Vietnã depois de anos de sangue derramado.

Seja qual for a saída do novo momento de birra de Kim, que ao menos ela não seja a base do átomo. Enquanto isso, o poeta de Pyongyang procura novas palavras para instigar o ódio do mundo entre os seus e a si mesmo.

Afinal, como disse, como chefe de estado ele é um bom poeta… do absurdo, claro!

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