Oktoberfest: Rescaldos de outubro

As danças, os momentos, os desfiles e acontecimentos. Outra Oktoberfest foi escrita na história de Blumenau. A 34ª edição é, agora, parte dos livros de história, e a vida segue seu curso como sempre (Oktoberfest / Divulgação)

Pois bem. Atrasado, mas em tempo. Está acabada, terminada, sepultada a 34ª edição da já consagrada maior festa alemã das Américas, a Oktoberfest.

Quem viveu as emoções desta edição, viveu. E quem não viveu terá de esperar chupando o dedo a vinda de outubro de 2018 para todo o carnaval germânico voltar a carga. Os que não suportam, aplaudem felizes e aliviados. Os que não vivem sem ela, deixam derramar uma singela lágrima enquanto assinalam no calendário do próximo ano o dia 3 de outubro, quando a loucura volta a carga.

Na minha qualidade de jornalista blumenauense – em processo de radicação em Timbó – a pergunta o que vi da Oktoberfest 2017? chega a ser um tanto piegas e careta demais. Todo mundo descambou a botar sua história com relação a festa deste ano, ainda mais ricas em detalhes do que a deste escriba. Teve tem apreciou no modo familiar, teve quem “pirou os coco” com chopp abaixo de chopp, e teve de tudo mesmo, desde os foliões aloprados a coisas que só acontecem em uma Oktoberfest.

O Facebook abundou de fritz e fridas com seus trajes prontos para a guerra. A BOINA não podia deixar passar esta também, naturalmente (Arquivo Pessoal)

Este ano, minha experiência foi outra. Trabalhando no intensivo em Timbó, pude apreciar outra forma de diversão nas festas de outubro: a Festa do Imigrante, com um viés muito mais familiar e que, este ano, viveu dias de Oktoberfest (sem exagero, o Henry Paul estava entopetado sem dó, especialmente no último dia). E enquanto o pau comia na Pérola do Vale, em Blumenau outra festa se desenrolava, e as redes sociais eram o caldeirão que me mostrava tudo o que rolava, na pista, na rua ou nos palcos.

E não é mentira, cada vez mais o Facebook, durante outubro, é tomado por uma epidemia de fritz e fridas nos trajes mais variados, dos mais tradicionais aos mais comportados. Teve quem seguiu a risca o calendário – as vezes com o mesmo traje – aqueles que bateram foto de todo tipo: de caneco, dançando, no meio do povão, no palco, no desfile, em todo o canto. Era a maior concentração de fritz e fridas do mundo. Talvez nem Munique superasse essa orda.

E como blumenauense da gema, até eu cai na moda, e com bônus: participei neste ano de meu primeiro desfile como integrante e não como espectador. Cortesia do bom e velho Clube de Caça-e-Tiro Garcia-Jordão, que me permitiu acompanhar minha madrinha, Maria Julia Boos, por uma encharcada Rua XV. E encharcada é apenas apelido. Foram alguns desfiles onde a chuva, essa companheira eterna do Vale, resolveu aparecer para por água no chopp.

Enquanto isso, o incauto leitor pergunta: ah, mas não teve desfile com tanta chuva… Meu amigo, ai que você se engana. Blumenauenses e turistas aprenderam a ser anfíbios e transformaram a chuva em mero detalhe. Tamanha constatação que A BOINA não deixou escapar umas imagens do que é um desfile de Oktoberfest na chuva.

Sente só:

Alias, estar no meio de um desfile nos idos de hoje é algo sobrenatural. Fora a vigilância cerrada, com suas pulseiras nos braços, a festa já começa na concentração, com chopp, comida, musica e muita água do céu. Nada que arredasse pé dos donos do espetáculo. Ao andar na XV é impossível não notar a alucinação da galera, desesperada por um gole de chopp, quase atirando seus canecos em direção a massa desfilante. Uma zorra!

