Urda em A BOINA: Lembrando da Estrada de Ferro

(Reprodução)

(Urda Alice Klueger)

Como num bom filme de Western, tínhamos uma estrada-de-ferro aqui no Vale do Itajaí, desde o começo do século até 1966 ou 1967, não tenho certeza. Ela ligava Blumenau até quase os confins da região colonizada um século antes; ligava Blumenau ao porto de Itajaí. Era uma estrada importante: a vida da região corria por ela. Para tudo nos servia, e, além do seu papel econômico, era uma fonte de alegrias, era a promessa das coisas boas.

Vou contar um pouquinho da minha experiência com ela. Na minha infância, a estrada-de-ferro significava encantadores finais-de-semana na casa da minha avó, em Lontras. A gente tomava o trem no centro de Blumenau, e o meu delírio nessas viagens era comer cocada, que meu pai sempre acabava comprando do vendedor do trem, iguaria rara, a mais deliciosa que eu conhecia.

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Urda em A BOINA: Altos da Rua XV

O alto da Rua XV, diante do Cine Blumenau Outros tempos de uma jovem cidade, contados aqui pela amiga de A BOINA, Urda Alice Klueger (Antigamente em Blumenau)

(Urda Alice Klueger)

Sou de lá: nos altos da Rua XV fui gerada; lá nasci na clínica de um médico que desperta as maiores saudades na família, Dr. Ernani Senra; lá vivi o primeiro ano de vida. Meus pais acabaram deixando o local quando eu fiz um ano, justamente porque tinham uma menininha que queria espaço para brincar, e foram morar numa casa na Garcia, onde acabei me criando. Mas voltei. Aos 21 anos estava, de novo, nos altos da Rua XV, no nº 1398, lugar que então se conhecia como Prédio Garcia, e que não sei como se chama hoje, mas sobre o qual ainda pretendo escrever um livro.

Voltei para os altos da Rua XV naquele tempo encantado em que amávamos os Beatles e os Rolling Stones (eu nunca deixei de amá-los!), em que se contestavam todos os antigos valores; em que Blumenau passara a fazer parte das rotas hippies, e fazíamos cândidos amigos que tocavam violão e discutiam poesia, enquanto milhares de pessoas estavam morrendo na Guerra do Vietnã. Algumas pessoas de Blumenau embarcaram no trem que passava e se foram pelas rotas hippies – eu fiquei lá nos altos da Rua XV, a ver o que acontecia mais perto. E por lá acontecia muita coisa.

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Urda em A BOINA: O movimento hippie passou pela minha cozinha

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Hippies! Cabeleiras ao vento, pensamentos de paz e amor e uma vida tranquila, sem destino e cheia de filosofia. Este simpático movimento que também já passou por Blumenau descrito pelos olhos de Urda, que os vira passar e conviver diretamente em animadas noites de jantar e conversa no apertamento em que vivia com a irmã na XV (Reprodução)

(Urda Alice Klueger)

Às vezes, pessoas jovens com quem convivo me perguntam se eu fui hippie. Eu fico me questionando: fui? Não fui? Bem, eu não botei a mochila nas costas e fui para as estradas, como os hippies faziam, nem sentei em praças a fazer artesanato, nem vivi em fazendas comunitárias – na verdade, em todo o tempo em que as coisas estavam acontecendo, eu continuei a levar uma vida de pequena burguesa, em Blumenau, primeiro estudando, depois trabalhando e estudando, e sei que o meu pai jamais deixaria que eu botasse a mochila nas costas e saísse pelo mundo.

Por outro lado, eu estava ligadíssima em tudo o que acontecia: era adolescente quando chegaram as primeiras notícias sobre o movimento hippie, e quase fiquei adulta antes que ele terminasse. Minhas antenas estavam todas voltadas para aqueles jovens que estavam botando em xeque todos os valores pré-estabelecidos, que estavam derrubando tabus e preconceitos, e tudo o que eu queria na vida era ser como eles. Na verdade, absorvi ao máximo a filosofia hippie, e quando me perguntam se fui hippie ou não, acabo pensando cá comigo : De uma certa forma, eu sou hippie até hoje!

