Liceu d’A BOINA (poesia): A arte de cada um, por Camila da Silva Alves

(Camila da Silva Alves)

Para expressar a arte que você tem dentro de si não é preciso ser um renomado, ter cursos superiores ou algo do gênero. Sempre prezei por isso há tempos, escrevendo poesias que expressavam meu sentimento no dado momento. Amores partidos, datas especiais, momentos, tudo serve de inspiração para criar algo a ser ouvido, contemplado, sentido.

Foi a mesma percepção que tive quando recebi a produção fotográfica e poética de uma jovem paulista com este mesmo sentimento de arte que expressa algo. Camila da Silva Alves, jovem de 16 anos que estuda no terceiro ano do ensino médio e que tem paixão por enxergar os olhos através de uma lente. Ela está movimentando-se no mundo da fotografia em projetos e outras ações e, quando pode, usa sua sensibilidade para registrar imagens incríveis.

E, muito além da imagem, a sensibilidade de Camila também é evidente na produção poética. No pacote que gentilmente me enviou também estavam lá cinco poesias, cinco expressões de sua mente e espírito em momentos de simples inspirações movidas pelos momentos da vida que, ao inspirar um poeta, motivam aquele passeio verborrágico em uma folha de papel.

Essas são as impressões que, certamente, você também terá de Camila ao conferir sua simples, porém inspiradora, produção. Direta, sem métricas, apenas sentimentos, depositados em imagens e palavras simples, diretas, que não precisam de muito para serem verdadeiras provas de arte de cada um de nós!

Bem-vinda ao LICEU, Camila! E você, aprecie suas expressões em imagem e palavra:


(Camila da Silva Alves)

Preto no Cândido

Menina pequena
Que sonhava brincar pela eternidade
Nem pensava em maior idade
Vivia em um conto de fadas

“Mulata de graça” dizia os senhores
Mas como diz Augusto “[…] o beijo,amigo,é a véspera do escarro[…]”
Os elogios não passavam de escárnio

A alma antes cândida
Tornou-se escura
Os olhos antes ativos,agora opacos e longínquos

A flor mais linda murchou
O espinho a perfurou
Os sonhos da pequerrucha, o homem matou

(Camila da Silva Alves)

Dedos

Quem olha seu sorriso desajeitado
Não vê a cruz em seu coração
E o seu rosto saudável
Não transmite as lágrimas de sua solidão

Chora,
A cada lágrima um oceano
Siga a ordem, senhor, senhora
A cada lágrima mergulho, me afundo, me afogo

Não aguento mais
Deixe-me sofrer com meu cais
Ensine-me a pagar a dor com o amor
A hipocrisia com a justiça

Altíssimo seja comigo
Pois há um lado sombrio em mim
Que ousam cutucar-me com seus dedos de morte

Não deixe, ó Pai
A escuridão dominar minha luz
Por favor celeste não me desabrigue
Pois não quero voltar com um anjo caído
Que o mundo novamente fez cair.

(Camila da Silva Alves)

Momentâneo

O relógio parece mentir
As horas se transfazem em segundos
quando tudo parece estar bem
E se modificam em anos
quando tudo é tempestade e puro breu

Ao passo que tudo se torna monótono
desejo a mudança instantânea
Eis que em minha vida acontece uma reviravolta
E depois de tantas mudanças o que sobrou foi um coração cansado e partido

Dizem que o amor é constante
Mas acredito que repetimos a dose desse sentimento
todos dias, mesmo sem perceber
Creio que ele é a cura de todo mau presságio

Suplico-te que antes que tudo passe
Me deixe ficar em seu coração
Prometo que mesmo quando tudo for deserto ou temporal
Serei sua dose diária de amor
Um oásis mortal.

(Camila da Silva Alves)

Mudou-se

O olhar pensante atravessava a janela
Perguntava-se “como deve ser em outro lar?’’
Há tantas luzes e casas
Mas nunca saberemos ao certo a vida de cada um

A tristeza de seu coração aumentou
Tudo está distante
Quase intangível

São como se minhas esperanças fossem fichas
Depositadas em coisas vazias
Por quanto tempo a dor irá me perseguir e me alcançar?

Cada vez que mudo de modo, de lugar, de fase
Deixo parte de mim para trás, tendo dificuldades para sepulta-la
Como se um carro atropelasse alguém e o motorista
Não voltasse para socorrer

Como ladrões em alta madrugada
que roubam aquilo que você tanto julga precioso
As vezes um objeto ,outrora uma vida.

(Camila da Silva Alves)

Utopia

Em minha mente eu crio meu mundo,
perfeito e justo
Onde a tristeza é apenas mais um substantivo
Em que todos ajudam seus semelhantes, amigos

Onde sorrisos abrissem caminhos para a vida eterna
Um mundo no qual todos acreditassem em seus potenciais
Existiria apenas uma regra, buscar a paz, porque o resto o tempo trás

Uma pena seria se um dia
Eu, uma pobre criancinha
Abrisse os olhos para a vida e ver que tudo imaginado
Jamais será realizado
Enfim, uma mera utopia

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