Bem, mas agradecendo gentilmente o CSRCT Garcia-Jordão, eu digo por mim que só volto a XV se estiver tocando em uma banda. Com toda a sinceridade. Portanto, aguardem novidades para o ano que vem…

Enfim, de volta ao turbilhão, nem dei trela para os colegas de imprensa de veículos vizinhos. Na minha visão, acho que o que tínhamos de histórias da Oktoberfest já está se esgotando. Não que repetir as histórias seja um crime na profissão, mas as vezes parece que caímos nas mesmas coisas: Dalto dos Reis (o bom amigo), Luiz Cé e seu Vovô Chopão, as tradicionalíssimas bandas, a fauna dos carros alegóricos, o Planeta Péia (que algumas críticas teve neste ano), e por ai vai…

Mas neste ano, aquele quadro já manjado de tantos personagens ganhou dois. Bem, na verdade, eles já existiam muito bem, mas agora receberam uma exaltação ainda maior do que outros anos: Ingo Penz com sua Choppmotorrad e a alucinada Repórter Frida, Liliane Machado.

Começando por Penz, o mais honrável dos alemães do Reino do Garcia, ele agora tem mais uma coisa – e das grandes – para carregar junto de sua simpática moto Java 1951. Além da esposa e do espírito do imortal Horácio Braun, Ingo agora tem o título magnânimo de Embaixador da Oktoberfest para ostentar e representar Brasil afora.

O passado e o presente: Ingo Penz conduz o inesquecível Horacio Braun nos caminhos da XV com sua simpática Java 1951. Hoje (abaixo), o faceiro Ingo segue a estrada com a mesma companheira mecânica de outros tempos, acompanhado da fiel escudeira, a esposa Marleni Gesser, e, em espírito, por Horácio. Agora, ambos o seguem na missão de embaixador da Oktoberfest (Antigamente em Blumenau | Jaime Batista)

Nada mais do que um justíssimo reconhecimento a quem se põe 365 dias por ano a serviço da festa, em todo o canto do Brasil e até das Américas, guiado sempre pelos embalos de outubro que nunca lhe saem da cabeça. Alguns podem dizer que foi média política de um certo vereador, não duvido… Mas o título é, por direito, de Ingo Penz, do fotógrafo bonachão e sorridente que sempre responde a todos que está firme, forte e faceiro, e como não poderia estar com esta honraria? Sr. Harold Letzow deve estar fazendo aquele joinha la do alto firmamento, sem dúvida!

Bem, quanto a Liliane, ou melhor, a Repórter Frida, esta gaúcha de Cruz Alta, amiga de A BOINA e uma simpatia de jornalista virou figurinha carimbada da festa. É algo que ainda estou tentando captar de Lili desde os tempos de RICTV Record, quando ela começou com esta brincadeira divertida: Ao chegar outubro, seus músculos corporais carregados de erva-mate, café e da correria dos dias entram numa espécie de metamorfose, dando lugar a traços de lúpulo, cevada e um zilhão de sorrisos e loucuras, devidamente registradas como marca da alegria contagiante de quem mergulha fundo no clima.

Os tempos de RIC se foram há algum tempo, mas a personagem não naufragou no mar de chopp. Nos pavilhões, nos desfiles, nas ruas, avenidas, lá ia pulando tal como Chapeuzinho Vermelho, carregando um sorriso e o microfone na mão a bem enlouquecida frida. E o que me faz pensar cá comigo, conhecendo Lili como conheço, é: donde ela tirava tanta força e alegria para suportar a maratona? Inexplicável, como todos os outros grandes personagens que a Oktober marcou, mística da alegria não se explica, se vive. E Lili… ou melhor, a Repórter Frida sabe muito bem vive-la.

Ela é gaúcha, mas tem coração, veias, artérias, coronárias… (e tudo mais o que vier) blumernauenses. Eis Liliane Machado, ou melhor, a Repórter Frida, que não perde o sorriso e a pose em nenhum momento e já pode ser considerada uma das personagens marcantes da festa (Reprodução)

Pois então, coisas boas tiveram em mais uma Oktoberfest, mas também tivemos aquelas coisas chatas que não precisavam estar no script deste ano: Furtos aos montes, os covardes que ainda tratam as mulheres como objeto (e teve, não vamos mentir), o trânsito caótico e infernal elevado a milésima potência e, ainda, os cambistas. Satiricamente falando, a presença deles mostra que o evento tem uma grande proporção, mas a atuação deles foi flagrante e rapidamente detida pela polícia. Coisas de festa grande, mas que não precisavam existir.

