Som n’A BOINA #26: A incrível história de Jimmy Ellis e a “maldição” de Orion

É Elvis? Não é Elvis? E a voz? Mas é a voz de Elvis! Mas não é Elvis? Uma das lendas mais marcantes da música no mundo vem do Alabama e encontrou na incorporação do personangem de um livro o caminho da fama, mesmo que isso despertasse a curiosidade de uns e a estranheza de outro.

Como bem sabemos – e até o SnaB fez menção – este ano recordamos as quatro décadas da noite fatídica de 16 de agosto de 1977, quando o mundo era despertado com a notícia de que o Rei do Rock ‘n Roll tinha se calado para sempre. Estava morto no banheiro de Graceland, sua majestosa residência em Memphis, Elvis Aaron Presley, e o mundo da música se vestia de luto num cortejo fúnebre embalado pela My Way cantada pelo ilustre filho de Tupelo.

Os meses passaram, os fãs ainda fungavam o choro quando, dentro dos estúdios da Sun Records, onde Elvis nascera para a música, um cidadão do Alabama apareceu. Ex-tratador de cavalos, tinha vindo da pequena cidade de Orrville em busca do sonho de ser cantor. Mas muito além desta porta aberta na lendária gravadora, o rapaz acabava mergulhando numa história no mundo da música que daria origem a uma das lendas pop mais populares de todos os tempos. E o incrível: por um momento, quem o visse podia jurar que a lenda era verdade.

Quem não conhecia, hoje vai começar a saber quem era Jimmy Ellis. Ou melhor, quem era o misterioso Orion, o Elvis por trás da máscara e que, acredite, não queria ser Elvis, mesmo tendo feições e o timbre de voz quase clonados do Rei.

De artista sonhador a pivô de lenda

Sem a máscara, eis James Hughes (Jimmy) Ellis. De Orrville, Alabama, para o mundo e para a música, entrando de cabeça no surgimento de uma lenda que, até hoje, tem seus conspiradores (Reprodução)

Como bem frisado na introdução, James Hughes Ellis nasceu em Orrville, no Alabama, dez anos depois de Elvis, em 1945. Fascinado pela música, era uma verdadeira sensação nos concursos e shows de talentos nas redondezas donde morava desde 1962, quando participou da primeira competição. Vencia todos notadamente contando com o seu trunfo mais surpreendente: tinha o timbre de voz e as feições quase cópia-carbono de Elvis.

Para se ter uma ideia, 1962 era o ano que Presley ainda dividia-se entre filmes e discos mas começava a tomar os primeiros cutucões musicais do que vinha da Inglaterra (leia-se Beatles). Ellis tinha sonhos com a música, mas nunca deslanchou como um astro do pop. Apesar disto, era de uma família abastada e trabalhava como ginete de exibição, sendo muito habilidoso.

Shelby Singleton, proprietário da Sun Records. Tomado por uma ideia mirabolante para adaptar uma trilha sonora para um livro instigante e curioso, abre a porta dos estúdios par Ellis. Mas ele sabia muito bem o que queria: criar uma pulga atrás da orelha de muita gente (Sun)

No entanto, em 1970, eis que Jimmy deixa a vida de cavalgar para megulhar de vez na música. Muda-se para Los Angeles para tentar a vida, mas não é nada tão fácil como se parece. Para garantir o ordenado no fim do mês, Ellis cantava em clubinhos, bares e restaurantes, buscando também algum reconhecimento. A vida era essa até 1977, quando Elvis morreu e a sorte – ou melhor, a Sun, bateu-lhe a porta. Era o começo de uma história que viraria lenda e seria guardada nos anais curiosos da música mundial.

 

Sai Jimmy, Entra Orion – A jogada maluca do dono da Sun

Nos estúdios da Sun Records, entre um cigarro e outro, o proprietário dos estúdios Shelby Singleton foi tolhido por uma ideia no mínimo bizarra partindo de um romance literário mirabolante: Após a morte de Elvis, a escritora Gail Brewer-Giorgio lançara sua novela fantástica intitulada Orion. Na trama, ela conta a história de um cantor que fingia a própria morte para fugir do peso da fama, tomando como base a morte de Elvis, ainda fresca nas atualidades daqueles tempos.

