Mirelo, um (histórico) personagem

A cidade tem seus personagens, uma comunidade tem seus personagens, e entrar para a história é permissível para todos, independente do que fazem. Wilson Seidler, o Mirelo, é um exemplo disso, e por muitos não será esquecido, mesmo com seu passamento inesperado ocorrido no último 28/10 (Reprodução)

Algum fidalgo disse certa feita que se você faz o que gosta, não é mais trabalho, é diversão. E não poderia estar mais certo… Alguns gostam de escrever, como eu, outros gostam de jogar bola e, por isto, são grandes jogadores de futebol ou destes que levantam a poeira nos campos de várzea. Outros são políticos, e muitos deles estão fazendo o que gostam nos roubando a crença num país melhor dia a dia…

Agora, tem quem goste, simplesmente, do ofício simples. Tem quem goste de ser apenas um vendedor de picolés. E que mal há nisso? Por alguns trocados você refresca-se com uma delícia gelada que não tem o mesmo gourmet de uma paleta, mas é tão gostosa e simples quanto.

E neste mundão de Deus, não é preciso ser um gigante para fazer história ou ficar marcado numa comunidade. Tem quem, com a modéstia que lhe é característica, consegue deixar seu vulto impresso na memória de muita gente. Tão bem impresso que, quando se vai para outro lugar, sente-se muito mais que saudade, mas sim uma impressão nostálgica de um personagem de sua infância ou juventude.

(Maurício Goll)

Eu, um destes transeuntes que observam a vida rolar no glorioso Reino do Garcia tenho um bom exemplo. Tinha por nome de registro Wilson Seiler, um brasileiro igual a você independente da posição, mas que encontrou na vida felicidade ao cruzar ruas acompanhado de uma caixa de isopor a tiracolo e chamando a todos para comprar os picolés que trazia.

E todo picolezeiro que se preze, tem sua forma de chamar atenção. Alguns usam aquelas flautinhas coloridas, tipicas do litoral do Vale, outros simplesmente passam pela rua esperando a atenção de alguém. Mas o velho Wilson não se vexava. Onde estivesse todos sabiam que ele estava vindo quando, a plenos pulmões, soltava um óia o picole! ouvido claramente a distância.

(Reprodução)

Pelas histórias resgatadas pelo mestre Adalberto Day, que o conhecia desde os tempos da EIG, Wilson vem de uma família trabalhadora, tradicional do bairro, e escolheu nos picolés o seu motivador pessoal de todo o dia. Gostava de futebol e demonstrava bem o time que era defensor também durante as vezes, ostentando uma camisa um tanto envelhecida do amado Fluminense.

Confesso aos amigos que, o que escrevo é muito mais resultado de observação e contos dos amigos e colegas do bairro, que o conheciam não como Wilson, mas como Mirelo. Todo mundo falava dele, lembrava dele ou já comprou picolé dele. Dele, que eu digo, do Mirelo, embora Wilson detestasse o apelido folclórico, mesmo ele sendo usado até em campanha de seguradora, há pouco tempo.

Colocando em contas frias, são quase (ou mais de) 50 anos vendendo picolé. E engana-se o cidadão que acha que um picolezeiro não tem história e nem amigos neste tempo todo. O que é uma figura famosa ou pública também é um picolezeiro trabalhador e amigo dos desconhecidos, pura e simplesmente. Chuva ou sol, rua a rua, casa a casa, pessoa a pessoa, e tudo isso neste tempo cativando cada um com um simples picolé. Só, nada mais.

(André Bonomini)

Mirelo em encontro nacional que decretou o Reino do Garcia na Capital Nacional do Picolé (Reprodução / Sargento Junkes)

E lembra do que falei sobre entrar na história independente da posição onde se está ou do que faz? O picolé o levou a um lugar da memória de muita gente, e isto é entrar na história, queira você pense o contrário ou não. Por este Brasil, alguns dos mais emblemáticos personagens são os simpáticos vendedores de guloseimas que fazem a alegria da criança e a saudade dos adultos. E Mirelo era o nosso figurão das guloseimas, o cara que passou de picolezeiro a ministro da economia do glorioso, magnânimo, invencível… Reino do Garcia.

