No bistrô…

(André Bonomini)

(Imagens: Bistrô Entre Parênteses, Timbó-SC)

Sob as luzes recortadas disfarçadas de penumbra, seus reflexos cortinados pelas estrelas da noite, eis a vida quente e corrida pelas vozes do andantes da noite. Estes seres, criaturas reveladas ao cair noturno, encontram-se entre bochichos e goles com sorrisos na dobração escondida entre Aracaju e Recife, num canto perdido dos mapas do Verde Vale barriga-verde.

Sua esquina decorada, por veleiros sinalizada, convida os transeuntes a abrir a portaria ornada de metais em voltas barrocas, tendo como coroa um vitral tal como nas casas nobres das curvas parisienses. De dia, discreto, escondido. A noite, ferve, borbulha entre risos, negócios, piadas e mágoas apagadas. Em suas mesas, dispostas ao acaso universal, casas se amam, amigos riem, amigas tricotam e ternos e gravatas balançam no sacudir de mãos apertadas por um acordo que gere dividendos ao fim do mês.

(André Bonomini)

Sentado invariável, sozinho derreado na imaginaria sombra embaladas pelos acordes jazzísticos do som ambiente, permito-me mergulhar profundamente, entre a melodia e o ambiente, nos devaneios que a noite provoca no ser humano.

As linhas que escrevo nasceram nesta brisa inebriante…

Pelas paredes desdobram quadros de recortes provençais que emerge-nos a um canto subliminar da antiga Gália e seus campos verdes balançantes pela brisa corrente. Suas provocações culinárias os cercam, aguçando e provocando as papilas para o baile gastronômico que se seguirá no salão.

(André Bonomini)

As cristaleiras adornadas com suas taças parecem querer brilhar tanto como os pontos luminosos que, pendurados, estão no firmamento enegrecido. Cores, formas, reflexos, reprodução distorcida dos rostos que cruzam suas redomas de cristal frágil e cintilante.

Essa gente sorridente, amante, conversando, brincando, talvez chorando internamente pelo mundo externo, são criaturas como eu, você, pai, mãe e o mundo. Descendem de vários universos, de várias estradas, de várias criações. Algumas tem país, outras não. Alguns dizem do seu dinheiro, outros o contam febrilmente moeda a moeda. Alguns deleitam-se sob os olhos da dama amada, outros afogam o amor entre pingos e derramadas de Bacardis e Cabernets.

E por entre estes astros da penumbra no salão, desfila freneticamente uma moça… Sim sim, não me deixo envelhece-la pelo que aparenta a capa que vejo. A troca de suas feições, seu bailar constante entre mesas e indivíduos, o semblante ora sorridente ora sério, como mais perdida estivesse nesta bailante movimentação entre rostos a lhe contemplar do que qualquer um no funil noturno.

Por suas mãos passam pratos… Fundos, rasos, decorados, esbranquiçados, cheios, vazios, grandes, pequenos. Pratos que consigo levam a obra nascida pelas mãos que dominam ingredientes, picam, cortam, fervem, tornam a creme, a molho, a massa. Mãos que assam, refogam, temperam, brincam como malabares num picadeiro, combinando com o espetáculo da montagem provocativa da criatividade culinária.

Atreva-te, Gordon, a profanar sobre ela! Tu serás deserdado de tua mão se puderes desta obra falar…

(André Bonomini)

Obra construída na perfeitíssima que preenche este baile noturno. Que torna o rosto da moça tão jovem quanto na tenra idade já há tanto vivida. Que alegra a esquina entre as belas praias nordestinas neste canto catarina. Que brilha escuramente como uma estrela sentada ao canto no salão celestial azul-marinho.

Enfim, eu, passo a caneta nestas linhas depois de ter vivido outra experiência neste constante baile noturno na quebrada da Pérola. As vezes desviado do meu ambiente, ora calado, observante, misturando meu silêncio com as vozes que quebram o breu da sombra do lustre suspenso, única testemunha do que todos deixaram presas nas paredes do salão.

Ao meu lado, pousada, está uma taça. E na pequena poça de vinho o resto daqueles que, segundo o dito, sejam os nossos piores momentos…

(André Bonomini)

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