A escritora Gail Brewer-Giorgio e, abaixo, a obra Orion. A história do cantor seria extraída do livro e jogada na vida real (Reprodução)

Singleton tinha a ideia de inserir uma trilha sonora em um livro com a ideia de, no futuro, converte-lo em um filme. Para interpretar o personagem-título, uma de suas produtoras deu a nota: Ela já conhecia Ellis e o indicou para Shelby, mas apenas com um complicador: Shelby teria de bancar o cantor misterioso, que não poderia mostrar totalmente o rosto.

Vá imaginando a trama: um livro sobre um cantor que finge a morte para escapar da fama. Uma ideia de inserir música de verdade na trama do livro para um futuro filme. A lenda do Rock recém-morta e um cantor que tinha feição e voz quase cópia-carbono de Mr. Presley. Já dá pra imaginar, por cima, o que vem por ai no caminho de Jimmy Ellis e, por conseguinte, no mundo da música.

Não demorou para que Shelby procurasse Ellis para lhe ofertar a ideia. No começo, o promissor cantor não se sentiu muito a vontade com a ideia, ainda mais com o fato de ter de usar uma máscara de meio-rosto para ocultar sua identidade. Mas o manager da Sun foi duro na queda e lhe deu uma oferta irrecusável: ou põe esta máscara ou pode voltar para o Alabama para cuidar de seus cavalos. Era a chance lhe batendo na porta, mesmo que Ellis não pudesse ser ele mesmo.

Logo, Jimmy Ellis estava oculto pela máscara de Orion, seu pseudônimo, transformando-se num sucesso inesperado e tomando de assalto os ouvidos de fãs de Elvis que, ao dar de olhos com o cantor da máscara, foram pegos entre susto e emoção. Era a voz do Rei, os trejeitos do Rei e alguns elementos mais do Rei. A fama tinha chegado. Turnês, banda própria, manager próprio, aparições na TV e por ai afora. É o que todo o cantor quer, naturalmente.

Jimmy Ellis, ou melhor, Orion nos estúdios da Sun Records. A incorporação do cantor que fugiu da fama lhe deu sucesso, embora a máscara incomodasse a ele próprio, já que a fama era para o personagem, não para si (Reprodução/Sun)

Olhe só uma exibição de Orion ao vivo na TV:

Todo o cantor… menos Jimmy Ellis. E digo, desta vez, me referindo a Jimmy e não a Orion, o personagem. Ele odiava o fato de ser uma caricatura, um ser fantasioso que começava a instigar a curiosidade de todo mundo. Graças a Orion, começavam a surgir notícias sensacionalistas e teorias da conspiração de que o cantor por trás da máscara era mesmo Elvis, que a história criada por Gail em seu livro era uma parte de um plano arquitetado por Presley para escapar da fama e cantar sem pressão do show bizz e sem a perseguição midiática de outrora.

Em 1978, veio o primeiro disco – Reborn – que teve de trocar a primeira capa, estranha e um tanto perturbadora, por algo mais sutil e cheio de azul. Mas enquanto a fama e a lenda – lenda esta que dura até os dias de hoje – nascia, crescia e aparecia, Ellis não aguentava mais o peso de Orion. Ele mesmo não se considerava de forma alguma um imitador de Elvis (ele mesmo diz isso na canção abaixo), como tantos que já começavam a pipocar. Imaginava poder fazer sucesso sendo ele mesmo e escrevendo as próprias canções (este último como já fazia, e até que muito bem).

O primeiro disco, Reborn, em 1978. A esquerda, a primeira sugestão de capa, fidelíssima ao livro mas soturna demais. Do lado direito, a capa definitiva, também considerava por vários sites uma das mais estranhas do mundo da música (Reprodução)

Nesta ciranda, o psicológico de Ellis começou a pedir seu preço. O cantor começou a sofrer de crise de identidade, chegando a acreditar que pudesse ser um irmão bastardo de Elvis, filho de Vernon Presley quando este passou um período vivendo próximo donde Ellis vivia, no Alabama. A pressão, então chega a tal ponto que, cansado da vida dupla, tomou uma decisão que podia ser seu crucifixo definitivo no show business: acabar com a história por si próprio. Era o jeito.