Mirelo de todos os picolés e gritos, e dos amigos que fez em seis décadas. Orgulhosamente, sorria a cada um por ter conseguido sua aposentadoria. Se fosse parar ou não de vender suas delícias geladas, ninguém sabia, mas na história e na memória de muita gente ele não sairia mais. Mas, do convívio da comunidade, ninguém esperava que ele sairia tão cedo: Foi na tarde de um sábado de sol (28/10), que a maldita imprudência no trânsito fez o simpático picolezeiro como vitima.

(Sargento Junkes / Reino do Garcia)

Nas ruas, não se houve mas o grito, não se vê mais o sujeito tricolor e sua caixa de isopor com suas delícias geladas ao encontro dos amigos. Mirelo foi, definitivamente, para um canto da memória reservado a aqueles que, honestamente, escrevem uma grande história, grande demais para ficar restrita a uma caixa cheia de picolés. A prova maior de que você se diverte trabalhando, e de que o trabalho que diverte também te permite ser lembrado – e bem lembrado – por ele.

E se você ouvir, lá num vazio de uma rua do Reino, um óia o picolé! perdido na brisa, não se assuste. Foi apenas um flash de sua memória de quem, agora, vai vender picolés em nossas lembranças. É assim, nada mais.

3 comentários sobre “Mirelo, um (histórico) personagem

  1. Mirelo,
    Grande amigo desde minha infância dos tempos de aula, da rua Emilio Tallmann na época conhecido como Beco Tallmann. De uma família tradicional, trabalhadeira , ordeira, amiga de todos. Todo cidadão de nosso Reino do Garcia e do outro lado também já ouviram falar de Mirelo que se tornou conhecido por cada estudante do bairro principalmente que o admiravam. E Nós que quando crianças convivíamos temos a certeza que ele foi em emblemático,cativante, bondoso, de coração simples e grande e era capaz de dar um picolé se a criança não tinha dinheiro. Não é só de personagens ditas saudáveis e que mitas vezes não condiziam a dignidade do Mirelo que merecem nomes de ruas, isso ou aquilo. Apesar dele não gostar que o chamassem de Mirelo, mas este é o nome que ficará eternamente gravado em nossos corações por muitas gerações, e a este “apelido” carinhoso deve-se colocar o nome dele em algo que fique eternizado seu nome. Pude ainda em vida prestar=lhe ou melhor ele me deu essa oportunidade, de escrever a seu respeito no Jornal o Garcia, Livro Almanaque Bela Vida, Blog e entregar-lhe em mãos.
    Ontem 28 de 10 aos 60 anos Mirelo vende seu último picolé e o Reino do Garcia perde uma figura espetacular que deu exemplo a todos nós pela luta de seu trabalho.
    Vá com DEUS e siga em paz para a eternidade!
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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  2. Mirelo !!!
    Não tive o privilégio de tê-lo conhecido … Mas as manifestações de carinho e amor que recebes, são a prova sublime de que fostes um grande homem, amado por muitos … Fama, dinheiro e pompa, não chegam a um fio de cabelo, de quanto vale um ser humano de verdade … Descanse em paz, grande homem … Receba aqui, o abraço e o carinho, de mais um fã que conquistastes, mesmo sem conhece-lo … Descanse em paz !!!

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  3. Murilo o meu grande picolezeiro já mais será esquecido por minha família ,adorava as crianças sempre dizia são anjos que sempre estão do nosso lado .a falta e imensurável a dor de não ouvir mais ele ,vai passar mais nunca será esquecido .fica nos braços do senhor descanse em paz .pois vc deu a volta ao mundo andando não importando sol ou chuva .sempre disse e repito se alguém fosse contar o quanto ele andou .eu digo que ele deu a volta ao mundo andando….

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