E coloca mais uma na conta pra história da festa deste ano no quesito chateação. O que foi a escolha da rainha? Ao menos, nas minhas pesquisas sobre a festa não recordo de uma confusão como esta do último dia, quando o resultado final foi anulado por um erro na tabulação dos pontos, o que não é novidade em Blumenau e a Gincana do ano passado sabe muito bem o que é isto. No fim, as realezas foram conhecidas na segunda-feira, num movimento jamais visto na história da festa, até onde sei ao menos.

Karoline Gehre, a princesa do domingo que virou rainha de 2018, ladeada por Daniele Kirsten (primeira princesa) e Daniela Provesi (segunda princesa). Uma salada no sistema de tabulação e as realezas coroadas da noite anterior viraram uma página constrangedora para a organização. Na segunda-feira seguinte, surgia o novo trio depois da recontagem, e o jogo segue (Oktoberfest/Divulgação)

Agora, se uma coisa realmente incomodou o blumenauense nesta Oktoberfest, esta veio da Alemanha, e sua postura com relação a festa foi motivo de alegria e ódio de muitos: Thomas Fischermann. Este nome causou arrepios e, provavelmente, vai estar nas futuras malhações de judas dos anos seguintes. E por que? Ele ousou tocar em feridas que nenhum antropólogo blumenauense tocaria: o significado de uma Oktober em Blumenau, isto vindo desta vez da visão de um alemão nato.

Correspondente do periódico alemão Die Zeit e responsável pela coluna Pé na Praia, que assina para a Deutsche Welle (ou, simplesmente, DW), Fischermann usou de um olhar totalmente sem vícios ao sentir a festa na sua visita a Blumenau. Começou com uma multa, passou por alguns encontros com autoridades municipais e terminou com uma análise crua e direta sobre seu ponto de vista com relação a festa, a cultura, tradições e rigidez para com isto tudo. Palavras que agrediram os puritanos e ufanistas mas que devem ser tomadas como reflexão, antes de mais nada.

Thomas Fischermann: limão inconveniente para alguns, sensato cronista para outros. O jornalista alemão fez sua análise da festa com critério e certa dose de frieza, despertando as mais variadas reações na cidade. No fim, ainda, participou do pastiche que ele mesmo narrou, a convite do vereador Sylvio Zimmermann (foto abaixo, a direita) e, no saldo, acabou até se divertindo, embora fiel ao estilo frio e contido de um teuto (Dario de Domincis | Sylvio Zimmermann)

Bem… ao menos, deveriam. Seguida as publicações de Fischermann vieram bombardeios apaixonados de gente que nem pisar na festa deve ter pisado ou, no mínimo, não conhece a história da cidade que o rodeia. Até mesmo o cônsul alemão honorário Hans Dieter Didjurgeit comprou a briga a favor dos ofendidos, embora concordasse com alguns pontos do jornalista teuto.

Embora o que fosse, Fischermann nem pode reclamar muito, fez visitas com autoridades e, a convite de um vereador, participou de um desfile mesmo com a cara amarrada e fria, comum da postura dos teutos. Se ele falou do tal pastiche com motivos bávaros sem entender nada, ao menos se divertiu. E aos fervorosos apaixonados, diga-se que ele não é a Alemanha inteira e outros germânicos natos devem curtir a versão tupiniquim do festival de Munique tanto quanto vocês. Ao menos, ainda saiu sorrindo com a boa cerveja que sai daqui, como dissera em uma baita entrevista para O Município Blumenau.

Enfim, assim como as palavras de Fischermann, cada um tem sua reflexão e memórias de mais uma Oktoberfest. Dormirão, acordarão e aguardarão ansiosos o 3 de outubro de 2018, quando esta loucura toda cheia de histórias e personagens voltará a carga. Tem sido assim ano após ano desde 1984, na constante renovação de contos e acontecimentos. E vai continuar sendo, para a alegria de uns e ódio de outros.

Oktober é isso, o resto é história recontada. Que venham as novas histórias. Até o ano que vem.

(Oktoberfest / Divulgação)

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