Gramming & Marbles (F1): Verstappen surpreende e fatura na despedida de Sepang

E eis que, senão quando, Max Verstappen esquece dos seus demônios. Corrida com autoridade, com manobra fabulosa em Hamilton e, felizmente, sem problemas no engenho TAG (Getty Images)

(André Bonomini & Douglas Sardo)

Quem é o piloto que não gosta de ter como presente de aniversário o doce sabor da vitória? Jean Alesi sabe bem disso desde 1995, quando faturou sua insólita vitória na categoria, nas curvas de Montreal, bem no dia de seu natalício. Essas coincidências felizes são raríssimas, contadas nos dedos até, mas acontecem no mundo da F1.

Só que neste caso, mesmo sendo um dia depois do níver, o tento valeu e muito especialmente num momento da temporada onde o acumulo de erros e abandonos estava colocando a crítica contra si. Este foi o momento de campeonato em que Max Verstappen entrou na pista de Sepang no último domingo, e com a qual saiu dela sorrindo levando consigo o troféu de vencedor do último GP da Malásia da história, já que a pista oriental está de despedida da categoria. Um tento inesperado numa corrida curiosa que teve de tudo, digna de um fim de festa em um dos salões mais recentes dos calendários da categoria.

Última largada de Sepang. Sem Raikkonen e com Max mostrando os dentes pra cima da Mercedes, a começar por Bottas (Getty Images)

Com o péssimo grid de Sebastian Vettel e Lewis Hamilton pronto para abocanhar a vitória, ninguém podia contar que a Red Bull podia aprontar numa pista extremamente favorável a Mercedes, ainda mais com os recentes abandonos de seus carros. E tudo parecia conspirar mesmo para o inglês. Além de Seb partindo de último ele sorriu ao ver a única esperança de Vettel ter uma corrida com chances ficar pelo caminho. Era o escudeiro Kimi Raikkonen se arrastando pela pista a caminho do grid com o motor sem potência, obrigando o finlandês a retirar-se antes mesmo da volta de apresentação.

Mas se você pensa que, na largada, a Mercedes garantiria o seu, engana-se. Na partida, Verstappen fez o que Valtteri Bottas não fez e largou muito bem, segurando o #2 da Mercedes com tudo o que tinha. Quatro voltas depois, quem piscou o olho já estava perdendo a manobra de Max sobre Lewis, jogando limpo por dentro e assumindo a ponta. Logo atrás, Daniel Ricciardo fazia a sua pra cima de Bottas, em uma briga dura contra o finlandês da flecha de prata. Duas manobras fabulosas em menos de 10 voltas.

Dali por diante, a corrida de Max tinha que ser medida, abrindo o possível e controlando o gasto do pneu, ao mesmo tempo que a Red Bull pedia aos santos, aos orixás e a quem viesse para que o propulsor TAG não deixasse-os na mão desta vez. Lá atrás, Vettel estava fazendo o seu, catando um atrás do outro em busca de pontos preciosos. Antes de 30 voltas, ele já estava colado também em Bottas, em busca do quarto lugar que só conquistaria na estratégia de pneus.

A salada não podia estar melhor durante a prova, com Verstappen no comando da situação com certa tranquilidade e escapando das bolas divididas, como os meteoritos sobre rodas Kevin Magnussen e Joylon Palmer, por volta da volta 39. Azares eram coisas que não estavam no script do pequeno holandês, livrando de 9 a 10 segundos de Hamilton. La atrás, Ricciardo tinha apenas a preocupação – grande por sinal – de segurar Vettel, alucinado em busca de um pódio precioso. Uma manobra certeira ao passar Fernando Alonso fez o cidadão de mil dentes sorrir enquanto Seb levantava as mãos ao céu, vamos lá, Alonso! Você já foi melhor do que isso!

Com alguns pegas isolados, a corrida seguiu em paz até a volta final, quando os enlouquecidos torcedores laranjas da Holanda voltaram a vibrar com Max, que venceu com autoridade, com Mercedes na pista e com domínio e consistência jamais vista na sua pilotagem, tão perturbada nas provas anteriores.