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Urda em A BOINA: Churrasco de Igreja

Churrasco de festa de igreja; O inigualável (Reprodução)

Churrasco de festa de igreja; O inigualável (Reprodução)

(Urda Alice Klueger)

Aquele aroma vem lá da minha infância mais antiga, do tempo em que ainda não tinha quatro anos, e é inesquecível e incomparável. Em dias de festa, e houve alguns naquele período em que começo a lembrar das coisas, meu pai fazia o perigoso braseiro no chão do rancho, rodeado por alguns tijolos, e meninas pequenas como eu ficavam proibidas de aproximar dali um dedinho que fosse.

O fogo, assim como a água, continuam exercendo seu fascínio atávico sobre o ser humano, e ainda me lembro muito bem do rubor daquelas brasas vivas e perigosas, que logo eram cobertas pela grelha de ferro, utensílio importantíssimo naqueles tempos remotos – e que continua a existir, principalmente em festas de igreja.

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Urda em A BOINA: Por causa do Papai Noel

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(Urda Alice Klueger)

Em 1963, eu tinha aprendido a andar de bicicleta. Minha mãe, porém, sabia a filha que tinha, e me proibia terminantemente de andar de bicicleta na rua. Era começo de Dezembro, entretanto, e eu estava no colégio, ensaiando a cerimônia de fim de ano, onde receberia a medalha do primeiro lugar. Lembro como usava meu vestido branco de primeira comunhão, e como a tarde estava linda, cheia de sol. Aí, uma menina da minha sala, chamada Eliane Day, resolveu pegar sua bicicleta e ir em casa buscar um lanche. Ela morava ali perto, e eu não titubeei: num instante arranjei uma bicicleta emprestada, e fui com ela.

Foi tudo bem na ida. Esperei na frente da casa de Eliane enquanto ela pegava o seu sanduíche embrulhado em branco guardanapo de pano (papel, naqueles tempos, era raro), e começamos a voltar. Passamos por uma ruazinha chamada 12 de Outubro, em direção ao colégio, onde havia um pontilhão bem numa curva. Foi bem ali, bem alguns metros antes do pontilhão, que havia um menino vestido de Papai Noel. Admiradora incondicional do Natal, aquele pequeno Papai Noel me fascinou de imediato. Fiquei olhando para ele e pedalando a bicicleta, o pescoço virado para traz e a bicicleta indo para frente, até que:

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Urda em A BOINA: Um dia, a infância!

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(Urda Alice Klueger)

Excerto do meu livro “No tempo da Ana Bugra”, publicado em 2016.

Se podia haver um lugar fascinante para uma criança morar era aquela casa! Havia um espaço vazio onde talvez no passado se guardasse forragem para o gado e onde se podia brincar de escolinha quanto se quisesse! Os primos atravessavam a rua e vinham brincar com a gente, apenas os menores, claro, Afonso, Jorge Luiz, Ruth e Darcy. Acho que os demais já estavam grandes demais para brincarem de escolinha, não lembro muito direito. Mas sei que tínhamos sobras de cadernos e tocos de lápis de escrever e de colorir, e aquela brincadeira era a minha preferida.

Alguém me ensinou que o número 4 era uma cadeirinha, e então eu o escrevia invertido, como se fosse uma cadeirinha mesmo, onde uma fadinha minúscula pudesse se sentar a qualquer momento. Eram infindáveis as possibilidades de uma escolinha, e sem saber ler ou escrever, eu tentava me expressar desenhando, e desenhava canecas amarelas com flores vermelhas, e casinhas com árvores do lado, e outras coisas assim. Nunca consegui desenhar um cachorro, ou uma vaca, coisa que tanto queria. Hoje, já com um pé na terceira idade, tenho absoluta certeza de que não nasci para desenhar, embora naquela altura tivesse tanta vontade de fazê-lo.

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