Vasco, Eurico, poder, interesses: O nebuloso horizonte na colina

O grupo de correligionários de Alexandre Campello comemora, e a lenda reza que gritos de “Eurico” foram ouvidos no salão. O velho presidente e seu séquito ganham sobrevida na eleição confusa do novo mandatário. E, assim, o Vasco segue com a perigosa névoa da incerteza por sobre a colina (Reprodução)

Não é surpresa para os amigos d’A BOINA que minha simpatia e torcida no futebol sempre foram para o Gigante da Colina, o Vasco da Gama. Desde criança, sob influencias do meu avô, fui apresentado e acompanhei, mesmo a distância em vezes, os lances do time da cruz de malta no nobre esporte bretão brasileiro. Vibrei com as conquistas, senti apertado os rebaixamentos, coisas de todo torcedor, ao menos o simpatizante, já que o futebol não é o meu forte no esporte.

Mas nestes últimos dias, o Vasco virou o verdadeiro espelho do Brasil atual. Jogos de poder, esquivas, interesses escusos tendo como pano de fundo a reconstrução do gigante em discursos vazios e visivelmente mentirosos, quando no mínimo é difícil acreditar na palavra de quem assume o poder. A torcida está em polvorosa, verdadeiramente revoltada e com razão, cansada do coadjuvantismo dos últimos tempos.

Para um vascaino é quase uma normalidade estes lances da política interna do clube. Há tempos, o clube está preso num câncer chamado Eurico Miranda, o grande torcedor, o Vasco em pessoa e tudo mais o que o ex-presidente se definiu por anos e anos. Com Eurico, o Vasco viveu dias de glória, é fato, mas por trás de cada caneco levantado escondem-se histórias fantásticas (fantasticamente assustadoras) nas brigas pelo poder de um clube, coisa que não é exceção em times brasileiros, mas com contornos assustadores vindos de São Januário.

De corte de energia a briga com jornalistas, o arcadismo das atitudes de Eurico Miranda já não tem mais lugar no futebol moderno há tempos. No entanto, o velho cartola ainda utiliza-se dos velhos e sujos truques para manter-se vivo no poder. Interesses pessoais que inviabilizam qualquer projeto de clube (Reprodução)

Começou em 1969, quando sua mão apagou a sede do clube e inviabilizou uma eleição. Presidentes se sucederam, sempre eles com a sombra incômoda de Eurico em busca do poder. Não dá para se negar que o período foi de conquistas para o time. Pegando de 1969 até 2003, quando alcançou a presidência numa mera formalidade diante do seu poder, o clube tinha acumulado uma Libertadores (1998), uma Copa Mercosul (2000), quatro Campeonatos Brasileiros (1974, 1989, 1997 e 2000), um Rio-São Paulo (1999) e 10 de seus 24 títulos cariocas (1970, 1977, 1982, 1987, 1988, 1992, 1993, 1994, 1998, 2003). Deu para forrar mais a sala de troféus, não dá para mentir, fora a passagem de grandes jogadores, do naipe de Roberto Dinamite para cima.

No entanto, as sombras do futebol estavam as curiosas brigas pelo poder, as lutas e formações de grupos que puxavam para cada lado em busca dos seus interesses, contando com a sorte de ter em campo times fortes com grandes nomes e partidas memoráveis. Era fácil ser presidente e brigar pelo poder nestas condições no campo, coisa que persistiu até a entrada dos anos 2000, quando o futebol brasileiro teve que passar, na marra, por uma modernização nos seus processos, o que ainda não alcançou plenamente.

O Vasco de 2000, campeão da Copa Mercosul e da Copa João Havelange (Campeonato Brasileiro), o último grande time do cruzmaltino em anos. Ha tempos, com exceção total de 2011, que o Vasco não circula entre as cabeças de qualquer campeonato. O certame carioca nem é digno de contagem, por ter um nível técnico baixíssimo nos últimos tempos (Reprodução)

Estas brigas pelo poder e uma administração duvidosa no Vasco iriam cobrar seu preço em algum momento. Eurico era o homem do Vasco, mas ao mesmo tempo era seu maior peso e seu modo de ver o futebol tinha validade, embora não parecesse. O estilo quase mafioso, tragando charutos e sempre acompanhado de uma imagem de N.S. de Fátima, derreando impropérios para repórteres e emissoras de TV e utilizando-se de manobras controversas as escuras das câmeras. Este era o Eurico que muitos aplaudiam esperando a bênção e que ainda aplaudem como uma espécie de salvador dos dias atuais.

