(Licença, Oktober!) Precisamos conversar sobre a Festa do Imigrante

Nem só de Oktoberfest vivem as festas de outubro em SC. No Médio Vale, um exemplo dos melhores para compreender a mistura de celebração familiar e reverencia histórica: A Festa do Imigrante, em Timbó (PMT)

Então… Outra vez, assistimos a temporada nacional de Festas de Outubro abrir outra vez em Santa Catarina. Todos os caminhos levam ao estado e, claro, ao Vale do Itajaí, onde o agito festeiro mescla-se com o som das bandinhas e a tradição secular dos colonizadores em celebração. Não chega a ser uma zorra, mas é motivo de festa para quem gosta de badalação e motivo de lazer em sociedade para as famílias.

Mas, se você está pensando em encontrar algo sobre a Oktoberfest aqui n’A BOINA este ano… bem, lamento desaponta-lo. Mesmo com três anos de atividades apenas no blog, a maior festa alemã das Américas por vezes não tem mais o que se explorar de assunto ou experiência. A imagem consolidada a duras pernas desde 1984 a tornou uma grife, um rótulo indelével que vem de carro-chefe a frente das várias coirmãs do calendário. Os desfiles, os shows, a gastronomia e, claro mais do que tudo, o chopp abundante que faz sorrir alguns e preocupar outros.

Só que neste ano em particular, residindo em Timbó a maior parte do tempo, resolvi explorar em crônica uma celebração que, mesmo sem o mesmo tamanho da festa da cidade-jardim, guarda história e importância tão grande quanto (ainda que com pouco material). Presente no calendário da Pérola do Vale há 26 primaveras, a Festa do Imigrante não desonra o slogan que ostenta de a verdadeira festa da família ao promover este clima tão aconchegante como os colonos em suas modestas residências familiares há tantos anos.

Cartaz da primeira Festa do Imigrante, em 1991. Evento surgiu numa lacuna deixada pelos antigos festivais do chopp da cidade, misturando a celebração do aniversário de fundação ao calendário das festas de outubro (Reprodução / Arquivo Prof. Gelindo Sebastião Buzzi)

Antes de mais nada, é bom deixar claro que esta crônica não busca comparar nem colocar uma ou outra em superioridade. A ideia que tento trazer é uma olhada por cima do muro, pra fora da caverna como diria o filósofo, algo que vá além do que já é conhecido e que permita uma outra visão ou oferte outra experiência que vá além do chopp e da maluquice. Até porque, assim como a Festa do Imigrante, a Oktoberfest também tem uma história por trás, exaustivamente contada.

Mas voltando a Timbó, a Festa do Imigrante é muito mais do que alguns, erroneamente pensam, de festa do interior. Alias, pecha que equivocadamente vai muito de encontro as festas que cidades menores organizam pelo simples fato de serem feitas em cidades pequenas. Engana-se redondamente quem vive neste universo, e o exemplo timboense talvez seja o melhor para se desmistificar esse parâmetro.

O evento nasceu em 1991, é razoavelmente recente perto de festas como a própria Oktoberfest, a Marejada (Itajaí) e a Fenarreco (Brusque), mas prima por ser uma verdadeira celebração da colonização, não apenas a alemã, mas misturando junto a raiz italiana da região. É mais do que justo quando, ao vasculhar a história, confirmar a participação dos italianos na construção do Médio Vale, juntando neste bolo Timbó, Rodeio, Rio dos Cedros, Benedito Novo, Ascurra, Apiuna, Doutor Pedrinho e, por que não, Indaial.

O pioneiro colonizador: Frederico Donner, em meio a nova colônia, outras povoações de italianos que deram corpo a região do Médio Vale (Reprodução / Arquivo Prof. Gelindo Sebastião Buzzi)

A formação destas cidades, segundo conta a história, tem a ver com o distanciamento entre alemães e italianos, que não tinham muita propensão em viver juntos na mesma colônia. Alguns contam até que os imigrantes da terra da bota eram mal vistos pelos alemães, ainda mais com relação a religião. Eram os tempos em que a convivência de católicos e protestantes não era tão fácil. Assim sendo, os italianos seguiram para regiões mais a dentro no Vale, ocupando áreas onde hoje estão estes municípios.

No caso exclusivo de Timbó, a chegada de Frederico Donner e dos colonos que o acompanhavam não trouxe problemas aparentes para a convivência com os italianos das cercanias. E neste meio é que as regiões foram se desenvolvendo e se construindo ao que são hoje, numa das regiões que mais crescem no estado. Um trabalho que não enxergou bandeiras nem diferenças e que, hoje, é enaltecido em celebrações como a da Festa do Imigrante.

