Liceu d’A BOINA (literatura): Os Estrangeiros (Parte2)

(Reprodução / Congresso Bruxólico)

(Camila Klitzke & André Bonomini)

Capítulo 3

Foi acordada pelo susto do Thiago chamando do lado de fora da tenda. Olhou o relógio e deduziu que havia dormido uma hora apenas, cambaleando pegou suas coisas e foi em direção ao carro.

– Mika, e o Estrangeiro? Vai se despedir? – Rastafári a questionou.

– Vou, mas não sei onde ele está instalado… Deve estar dormindo agora.

Chovia muito, mesmo assim, ela percorreu as tendas, que se localizavam perto do rio e começou a questionar a respeito do grupo de Cariocas para as pessoas que encontrava. Ninguém soube responder… Bufou com tristeza e seguiu viagem.

Já era perto das três horas da tarde, quando Vinicius abriu os olhos e deu de cara com o livro que havia prometido entregar para Mika. Deu um sobressalto da cama, estranhamente empolgado com o que vivera na noite anterior. Talvez arrependera-se em minuto de não ter dado a ela a chance de um beijo apenas naquela mistura de sentimentos. O e “se”… martelava como um fantasma… poderia ter evitado o acidente?

Brevemente, na memória, passavam os últimos instantes com Mika a caminho da barraca dela, onde se separariam e onde lhe prometeu o livro para o dia seguinte.
*flashback*

– Olha… me desculpe…

– Tudo bem, não é você, saiba disso… São mil coisas que se passam na minha mente, sabe? As vezes, a gente quer se desligar da vida fora daqui… e não consegue…

– Entendo… mas te sou grata pelo dia, muito… – Suavemente, Mika dispara-lhe um sorriso sob um olhar dolente – Te vejo amanhã?

– Sim! Pode contar comigo! Aliás, tenho comigo um livro que eu acho que você vai gostar. Tem a ver com essas coisas de longe… tem a ver com a gente…

De súbito, ambos pararam outra vez envoltos com o silêncio do parque em volta, onde todos já adormeciam. Ela parecia não resistir, quando o ímpeto lhe voltou aos músculos, ele a cortou.

– Eu lhe trago amanhã… eu encontro você atrás das piscinas… mesmo lugar.

– Tudo bem – Disse sorrindo encantada, sem disfarçar o que lhe transbordava por dentro. E, despedindo-se, quase conseguiu o que queria: ao beija-lo no rosto conseguiu triscar-lhe os lábios, o que pegou-o num agradável susto.

E ele ficou parado… observando-a seguir até sua tenda, e antes que pudesse dizer “Vejo você amanhã…” Ela virou-se sorrindo numa aparência que o fazia lembrar de uma entidade… Não falou mais nada… Só ficou observando, para registrar esse momento.

(Reprodução)

Saiu às pressas de sua tenda de baixo de chuva e foi procura-la na parte de trás do parque aquático… Ao passar pela tenda da discotecagem, viu um aglomerado de pessoas. Haviam muitas pessoas e reconheceu uma das amigas de Mika… Mari estava conversando com os organizadores, quando Vinicius a interrompe.

– Mari, Você sabe onde fica a tenda da Mika? – perguntou apressado.

– Cara! Você não soube, né? – respondeu irritada.

Nesse momento Vinicius para e, por um momento, pressente que estava prestes a ouvir algo que não estava esperando.

– Cara! Eles saíram daqui de manhã, pelas no… – Mari travou, e não consegue dar continuidade, é tomada por uma tristeza que faz calar sua voz.

A confusão atinge em cheio Vinicius que fez com que surgisse mais perguntas do que respostas. Enquanto isso o aglomerado se entreolhava em um silêncio sepulcral, até surgir a voz de Rafa.

– Eles saíram pelas nove, nego. Muita chuva… Ela perdeu o controle do carro… Giraram… Giraram e…

Um nervosismo ainda maior correu por suas veias, porque Rafa também não conseguiu terminar de dizer, o que deixou todos atônitos.

– NÃO RESISTIRAM! – Disse Mari, entre soluços e grunhidos.

O pavor percorre como uma descarga elétrica sua alma, passa de estático a perplexo, não consegue aguentar a pressão e cai de joelhos em um abismo de confusão de sentimentos.

(Reprodução)

Capítulo 4

Lágrimas escorreram nesse momento… e assim Vinicius já não estava mais no festival, estava com o poema em suas mãos. Mika havia deixado o poema com Mari, antes de deixar o festival. Com o rosto duplamente encharcado, sentia como se cada gota da chuva presente o atingisse como pedrinhas. O panorama do dia, cinzento e aparentemente sem vida, o remetia ao clima bruxólico daquele período inesquecível e dela, Mika, que atormentava seus sentimentos como uma visão a cada fechar de olhos desde então.

Nas mãos, molhado, restava-lhe a única lembrança da viagem noturna que fizera: o poema, talvez agora a única lembrança viva de Mika. Lentamente, abriu o papel, uma página de caderno ainda guardando as espirais rasgadas. A tinta da caneta parecia borrar com os pingos, da chuva e do pranto que brotava das retinas.

Começou ali mesmo seu flashback particular, passeando os olhos pelo papel, que versava aquela que tornou-se a personagem-título do livro que repousava sob a escrivaninha. Ela era ásua estrangeira, a entidade que aparecera em uma noite de fantasia coloridas e intensas, de cores, luzes, vaga-lumes. De corpos, calor e viagem. De dois e nada mais. Então, sentindo que pairava sobre si alguma paz, notou a calmaria presente.

Outra vez, a chuva lhe atingiu e, outra vez, partiu. Saiu então, Vinicius, determinado. Tomou nas mãos o casaco, largou aquela folha versada por sobre a escrivaninha e tomou o rumo do cotidiano. E sai atravessando as fronteiras de seu cofre mental para o dia a dia mundano e frio.

A vida segue.

(Reprodução)

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