Mas, se você achava que acabou… eis que, senão quando, a câmera busca o carro de Vettel, chegado em quarto depois de uma grande corrida, arrastando-se em três rodas na volta de desaceleração. Um choque estranho com Lance Stroll na volta aos boxes, quase sem querer, arrebentou a Ferrari do alemão, que pode encrencar as coisas para a esquadra no Japão. Basta ver os danos e se a coisa chegou ao câmbio do bólido, pode ter mais perdas de posição vindo ai.

Que dia pra Ferrari esquecer! Sem mais.

Os 10 mais – Corrida:

1 – Max Verstappen (Red Bull-TAG)
2 – Lewis Hamilton (Mercedes)
3 – Daniel Ricciardo (Red Bull-TAG)
4 – Sebastian Vettel (Ferrari)
5 – Valtteri Bottas (Mercedes)
6 – Sergio Pérez (Force India-Mercedes)
7 – Stoffel Vandoorne (McLaren-Honda)
8 – Lance Stroll (Williams-Mercedes)
9 – Felipe Massa (Williams-Mercedes)
10 – Esteban Ocon (Force India-Mercedes)

Felicidade da Red Bull. Enfim uma corrida sem problemas e com uma atuação primorosa, graças as tão necessárias atualizações. Abaixo, o aperto de mão de Lewis a Max. O inglês sai de Sepang 34 pontos a frente de Seb (Getty Images)

Os 6 mais – Campeonato

1 – Lewis Hamilton (281)
2 – Sebastian Vettel (247)
3 – Valtteri Bottas (222)
4 – Daniel Ricciardo (177)
5 – Kimi Raikkonen (138)
6 – Max Versatppen (93)
11 – Felipe Massa (33)

MENINO DE MUZAMBINHO: Sebastian Vettel (Ferrari)

Foi uma escolha duríssima e oponentes com peso não faltaram. Primeiro, naturalmente, o vencedor da prova, Max Verstappen, com uma atuação de autoridade e frieza para desafiar o todo-poderoso Hamilton e escapar das bolas divididas. Depois, por mais surpreendente que seja, Stoffel Vandoorne. O belga da McLaren parece ter pego mesmo a mão do carro, chegou a estar em quinto na prova, e com autoridade cravou um sétimo lugar digno de louvor.

Mesmo com uma tarefa descomunal para deter Hamilton nas últimas etapas, Vettel vai mostrando a estrela que tem. Teve de fazer miladre para arrancar um ótimo quarto, que mesmo que não sirva de muito, ao menos significam pontos (Getty Images)

Mas, na pilotagem agressiva e necessária, Seb ainda mostrou que tem estrela. Sabia que a corrida era difícil, que ninguém ia facilitar a sua frente e que chegar na Mercedes seria uma tarefa quase impossível. Ainda conseguiu acabar a frente de Valtteri Bottas, muito apagado durante a prova, e mesmo que o quarto lugar não seja de grande valia para o momento, os pontos contam muito e a corrida do alemão também. Prova que Vettel não pretende vender o título tão fácil quanto se pensa.

Claro… se os azares recentes da Ferrari o largarem de mão, o que anda bem difícil.

Outro que merecia o galardão: Stoffel Vandoorne vai pegando mão do McLaren e, em Sepang, desempenhou melhor que Alonso. Sétimo lugar no final (Getty Images)

Adeus, Sepang!

Como bem dito, esta foi a despedida de Sepang da F1, por desinteresse dos administradores que não concordavam com os custos e como a categoria tem sido gerida (talvez com saudades da graça de Bernie Ecclestone). Seja como for, a Malásia permitiu algumas surpresas, como a de Max este ano e a de Giancarlo Fisichella, em 2006. E até mesmo corridas que transformaram-se em provas de botes, como foi em 2009, no dilúvio que se abateu antes da metade da prova.

