Dom Pedro e Graham Bell: O imperador do Brasil e a revolução da comunicação

Um imperador, um inventor e o telefone começou nesta forma. A amizade de Dom Pedro com Alexander Graham Bell foi crucial para o início de uma revolução nas comunicações que continua até hoje (Reprodução)

(Ricardo Hedler)

Com a praticidade da tecnologia atual, temos acesso a informação e a serviços que a alguns anos não poderíamos nem imaginar. Com um simples toque podemos aprender, nos entreter, pedir comida ou solicitar transporte. Toda essa praticidade na palma da sua mão, nos chamados smartfones, aparelhos de telefone celular que possuem uma interface prática como a dos notebooks, mas com maior mobilidade. Num único aparelho é possível tirar fotos, fazer uma pesquisa na web, jogar, assistir, mandar mensagens etc.

Sua principal função, entretanto, que seria fazer ligações, está ficando cada vez mais de lado. É mais comum mandarmos uma mensagem por Whatsapp do que discar e conversar. É pouco comum utilizarmos orelhões para fazermos ligações, como éramos obrigados a fazer a um tempo atrás. Os jovens de hoje não poderão jamais imaginar como era ter que ir na mercearia mais próxima, comprar um cartão, ou ficha, ir até o orelhão (se estivesse funcionando) inserir o cartão ou ficha, discar o código de área e o número e, ai sim, falar com a pessoa.

Houve uma época, a muito tempo atrás, que não haviam nem orelhões. A comunicação era possível somente através do telegrafo ou, até mesmo, cartas. As notícias demoravam a chegar. A informação e o conhecimento estavam apenas em livros e jornais e demorávamos meses para cruzar o atlântico até a Europa. Essa condição só mudou depois da feira de tecnologia dos Estados Unidos, onde uma curiosa coincidência fez com que um dos maiores inventos da humanidade fosse apresentado ao mundo: o telefone.

Dom Pedro já conhecia Graham Bell de uma visita anterior a uma das escolas de surdos mantidas pelo inventor. O encontro na exposição de 1876 foi importante para que o telefone fosse notado entre fortes concorrentes como as grandes invenções dos EUA, como a eletricidade e a lâmpada (Reprodução)

A exposição internacional de arte, manufaturas e produtos do solo e minas, realizada na Filadélfia em 1876 para comemorar o centenário da independência dos EUA, reuniu mais de 60 mil expositores de 37 países distribuídos em 250 pavilhões, e teve inúmeros convidados ilustres. Um destes convidados era nada mais nada menos que Dom Pedro II, então imperador do Brasil.

O primeiro monarca a visitar os EUA, que durante os meses que esteve em visita aos EUA foi tratado como uma verdadeira celebridade, acompanhou os juízes da feira durante a avaliação dos inventos e, graças a isso, o professor Alexander Graham Bell, que havia se inscrito em cima da hora e ficado em um local muito isolado da exposição, teve a visibilidade que buscava para expor seu invento, o novo aparato acionado pela voz humana. Dom Pedro e Bell conheceram-se semanas antes devido o interesse do monarca numa escola de surdos criada por Bell em Boston. Os juízes não teriam nem passado pela barraca de Bell se os dois não tivessem se cruzado durante a feira.

Acompanhado dos juízes, fotógrafos e repórteres, Graham Bell solicitou a Don Pedro, que ficasse a uma distância de cem metros segurando próximo ao ouvido uma concha metálica ligada a um fio de cobre. Na ponta oposta do cabo pronunciou os dizeres: Ser ou não ser (retirado da peça Hamlet de William Shakespeare). Ao ouvir isso pela tal concha, Don Pedro, maravilhado, teria dito: Meu Deus! Isso fala! Eu escuto!

O aparato acionado pela voz humana foi rebatizado por telefone e foi uma das maiores invenções da exposição. Dom Pedro que foi o primeiro homem na história a falar pelo telefone logo encomendou o aparelho pessoalmente com Graham Bell. Quatro anos mais tarde a novidade chegava ao Rio de Janeiro. Antes mesmo que em países europeus. Logo, cabos telefônicos eram instalados ao longo do território brasileiro, facilitando muito a vida das pessoas.

Em 1956 a Ericsson, a partir de tecnologias criadas em 1888 por Heinrich Hertz, desenvolveu o primeiro telefone celular, que pesava 40 quilos e não era exatamente portátil. Isso mudou em 1973 (quase cem anos depois da exposição do invento de Graham Bell) quando a Motorola lança o Dynatac 8000x, o primeiro telefone celular realmente portátil que, apesar de ter 25 cm de comprimento e pesar um quilo, era um salto para a comunicação. Tudo isso até que, finalmente, Steve Jobs e a Apple, apresentaram o iPhone, o que causou uma revolução nos celulares em 2007.

Uma marcha constante: do trambolho de 1973 a tecnologia na palma da mão (Reprodução)

De 1973 pra cá os telefones celulares evoluíram cada vez mais. Ficando cada vez menores e mais práticos. As ligações se tornaram cada vez menos frequentes. O mundo se tornou menor. Barreiras foram quebradas, muros caíram (alguns literalmente). A tecnologia, entretanto, que deveria aproximar as pessoas, parece estar causando o oposto.

As pessoas perderam o laço social que as ligava com as outras. Ironicamente parece que antes uma pessoa poderia estar longe e você não teria como conversar com ela e saber como ela está, mas elas sempre estavam conosco em nossos pensamentos. Hoje, estamos ao lado de quem amamos, mas nossos pensamentos estão longe, muitas vezes num YouTube ou Facebook da vida.

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