Mas nos anos 2000, o modelo mafioso de gerir clubes começou a cobrar seu preço. Não havia mais espaço para o Vasco de Eurico manter-se como um clube grande com todas as manobras patriarcais no fundo. Vei o primeiro rebaixamento, o período de presidência de Roberto Dinamite que rendeu bons momentos e uma Copa do Brasil em 2011. Meras névoas. A raiz do problema era bem menor e o clube, definhando, conheceu novos rebaixamentos a segunda divisão.

E alguns clamavam a volta do homem-Vasco, que voltou sob os brados de o respeito voltou quando, na verdade, as vitórias em estaduais pobres tecnicamente eram refúgios de uma torcida carente pelos velhos tempos que não voltavam. Anos de campanhas medianas a pífias, vexames e confusões de bastidores que culminam no episódio que se arrasta desde o fim de 2017, na polêmica eleição entre Eurico e Julio Brandt, outra vez permeada pelos joguetes do dirigente rotundo.

Julio Brandt, o eleito entre os sócios mas um “aventureiro” para os beneméritos de Eurico. Uma eleição confusa que, em vez de mudar de ventos, apenas achou outra forma dos velhos tecnocratas manterem-se nas suas posições de tanto tempo (Reprodução)

Houve suspensão de urna, Brandt a caminho da sala de presidente do clube e a onda de pedidos judiciais de um Eurico desesperado em busca do poder que, para ele, foi usurpado por aventureiros. No ar, havia alguma esperança (sem querer dizer que Brandt seria tudo isso, talvez não fosse) mas nos submundos, sempre há os velhos tecnocratas de um clube que não sentem falta das glórias, mas sim das mordomias, das vantagens e das posições dentro de uma equipe de futebol do tamanho do cruzmaltino.

Então, quando o nome de Brandt, aclamado pelos sócios, chega aos tecnocratas, estes não hesitam e recusar sua chegada, amparados por um regimento interno antiquado e irregular para os padrões democráticos de uma escolha. O vice, Alexandre Campello, médico feito na carreira, larga a chapa e se lança com o apoio do velho capo, vence a enésima eleição no período e, para surpresa de uma legião de sócios, é o presidente com as bênçãos de Eurico.

E juram os ouvidos em São Januário terem ouvido, nas celebrações, os gritos de Eurico em vez do nome do novo presidente. A torcida em sua maioria sente o golpe. Outra vez, o Vasco está aprisionado no modelo arcaico de administração, liderado por um grupo que, esquecendo os compromissos necessários no esporte, coloca seus interesses em primeiro plano e esquece de quem realmente importa na construção de um clube: o torcedor.

Alexandre Campello, um médico ortopedista de longa presença no clube que, agora, comanda um grupo antiquado preocupado, simplesmente, com os interesses próprios. E tudo isto com um clube há poucos dias de estrear na Libertadores e com um Campeonato Carioca de início fraco (Reprodução)

O Vasco é, simplesmente, o espelho do Brasil atual. Campello chega ao poder sob a carta irregular da escolha anti-democrática, imposta por um grupo de pessoas do futebol antigo apegadas as glórias do passado e não a projetos sérios de futuro, como tantos clubes do Brasil. O importante para eles é o agora, o já, o momento de glória a frente de uma presidência. Não uma ideia de recuperar a glória de um time outrora grande, combalido, cansado, desmontado, fraco.

É duro falar isto tudo como vascaíno? Não há dúvida que sim. O Vasco – infelizmente – tem novo presidente. E o horizonte a frente da Colina outrora gloriosa nunca foi tão nebuloso para a caravela que inicia 2018 tangida pelos ventos da incerteza, pronta para virar a qualquer momento.

O que será do Vasco? Ninguém sabe… E até é melhor nem saber, por hora ou para sempre.

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