A última turma a pisar em Sepang na F1. GP de 2017 foi a prova derradeira de uma história que viu de corridas empolgantes a provas de barco em meio a tempestades (Getty Images)

De 1999 até aqui foram 19 anos de provas, sendo a primeira vencida por Eddie Irvine, no disputado final da última temporada dos anos 90, quando o irlandês teve Michael Schumacher como escudeiro. Sebastian Vettel fica registrado maior vencedor (quatro corridas, 2010, 2011, 2013 e 2015), além de ser o dono da volta mais rápida da pista (1min30s 076).

Com tantos números positivos a favor da Ferrari na pista malaia, chega a surpreender como a equipe levou tantos azares na pista neste ano. Coisas da vida e de uma despedida, claro. Quanto a Sepang, se fará falta no futuro? Bem, só o tempo dirá. E tem gente que nem vai balançar os ombros de falta da pista malaia no calendário. Admito.

Rapidinhas:

Pierre Gasly na Toro Rosso. Troca tardia e fim da linha para o perturbado Kvyat. Na estreia do francês, uma corrida modesta (Getty Images)

– Estreia na Toro Rosso, talvez a pedra já cantada no ano passado nas confusões pós-troca de Daniil Kvyat. O russo, acabado e queimado para a categoria, teve sua vaga ocupada por Pierre Gasly, vindo da boa temporada que anda fazendo na Super Fórmula (antiga F-3000 japonesa). Na primeira corrida, apenas um modesto 14º posto e algum aprendizado.

– Na Williams, a mesma draga de sempre. E Massa, outra vez atrás de Stroll. O brasileiro esta cada vez vendo mais gente atrás dele na fila de pretendentes ao seu lugar na casa de Grove. Já eram Robert Kubica e Paul Di Resta e, agora, a fila conta também com Pascal Wehrlein, por conta da Mercedes. O que aguarda Felipe parece não ser nada promissor visto suas atuações apagadas, em parte pelo carro e em outra pela falta de pique em acompanhar a moçada.

Massa na berlinda: Ordem de equipe furada e pretendentes à sua vaga na Williams (Getty Images)

Pra Recordar: Largar, chegar e arrebentar (no sentido literal)

O quiproquó de Vettel na volta aos boxes, quando foi acertado (ou acertou, vai se saber) a Williams de Stroll, fez quase que instantaneamente dar um estalo na cabeça de vários fãs da categoria, como eu e você, quanto a lembrança de outra pancada no caminho de casa: Seb não venceu, é verdade, mas o caso de Vittorio Brambilla – o saudoso gorila de Monza – foi parecido e o italiano, no furor da vitória, nem fez sentir a panca com o lendário March laranja-Beta.

Foi na Áustria, em 1975, no encharcado cenário do também saudoso e rapidíssimo Osterreichring. No fim de semana da morte de Mark Captain Nice Donohue, a F1 se deparou com a vitória inesperada de Brambilla, que partiu de oitavo e foi nadando na chuva para conquistar uma das últimas vitórias da equipe de Max Mosley e amigos na categoria. Ao cruzar a linha, o italiano literalmente não se aguentou de emoção e soltou as mãos do volante. Batata! Foi o suficiente para arrebentar a frente do carro em plena reta.

De arrasto, o limpa-trilho do March de Brambilla vai arrebentado com o italiano festejando muito sua única vitória na categoria, na Áustria em 1975 (Reprodução)

Sem problema! Vittorio ainda voltou pela pista arrastando o aerofólio dianteiro pendurado enquanto vibrava pela sua única vitória na categoria, que valeu apenas metade dos pontos por conta da interrupção da prova na volta 29. Até o fim da vida, em 2001 aos 63 anos, ele guardava orgulhosamente o limpa-trilho do March laranja ainda com as marcas daquela feliz e encharcada tarde de agosto de 1975.

Na oficina particular do Gorila de Monza, a recordação indelével. Brambilla morreria em 2001, aos 63 anos (Reprodução)

Sem mais para o momento, a F1 volta neste fim de semana na clássica Suzuka, para o GP do Japão. Hamilton está tranquilo embora o sinal amarelo na Mercedes está aceso quanto ao desempenho do carro. E Vettel vai precisar de um santo para continuar na briga. Talvez este santo atenda pelo nome de Red Bull.

Nos vemos no próximo domingo (ou na próxima semana). Até mais!

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