Hugh, o bon vivant intelectual para sempre

Bon vivant, intelectual do luxo, da liberdade sexual, dos questionamentos ácidos sobre o mundo. O mundo despediu-se na última semana da figura boemia de Hugh Hefner, responsável por criar um dos símbolos mais populares do estilo de vida ousado do mundo: a Playboy (Reprodução)

Poucos homens viveram como ele, e pensar como ele só mesmo ele. Americano de Chicago, filho de uma família rigidamente religiosa, ex-repórter no exercito dos EUA que, depois dos campos militares, atuou como redator na prestigiada revista masculina Esquire. Uma carreira interessante, não é?

Este era apenas o caminho primeiro que o eterno bon vivant Hugh Marston Hefner faria antes de pedir emprestado cerca de US$ 8 mil dólares para dar asas ao seu próprio empreendimento: uma revista masculina que fosse além, mais além do que realmente se ia naqueles idos conformistas do pós-guerra, onde os yankees gozavam da vitória mas não da vida vivida regradamente.

A primeira Playboy, trazendo na capa a monumental Marilyn Monroe. E pensar que até sua mãe contribuiu com a criação da revista (Reprodução)

Hefner, cujo olhar sempre representava o de um homem que sabia onde ir, pensar e desfrutar da vida, teve até a ajuda da mãe para este sonho. Ela contribuiu com US$ 1 mil, não por acreditar no negócio mas sim por acreditar no potencial do seu filho. Imagine você a reação da mamãe ao dar de olhos com o que o filho visionava no primeiro número da revista que criava: a foto descontraída da então simbolo sexual daqueles idos, a espetacular Marilyn Monroe.

Aquele reles repórter militar filho de uma família religiosa e sua revista ousada para aqueles tempos estava começando uma revolução. Hefner não era o conformista como o era a sociedade americana daqueles tempos. Por baixo dos panos do status quo existia o algo a mais que ninguém falava, mas pela qual a curiosidade chamava: comportamento sexual, estilo de vida, critica aos padrões e ao ambiente de época, o que realmente sacudia o mundo e que começou a sacudir começando por aquele exemplar com Monroe na capa, no distante 1953.

O nascimento da Playboy sacudiu pra valer. Pela primeira vez o jornalismo não traduzia notícias, mas um estilo de vida. Não sendo uma revista primordialmente de sexo como muito se pensa até hoje, mas sim uma revista de estilo de vida, na qual o sexo era um ingrediente importante, como dizia o próprio Hefner. A fórmula era explosiva e o primeiro exemplar sumiu das prateleiras num piscar de olhos.

Uma noite de trabalho corriqueira de Hefner (Reprodução)

Outros vieram, e por detrás das belas mulheres em poses sedutoras estava uma publicação sintonizada com o correr da sociedade. Muito além de ser o pequeno momento de pecado e descoberta de um adolescente, a Playboy de Hefner estava atenta nos movimentos do mundo: direitos civis, politicas liberais com relação as drogas, o direito ao aborto. Entrevistas ousadas com personalidades e temas espinhentos dos mais váriados segmentos abordados em textos inteligentes e incisivos, mas que soavam como um agradável papo num sofisticado bar, acompanhado de um bom drinque, claro.

Mas por trás dela estava o cérebro de Hefner. Visto como um quebrador das correntes do conformismo de um lado e um pervertido e inimigo das mulheres de outro. De revista, a Playboy passava a ser uma marca desejada, simbolo de um estilo de vida luxuoso, boêmio e que desfrutava de todo o momento ao máximo, navegando entre o burlesco e o inteligente. Cassinos, grife, programa de TV, o coelho estava por todo o lugar, sempre cercado das confidentes coelhinhas.

Onde estivesse, lá estavam as coelhinhas o rodeando. Hefner permitiu que a sociedade saísse do comodismo conservador e ousasse, matando a curiosidade sobre o sexo e seus elementos e indo além, questionando o mundo a volta e seus padrões. E a pompa de Hugh continuou a mesma, mesmo com os anos passando (abaixo) (Reprodução)

A mansão, palco de festas de arromba e algum trabalho ainda esta por lá, assim como estava Hugh nos dias em que tinha que exercer as funções. Sempre trajado com um pijama de seda, pitando um cachimbo e perdido entre textos e fotos monumentais para a próxima edição. Por um bom tempo era seu escritório de trabalho e diversão. E quando saia de casa sempre estava consigo uma legião de coelhinhas, que tornavam suas aparições marca registada na cultura pop.

Criador de controvérsias, simbolo do verdadeiro boêmio que tudo tinha e que não o desfrutava, Hugh Hefner aproveitou a vida o quanto pode até, na última quinta-feira, deixar a mansão para partir à outros planos. Aos 91 anos, ele falecia de causas naturais, não deixando herdeiros no testamento e apenas dando algum sorriso ao novo dono da mansão, o milionário Daren Metropoulos, que só podia se mudar para a casa quando Hefner morresse. E assim está.

Hugh Hefner ficou marcado como o homem que viveu tudo o que podia viver. Festa, sexo, riqueza, os prazeres da vida. Mas que traduziu tudo isto em uma marca e uma revista que foi capaz de mudar o mundo a sua volta, sendo sexy sem ser vulgar, inteligente sem ser sensacionalista, sofisticada sem ser complicada.

E assim se vai o eterno bon vivant, curtir o luxo de uma outra dimensão. Assim se foi o velho Hugh Hefner.

(STRINGER/AFP/Getty Images)

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