Caneco do Festival do Chopp de Timbó, em 1975. Evento era um dos maiores do estado, muito lembrado até os dias atuais Reprodução)

Alias, o surgimento da festa serviu para preencher uma lacuna aberta há algum tempo na história timboense. Veio da Pérola do Vale, talvez, um dos grandes inspiradores do que, acredite, um dia viria ser a Oktoberfest. Até inicio dos anos 80, nos idos pré-festas de outubro, os festivais e bailes do chopp eram a grande vedete no Vale do Itajaí, responsáveis por atrair levas de turistas de várias partes do país. O de Timbó, cuja primeira edição fora em 1966, era o mais badalado, por vezes recordado com saudade por quem o frequentou nos anos áureos.

O festival não contava com uma grande estrutura como era o pavilhão da Famosc, mas o Pavilhão Henry Paul, inaugurado em 1969 na celebração do centenário da cidade pelo prefeito que lhe empresta o nome, era aconchegante e permitia a acomodação de um bom público, assíduo pelo clima germânico que rondava o ambiente, sem esquecer do sempre apreciado chopp, ainda comprado de grandes marcas como a Antárctica. Infelizmente, com o passar dos anos e a chegada da Oktoberfest, os pequenos festivais do chopp perderam-se no caminho, como acabaria sendo para Timbó.

Parque e Pavilhão Henry Paul, inaugurado no centenário da cidade – 1969 – antigo palco dos grandes festivais de chopp e, hoje, o ponto culminante da Festa do Imigrante. Totalmente revitalizado há algum tempo, é um convidativo parque para caminhadas e praticas esportivas, além de abrigar a feirinha, o happy hour mais democrático do Vale Bruna Nasato)

Prefeito Henry Paul, administrador do município por duas vezes e responsável por inaugurar, em 1969, o pavilhão que leva seu nome, palco dos inesquecíveis festivais do chopp timboenses (Reprodução / Arquivo Prof. Gelindo Sebastião Buzzi)

Em 1991, no entanto, eis que uma nova festa surge, agora encampando consigo a tradição e culinária italiana, como forma de reverencia aos que contribuíram na construção do Médio Vale junto dos alemães. Toda esta celebração casando perfeitamente com o período de aniversário da cidade, celebrado no dia 12 de outubro, uma tremenda conveniência para um calendário de festas que estava se formando.

Se a lacuna dos antigos festivais do chopp foi bem preenchida? É notável que sim. Atualmente, a Festa do Imigrante tem apostado na fórmula de evento com menos dias de duração, mas que conta com uma boa organização e atrações que encantem muito mais pelo que trazem de conteúdo e bom divertimento do que pela grife e badalação. É a mesma fórmula que tem sido utilizada por outras festas como a Fenarreco e a Marejada, com menos dias mas intensificando esforços na promoção da cultura e história por meio das atrações folclóricas e da gastronomia típica.

E este diferencial dá muito certo. Todos os outubros há 26 edições, a Pérola do Vale se veste de festa para celebrar sua vida e sua tradição. No dia 12, a Avenida Getúlio Vargas é o palco que demonstra estas heranças todas em dança e música deixadas pelos antepassados que a construíram, desde o homem do campo com a enxada ao comerciante ou industrial que fabricou e vendeu seu produto para a cidade, para o estado e até para o país. E na mesa, uma parte do que era a alimentação de outros tempos dos colonos que ali viveram. Um lugar onde chopp e vinho convivem em paz, quando não misturados em uma bebida só.

E assim será mais uma vez a partir deste dia 11. E o convite para você é que, se o roteiro permitir entre uma Oktoberfest e outra, que dê um pulo por Timbó para mergulhar mais afundo numa história tão bela quanto a festa que a divulga. É no interior que reside a legítima celebração de uma mistura colonial que proporcionou a Médio Vale ser quem ele é, com seu labor e belezas naturais e históricas, com sua música, dança e gastronomia, com sua gente e seu futuro reunido numa única celebração que merece (e muito) a sua consideração.

E aos meus conterrâneos blumenauenses, que me desculpem, mas existe um universo tão rico em história e tradição traduzida em festa quanto a Oktober nossa de cada outubro. Ele mora em Timbó, e desfrutar dele é mais do que festa, mas sim motivo de reverencia a quem contribuiu na construção da terra que hoje vivemos, sejam eles alemães ou italianos.

(André Schroeder “By Pilo”)

Um comentário sobre “(Licença, Oktober!) Precisamos conversar sobre a Festa do Imigrante

  1. André,
    Muita boa essa tua postagem. Uma pesquisa de alto padrão sobre a Festa do Imigrante. Já tive o prazer de estar em algumas edições. É maravilhosa a festa e sua gente.
    Parabéns
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

    Curtir

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