A morte do personagem, o fim do sucesso

E foi o que ele fez. Na véspera do ano novo de 1983, em um show para cerca de 15 mil pagantes e ao final da apresentação, Ellis rasga a máscara e revela sua identidade que, até então, era um mistério até para a própria imprensa mais especializada. O preço foi alto tanto para a carreira de Jimmy quanto para a iniciativa de Shelby, que mesmo com uma avalanche de clones de Elvis interessados em ressuscitar Orion aparecendo em sua porta, decidiu botar por fim o projeto mesmo contrariado. E detalhe: para amigos íntimos, Shelby chegara a dizer que Ellis cantava melhor que Elvis.

De volta a vida sem a máscara. Foi o fim do sucesso, que ficou restrito a uns poucos revivals e flashbacks americanos. Jimmy morreria assassinado aos 53 anos, na loja de penhores que mantinha, em 1998 (Reprodução)

Sem a máscara, Jimmy tentou continuar nos palcos por si mesmo, o que passou do mundo do show business para uma simples ocupação de cantor. Esporadicamente usava a máscara apenas para pequenos revivals em shows que, ainda nos anos 90, atraiam um razoável público e garantiam um bom dinheiro, renda que era complementada apenas com os negócios da família.

Com o correr dos anos, Ellis cuidava de uma loja de bebidas, uma conveniência, um posto de gasolina e de uma casa de penhores, que lhe permitiam uma vida confortável além da de cantor. Infelizmente, um lance da vida acabou calando a voz do homem por trás da máscara em 1998, quando ele e a esposa foram assassinados na casa de penhores que mantinha por um homem armado. Jimmy tinha 53 anos.

Considerações: Um Elvis que não queria ser Elvis

Morria o homem, mas a lenda acabou ficando no ar. Grupos que estudam as tais teorias da conspiração ainda hoje se debruçam em hipóteses mirabolantes e investigações curiosas com relação a morte falsa de Elvis. Alguns ainda vão mais longe e chegam a afirmar que Orion era mesmo Elvis mesmo depois de Ellis provar o contrario. Seja como for, a jogada de marketing da Sun naquele momento sombrio foi o suficiente para colocar a pulga atrás da orelha de muita gente e construir uma das teorias conspiratórias mais famosas do mundo pop.

Não dá pra mentir, há feições e a voz é de parecida a quase igual. No entanto, Jimmy Ellis era, dos chamados Elvis Impersonators, o que queria mais se ver longe da sombra do Rei do Rock, mesmo preso pela máscara e pelo personagem que ganhou vida consigo (Reprodução)

Quanto a Jimmy Ellis, é inegável seu talento e sua capacidade como cantor, especialmente pela potência de voz, nitidamente parecida com a de Elvis sem nenhuma maquiagem nem alteração vocal proposital. Sobre Orion, eu e meu bom amigo de PG2 e de música, Daniel Castelani, demos destaques em algumas conversas, com Daniel dizendo que ele realmente imitava Elvis por conta do figurino que utilizava muito parecido com o do Rei e outras coisas mais.

Mas, analisando a história a este ponto, penso ainda que Ellis apenas aproveitou o bonde da história para chegar aonde queria chegar: ao sonhado destaque no mundo da música. A questão de incorporar um estilo como o de Elvis foi parte do jogo de marketing orquestrado pela Sun com base em Orion e que, talvez, poderia ter sido qualquer outro cantor sem ser o recém-morto Rei do Rock.

Em suma, e sem querer, Ellis imitou Elvis, mesmo que Ellis não queria ser Elvis. Ele mesmo afirmara, em uma entrevista em 1997, que a sua voz era, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição. Benção por lhe permitir ser famoso e cantar bem, mas uma maldição por acabar ficando sempre à sombra das lembranças de Elvis.

Fora as semelhanças, o rebuliço causado pelos jornais sensacionalistas foi absurdo naquele fim dos anos 70, mas compreendível. Afinal, em tempos tão inocentes e sem muita tecnologia, era possível acreditar que o cidadão que era apenas parecido pudesse ser o próprio muito bem disfarçado (Reprodução)

Foi um curso providencial da história para Jimmy, que se viu famoso mesmo agindo contra sua verdadeira vontade profissional, e para os anais da música, um conto interessante que gerou uma lenda e deixou algumas músicas bacaninhas a mais no cancioneiro do Tio Sam. Ellis ficou na história e criou uma lenda que, até hoje, tem quem a estude e acredite que Elvis não morreu, apenas voltou para casa, mesmo que alguns se perguntem se esta casa era Graceland ou em algum lugar no Alabama.

É isso, nos vemos no próximo SnaB! Até lá!

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